Se você acredita que toda criança merece uma escola pública gratuita e de qualidade, então você também não está defendendo uma concepção clássica de direita, que privilegia a educação privada e a redução do papel do Estado.
Se você acha que uma família pobre deve ter acesso à universidade pública, que o trabalhador merece aposentadoria, que o Estado deve combater a fome, financiar vacinas, construir hospitais, investir em ciência e proteger quem mais precisa, talvez você esteja muito mais próximo de valores progressistas e de esquerda do que imagina.
Vamos além.
Se você não aceita que o Estado tenha o direito de tirar a vida de alguém por meio da pena de morte – inclusive a vida de um filho seu caso ele cometesse um crime – então você rejeita uma pauta tradicionalmente defendida por setores da direita.
Se você acredita que a segurança pública deve respeitar direitos humanos e que inocentes não podem morrer em nome do combate ao crime, você também está distante da lógica do “bandido bom é bandido morto”, que alimenta boa parte da extrema-direita contemporânea.
Isso não significa que toda pessoa que se diz de direita defenda todas essas posições. Muito pelo contrário. Significa que talvez muitas delas apenas tenham sido convencidas de que “ser de direita” é sinônimo de ser honesto, trabalhador, religioso ou contra a corrupção.
Não é.
Honestidade não pertence à direita nem à esquerda. Trabalho também não. Fé muito menos.
Direita e esquerda representam projetos distintos de sociedade. Um aposta na ação do mercado e na lógica do lucro – para poucos; o outro entende que o Estado deve garantir direitos universais e reduzir desigualdades. É uma diferença de modelo, não de caráter.
Enquanto essa distinção permanecer embaralhada, a extrema-direita continuará sequestrando símbolos e identidades que não lhe pertencem.
Talvez descubramos, ao recolocar os conceitos em seus devidos lugares, que a imensa maioria dos brasileiros não deseja viver em um país sem SUS, sem escola pública, sem universidades gratuitas, sem previdência pública, sem programas sociais ou sem direitos trabalhistas.
Talvez descubramos que milhões de pessoas nunca foram realmente de direita. Apenas foram levadas a acreditar que esse era o lado do bem.
O enfrentamento democrático à extrema-direita começa justamente aí: recuperando o significado das palavras e permitindo que cada brasileiro descubra, com honestidade intelectual, quais valores realmente defende. Porque, quando as ideias ficam claras, os rótulos deixam de enganar.
Por Oliveiros Marques