Datafolha: Eleitor que esquece o voto é aliado do parlamentar picareta

Datafolha: Eleitor que esquece o voto é aliado do parlamentar picareta

“O Congresso não presta!” Os brasileiros têm boas razões para acreditar nisso, dada a percepção de que muitos parlamentares legislam para seus interesses particulares ou vendem o mandato para lobistas — e o povo que se exploda.

Mas, a partir do momento em que o eleitorado não lembra nem o nome dos semoventes que tiveram a honra de receberem o seu voto para a Câmara e o Senado, torna-se cúmplice deles. Pois jabuti não sobe em árvore sozinho, alguém o põe lá.

Não estou aqui ignorando o poder econômico dos envolvidos, os bilhões em emendas parlamentares, as propagandas mentirosas, a pressão de patrões que tratam seus empregados como curral eleitoral. Mas isso faz parte da análise do que leva alguém a escolher o voto. Estou aqui abrindo o alçapão que fica no fundo desse poço.

A escolha do parlamentar que representa, em tese, os interesses de uma fatia da população vem sendo tão irrelevante que a pessoa nem se lembra do nome que deveria cobrar. O voto, em vez de discutido e refletido, é escolhido, não raro, horas antes da votação, no zap enviado pelo amigo que sugeriu o primo do compadre, no santinho que é apanhado no chão da zona eleitoral. Não se entende a importância do Congresso, e isso cobra um preço em qualidade de vida.

Pesquisa Datafolha reforça essa percepção, apontando que 67% dos eleitores não se lembram em quem votaram para a Câmara dos Deputados e 66%, para o Senado Federal, em 2022.

Cerca de dois terços da população, portanto, entregaram o voto a alguém e esqueceram. Ou seja, não fiscalizaram nem cobraram a efetividade de suas promessas ou a qualidade da representação política dos interesses de sua comunidade. O que não significa que ela não sinta os impactos, gerando repercussão nas urnas a cada quatro anos.

Pior: 36% disseram não se lembrar de nenhum nome de deputado federal, e outros 32% afirmaram não saber. Dos 513, apenas seis foram lembrados, sendo os dois primeiros Nikolas Ferreira (PL-MG) e Erika Hilton (PSOL-SP), exatamente os nomes que estão na linha de frente da disputa ideológica de seus campos nas redes.

Há poucos parlamentares que se esforçam em criar e manter canais de gestão participativa com seus eleitores. Pelo contrário, a maioria se aproveita de que o grosso da população está mais preocupado com a sua sobrevivência diária e não encontra tempo para acompanhar a aprovação de leis que reduzem a proteção de trabalhadores ou pioram sua aposentadoria. A questão do fim da escala 6×1, puxada por Erika e pelo vereador Rick Azevedo, que ganhou as ruas, é um ponto fora da curva.

A falta de fiscalização dos eleitores facilita a vida do grupo de parlamentares que se elegem com promessas de leite e mel, mas dedicam os seus mandatos a legislar em causa própria ou a ganhar dinheiro. E, dessa forma, lembram da existência do eleitor apenas a cada quatro ou oito anos.

Esse ciclo perverso se retroalimenta com precisão mecânica: o parlamentar medíocre prospera exatamente porque sabe que não será cobrado, e não será cobrado exatamente porque a população, sobrecarregada ou indiferente, já esqueceu o nome que assinou no cheque em branco.

Enquanto a indignação se acumula nas redes sociais a cada escândalo, o mandato segue seu curso sem maiores perturbações, porque fiscalizar dá trabalho, exige tempo e atenção, e é muito mais fácil lamentar o estado do Congresso do que lembrar o número do deputado que se elegeu prometendo mundos e fundos.

Então, da próxima vez que a conversa girar para o eterno “o Congresso não presta”, vale pausar um segundo. Porque se dois terços do eleitorado entregaram o voto e viraram as costas, o sistema falhou sim, mas não sozinho.

O parlamentar ruim é, em parte, produto de um eleitor ausente. E o eleitor ausente, por sua vez, é corresponsável pelo Congresso que diz odiar. A culpa também é nossa.

Por Leonardo Sakamoto

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