Maquiavel esmiuçou como ninguém o modus operandi dos tiranos donos do poder
“O tirano aterroriza os súditos. Com maleficência, espreita o mundo através de seu palácio solidamente fortificado; domina toda a vida à sua volta, tão sensível à presa ou aos predadores que de avizinham quanto a aranha delicadamente equilibrada no centro da teia. Apodera-se do crédito das realizações de homens mais nobres, que gastam a própria subsistência em projetos cívicos, como grandes igrejas e outras belas edificações. Entretém embaixadores de potências estrangeiras à sua mesa e toma decisões que afetam o bem-estar de todos os súditos, consultando apenas seus favoritos. Transforma o Estado numa máquina em proveito próprio e no de seus amigos. E não vacila em arrebatar as posses dos homens abastados ou a virtude das donzelas puras. Resiste com ferocidade absoluta a qualquer ameaça à sua autoridade única.”
Parece-lhe um perfil de Donald Trump? Claro que sim, mas é a descrição de um tirânico estadista feita pelo frade dominicano Girolamo Savonarola na obra “Tratado Sobre o Governo da Cidade de Florença”, escrita entre 1494 e 1498. Foi na Florença de então que viveu Maquiavel, cujo príncipe que batiza sua principal obra encontra notáveis semelhanças com o tirano de Savonarola, e ambos com a abominável figura que hoje governa os Estados Unidos.
Na sexta-feira (26), Trump prometeu ajuda à Venezuela, destruída por um terremoto de proporções gigantescas, mas não perdeu a oportunidade de proferir seu sarcasmo desumano, dizendo que o povo venezuelano “está feliz brincando nas ruas”. É a cara desse vigarista.
Maquiavel esmiuçou como ninguém o modus operandi dos tiranos donos do poder – “O Príncipe” é seminal, sua atualidade é assustadora. O estadista maquiavélico, a despeito de ser dotado de maior sofisticação intelectual do que o atual mandatário americano, personifica boa parte dos atributos de crueldade que caracterizam seu congênere do Século XXI.
A incrível capacidade de mentir, ou incapacidade de dizer a verdade, é marca indelével de Donald Trump – isso é notório. Também o é para o príncipe de Maquiavel, como atesta o parágrafo a seguir: “Todos concordam quanto é louvável que um príncipe mantenha sua palavra e viva com integridade, não com astúcia; todavia, em nossa época vê-se por experiência que os príncipes que realizaram grandes feitos deram pouca importância à palavra empenhada e souberam envolver com astúcia as mentes dos homens, superando por fim aqueles que se alicerçaram na sinceridade”.
Maquiavel, no livro espetacular, também destina algumas linhas aos aduladores do príncipe, decifrando o que lhes está reservado na agenda principesca. Eis um bom recado aos Bolsonaros, que esperam, incautos, frutos do seu puxassaquismo: “Não quero deixar para trás um ponto importante, um erro do qual os príncipes dificilmente sabem defender-se, a menos que sejam muito prudentes e façam boas escolhas. Refiro-me aos aduladores, dos quais as cortes estão repletas: pois os homens se comprazem tanto com suas coisas, e de tal modo se enganam com elas, que com dificuldade se defendem dessa peste. E, caso queiram defender-se, correrão o risco de tornar-se desprezados; porque um príncipe não tem tem outro modo de esquivar-se das adulações senão fazendo os homens entenderem que eles não o ofendem dizendo-lhe a verdade; porém, se todos lhe disserem a verdade, lhe faltará a reverência devida”.
Em muito Donald Trump diferencia-se do príncipe maquiavélico. O príncipe cultiva e conquista adoração, enquanto o presidente americano parece cevar a repulsa à sua pessoa. O príncipe prima pela disciplina e a racionalidade, Trump é impulsivo e imprevisível. Contudo, as semelhanças entre eles são mais gritantes.
Maquiavel escreveu, em “O Príncipe”, que “é muito mais seguro ser temido do que amado”. Trump explicitamente adota esse princípio, tendo declarado publicamente que “o verdadeiro poder é o medo”. O livro do filósofo florentino afirma que o governante não precisa possuir todas as virtudes, mas deve imperativamente parecer possuí-las – Trump domina a narrativa pública manipulando a mídia e as redes sociais para moldar a própria imagem de sucesso e força.
O desprezo por normas estabelecidas é outro traço que aproxima Trump do personagem maquiavélico. Maquiavel aconselha seu líder a “aprender a não ser bom” quando a manutenção do Estado exigir. A quebra sistemática de tradições institucionais, o descarte de aliados políticos tradicionais e o foco em interesses nacionalistas estritos espelham esse pragmatismo radical em Donald Trump.
O filósofo florentino defendia que o príncipe civil deve subir ao poder com o suporte do povo para conter a elite econômica. O discurso de Trump foca exatamente no combate ao “sistema” (the swamp) para inflamar sua base eleitoral.
Por Paulo Henrique Arantes
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