Num cenário de super El Niño, as temperaturas muito elevadas, combinadas à tendência de escassez de água para abastecer os sistemas florestais, podem contribuir para a diminuição da absorção de carbono pelas árvores
Segundo estimativas da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), o fenômeno climático conhecido como super El Niño, responsável pelos episódios de aquecimento do Pacífico equatorial, tem até 81% de probabilidade de ocorrer entre outubro e dezembro deste ano e 97% de chance de persistir até o início da primavera de 2027.
A NOAA indica que o índice de temperatura da região Niño 3.4 estava 1,2 °C acima da média já no começo do mês de julho, enquanto a região Niño 1+2, no Pacífico equatorial oriental, registrava uma anomalia de 2,7 °C.
Além do calor mais intenso que caracteriza a ocorrência do fenômeno, há outro motivo de preocupação: as florestas tropicais da América do Sul, principalmente nas áreas mais quentes e periféricas da Amazônia, podem deixar de funcionar como sumidouros líquidos de carbono durante episódios mais intensos do El Niño.
Um sumidouro de carbono é um sistema natural ou artificial que absorve mais carbono da atmosfera do que libera em determinado período. No caso das florestas, as árvores retiram CO₂ do ar durante a fotossíntese e incorporam parte desse carbono à madeira, às raízes, às folhas e ao solo.
Num cenário de super El Niño, as temperaturas muito elevadas, combinadas à tendência de escassez de água para abastecer os sistemas florestais, podem contribuir para a diminuição da absorção de carbono pelas árvores.
Foi exatamente essa dinâmica que uma equipe internacional de mais de cem pesquisadores conseguiu observar durante o El Niño de 2015–2016, segundo uma análise publicada na revista Nature Climate Change.
O grupo acompanhava árvores individualmente em 123 parcelas de floresta intacta distribuídas pela América do Sul. Algumas dessas áreas eram monitoradas havia até 30 anos, o que permitiu comparar o comportamento das florestas antes e durante o evento climático extremo.
Os resultados mostraram que o sumidouro de carbono das florestas tropicais sul-americanas cessou durante o El Niño de 2015–2016. As florestas situadas em regiões mais secas foram as que apresentaram as maiores perdas de carbono.
Para absorver dióxido de carbono, as árvores utilizam pequenas estruturas presentes nas folhas, chamadas estômatos, que permitem a entrada de CO₂, mas também provocam a perda de água para a atmosfera por meio da transpiração.
Em condições normais, essa troca faz parte do funcionamento fisiológico da planta.
No entanto, durante períodos de calor extremo e seca, a atmosfera passa a exigir mais água da vegetação, que, a fim de reduzir a perda de umidade, fecha seus estômatos e evita a desidratação imediata. Isso limita a entrada de gás carbônico e o processo normal de fotossíntese.
Em caso de secas, o fluxo da água que transporta umidade das raízes da planta até as folhas também é reduzido, o que compromete a hidratação das árvores.
A equipe de pesquisadores utilizou parcelas florestais monitoradas por redes como a RAINFOR e a PPBio. Em cada área, árvores com mais de 10 centímetros de diâmetro eram identificadas, medidas e acompanhadas ao longo do tempo.
As áreas da América do Sul submetidas às condições mais extremas do El Niño foram as mais vulneráveis, especialmente na periferia da floresta, que, ao contrário da região central, não recebe o mesmo volume de chuvas e funciona como área de transição entre as partes mais úmidas da floresta e ecossistemas mais secos. Com informações da Fórum
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