Eldorado: mapeamento a laser revela centenas de estruturas de civilização que vivia no Acre

Eldorado: mapeamento a laser revela centenas de estruturas de civilização que vivia no Acre

Feito com tecnologia laser, estudo mapeou 296 estruturas ocultas pela copa das árvores na Amazônia

Uma equipe formada por pesquisadores do Brasil e da Finlândia anunciou a identificação de 296 novos geoglifos atribuídos à antiga civilização Aquiry, povo que ocupou o sudeste da Amazônia antes da colonização portuguesa e espanhola. A descoberta amplia significativamente o conhecimento sobre essa sociedade pré-colombiana, conhecida por erguer extensas estruturas de terra em formas geométricas.

Os vestígios arqueológicos foram localizados por meio de levantamentos aéreos com tecnologia LiDAR (Light Detection and Ranging), um sistema de sensoriamento remoto baseado em laser que permite produzir mapas tridimensionais do terreno mesmo sob a cobertura da floresta. A técnica possibilitou aos cientistas detectar valas e obras de terraplanagem distribuídas em diferentes pontos da faixa de fronteira entre Brasil e Bolívia, com maior concentração no Acre.

As estruturas apresentam dimensões bastante variadas. Enquanto algumas possuem apenas alguns metros de largura, outras alcançam extensões superiores à área equivalente a 15 campos de futebol. Todas compartilham características semelhantes às formações já conhecidas pelos arqueólogos.

Com os novos registros, o número de geoglifos identificados na região passou de 36 para 422, um aumento superior a dez vezes em relação ao que era conhecido até então. Os pesquisadores avaliam que esses espaços eram utilizados para cerimônias e encontros coletivos pelos Aquiry, uma sociedade que não desenvolveu sistemas de escrita.

Até agora, os geoglifos haviam sido encontrados exclusivamente em áreas desmatadas, onde o relevo podia ser observado por imagens de satélite ou fotografias aéreas. O emprego do LiDAR pelos integrantes finlandeses da pesquisa mudou esse cenário ao permitir a visualização das estruturas escondidas sob a copa das árvores, expandindo consideravelmente o potencial de novas descobertas.

Os resultados foram publicados nesta quarta-feira (29/7) na revista científica Nature. Liderado por Martti Pärssinen, da Universidade de Helsinque, o estudo apresenta o mapeamento das novas estruturas e estima que, em seu auge, por volta do ano 200 d.C., a população da civilização Aquiry variava entre 1,25 milhão e 3 milhões de habitantes.

Segundo os autores, os 422 geoglifos atualmente catalogados representam apenas uma pequena parcela do patrimônio arqueológico existente. A estimativa é de que mais de 20 mil estruturas semelhantes ainda permaneçam ocultas em áreas que não foram abrangidas pelos levantamentos.

O esforço necessário para erguer os geoglifos

As projeções sobre a população e a extensão do território ocupado pelos Aquiry, explicou Pärssinen, foram elaboradas a partir da quantidade de trabalhadores que seria necessária para construir essas obras monumentais de terraplanagem. Os pesquisadores ressaltaram que a sociedade não dispunha de ferramentas metálicas nem de animais de carga, recursos que só chegaram à Amazônia com os europeus.

“Nós estimamos que uma comunidade de aproximadamente 300 pessoas, incluindo cerca de 60 homens adultos aptos para o trabalho, daria conta de criar uma dessas estruturas no prazo de um ano, sem abdicar das suas outras atividades de subsistência”, disse à revista. “Arqueólogos demonstraram que a maioria dos geoglifos permaneceu em uso contínuo por mais de 200 anos e alguns por mais de mil anos.”

Além da construção, a preservação dessas áreas exigia trabalho contínuo para retirar resíduos e controlar o crescimento da vegetação, impedindo que as estruturas fossem tomadas pela floresta.

Evandro Ferreira, botânico da Universidade Federal do Acre (UFAC) e responsável pela coordenação da equipe brasileira, afirmou que os Aquiry possuíam profundo conhecimento da flora amazônica, o que facilitava o preparo do terreno antes das obras de terraplanagem.

“No sul da Amazônia existem muitas florestas dominadas por bambu, uma planta que tem um ciclo de vida de 28 anos. Os Aquiry provavelmente tinham esse conhecimento e identificavam populações de bambu que já estavam a um ou dois anos de morrer”, explicou à Nature. “Para essas pessoas foi relativamente fácil fazer uma limpeza do terreno incendiando aquela área, porque as grandes árvores não resistiam ao fogo e o bambu já estava morrendo.”

De acordo com os pesquisadores, quando os primeiros espanhóis chegaram à região, no século 16, a maior parte dos geoglifos já havia sido abandonada. Nesse período, os Aquiry haviam deixado de existir como uma sociedade unificada e sua população estava dispersa em comunidades indígenas menores, entre elas os Apurinã e os Manchineri, povos que continuam habitando o sudoeste da Amazônia. Ferreira acrescentou que integrantes dessas etnias ainda utilizavam, até poucos séculos atrás, técnicas semelhantes às de seus ancestrais para abrir áreas na floresta.

A possível origem do mito de El Dorado

Antes do mapeamento realizado com mais de 4 mil quilômetros de voos equipados com LiDAR, parte da comunidade científica já defendia que a civilização Aquiry possuía dimensões muito superiores às indicadas pelas evidências disponíveis. Entre esses pesquisadores está Alceu Ranzi, professor aposentado da UFAC e um dos coautores do estudo publicado na Nature.

Apesar dos avanços proporcionados pela pesquisa, ainda não há uma explicação definitiva para o desaparecimento da organização política unificada dos Aquiry, que prosperou por cerca de 1.500 anos antes de entrar em declínio ainda no período pré-colombiano, afirmou Ferreira.

Os autores também levantaram a hipótese de que povos como os Aquiry tenham contribuído para inspirar o mito de El Dorado, a lendária civilização sul-americana descrita pelos exploradores europeus como detentora de cidades grandiosas e abundância de ouro. No caso dos Aquiry, entretanto, sua principal riqueza não estava em metais preciosos nem em monumentos de pedra, como ocorreu entre os maias, mas na extraordinária capacidade de modificar a paisagem por meio de grandes obras de terraplanagem.

“Quando os portugueses e espanhóis adentraram a Amazônia e subiram os rios, eles encontravam aqueles grupos indígenas isolados, muitos deles vagando pela floresta de um lugar para outro, mas eles não tinham a menor ideia de que, no passado, os ancestrais daquelas pessoas tinham construído um legado absurdamente fantástico”, afirmou à publicação. “Graças ao que eles fizeram, que foi cavar essas grandes valas que são visíveis pelo lidar e também pelo satélite, hoje temos uma prova de que eles estavam aqui e prosperaram muito bem.” As informações são do Correio Braziliense

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