Em meio à crise diplomática entre Brasil e Argentina, o cientista político argentino Vicente Palermo publicou um contundente artigo no Clarín, o maior jornal da Argentina, em defesa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e em forte reprovação aos ataques do presidente Javier Milei contra o líder brasileiro.
No texto, intitulado “Te envidio Lula, y te abrazo” (“Tenho inveja de você, Lula, e te abraço”), Palermo afirma sentir vergonha das ofensas dirigidas por Milei ao presidente brasileiro e faz um longo elogio à trajetória política de Lula, a quem descreve como um dos maiores líderes pragmáticos da América Latina.
“Fiquei sabendo que o presidente da República da qual sou, com todo direito, cidadão, insultou você. Melhor nem entrar em detalhes. Foram insultos obscenos que todo mundo conhece”, escreve logo na abertura do artigo.
O autor deixa claro que sua admiração por Lula não está baseada apenas na origem humilde do presidente nem nas políticas sociais implementadas durante seus governos, embora afirme valorizar ambas.
“O que quero dizer é que admiro você porque é, basicamente, um grande, um enorme político. E foi justamente em uma época estupidamente adversa aos políticos”, afirma.
Pesquisador do Conicet (Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas da Argentina) e integrante do Clube Político Argentino, Palermo dedica boa parte do artigo a explicar por que considera Lula um exemplo raro de liderança.
Segundo ele, o presidente brasileiro representa um tipo de político que consegue preservar seus princípios sem abrir mão da negociação e da capacidade de construir consensos.
“Lula é um virtuoso do pragmatismo político. Um político que não abandona determinados valores e objetivos, mas que também não é obtuso nem rígido. Defende esses valores com flexibilidade, negociando, fazendo acordos, mudando de direção quando necessário, formando alianças que às vezes doem, exercendo paciência democrática e suportando tanto aqueles que o odeiam quanto aqueles que vivem agarrados às suas calças.”
Para Palermo, o diferencial de Lula é saber até onde pode negociar sem abandonar aquilo que considera essencial.
“Sem ultrapassar a linha a partir da qual um político já não poderia olhar para si mesmo e dizer que continua defendendo os valores pelos quais entrou nessa luta.”
O cientista político afirma que esse tipo de liderança pragmática é justamente o que falta à Argentina.
“Acho que, com virtudes e defeitos, você é o exemplo de pragmatismo de que precisamos. E, na Argentina, políticos assim são mais necessários do que nunca.”
Carta ao Povo Brasileiro
Palermo também relembra episódios marcantes da trajetória política de Lula para sustentar sua tese.
Ele cita a persistência do líder petista desde a fundação do Partido dos Trabalhadores, a resistência após sucessivas derrotas eleitorais e destaca especialmente a Carta ao Povo Brasileiro, divulgada antes da eleição presidencial de 2002.
Na avaliação do argentino, aquele documento representou “o exemplo mais honroso de pragmatismo e de responsabilidade cívica”, ao tranquilizar mercados e setores econômicos sem que Lula abandonasse seu projeto político.
O autor considera que esse movimento foi decisivo para consolidar Lula como um estadista.
Comparação direta com Milei
Em um dos trechos mais duros do artigo, Palermo compara Lula diretamente com Javier Milei.
Segundo ele, Lula é “muito melhor político” do que o presidente argentino e isso seria evidente até para o próprio presidente brasileiro.
“Você é muito melhor político do que aquele que o insultou, e sabe disso.”
Ele também critica o ministro das Relações Exteriores da Argentina por incentivar os ataques contra Lula.
“Seu chanceler é muito melhor chanceler do que aquele que comemorava e aplaudia cada insulto que meu presidente lhe dirigia, tomado pela euforia da raiva.”
“O fanatismo é perigoso”
Palermo reconhece apenas uma característica positiva em Milei: a força de vontade.
Mas afirma que, quando essa determinação se mistura ao fanatismo e ao ódio, transforma-se em algo perigoso.
“Meu presidente tem apenas uma de suas virtudes: a força de vontade. Mas a força de vontade ligada ao fanatismo é sinistramente perigosa. Ligada ao ódio e à raiva é deplorável, porque potencializa justamente o ódio e a raiva.”
Em contraste, diz que Lula representa outro tipo de liderança.
“Sua força de vontade é a do pragmatismo responsável, a arte incansável do possível.”
Defesa da relação entre Brasil e Argentina
Nos parágrafos finais, Palermo faz um apelo para que os dois países deixem para trás a escalada de hostilidades promovida pelo governo Milei.
Segundo ele, Brasil e Argentina possuem interesses estratégicos em comum e têm muito a ganhar trabalhando juntos.
“Brasil e Argentina precisam um do outro. Há muito e muito de bom que podemos fazer juntos. Tomara que o vento leve embora os insultos.”
O texto termina com uma despedida simples e simbólica ao presidente brasileiro:
“Te abraço.”
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