O arrependimento dos outros milionários mordidos pelo bolsonarismo

O arrependimento dos outros milionários mordidos pelo bolsonarismo

Uma pergunta que, por enquanto, só o núcleo financeiro da extrema direita pode responder: quem mais, além de Daniel Vorcaro, era mordido pela estrutura de negócios do bolsonarismo? Sabemos que o banqueiro entrou com pelo menos R$ 62 milhões. E os outros?

Mais adiante, os achacados poderiam dizer o que deram e o que se negaram a dar. O andamento das investigações precisa manter a esperança de que saberemos quem são os demais extorquidos. É dinheiro que alguns liberaram com a desculpa de que sustentavam estruturas legítimas do antilulismo e do anticomunismo.

Sabem agora que não financiaram filmes e boas ideias, mas podem ter enriquecido foragidos da Justiça. Quem mais fez colaborações milionárias, sendo ou não ingênuos e patriotas? Poderemos ficar sabendo se as investigações em torno da Abin paralela forem levadas adiante.

O ministro Alexandre de Moraes decidiu encerrar parte do inquérito, com o argumento de que quase tudo estava dentro dos processos do golpe. A Abin paralela seria uma extensão de braços e cabeças da Abin oficial. Monitorava a vida de inimigos e produzia dossiês contra amigos.

Os dossiês da Abin de Bolsonaro tinham como foco empresários apoiadores do bolsonarismo. Por que produzir documentos com informações sobre o que os aliados fizeram no verão passado? Por que mandar investigar cúmplices e parceiros de empreitadas muitas vezes criminosas?

Os dossiês eram encaminhados a Bolsonaro com o pretexto de que serviam de advertência: seu entorno fora do palácio está cercado de sonegadores, contrabandistas, agiotas e chefes de lavanderias de dinheiro sujo. E assim Bolsonaro, que nada sabia, ficava sabendo.

Até os estagiários da Abin eram sabedores do que os investigados faziam e que os dossiês serviam para extorquir quem tinha rabo preso e dinheiro para abastecer os caixas da extrema direita. Extorquiam quem negaceava e ficava em dúvida se deveria continuar apoiando as estruturas do gabinete do ódio e outras atividades golpistas.

Os dossiês da Abin, que não era assim tão paralela, não podem ficar mumificados numa gaveta da Polícia Federal. Não devem ter perdido relevância no contexto do esquema. O arquivamento com a parte que envolvia as figuras de ponta, como Bolsonaro e Alexandre Ramagem, talvez funcione como uma concessão do STF. Não mexeremos mais nisso, para continuar mexendo no que importa.

Se fosse levado em frente com o antigo formato, o inquérito chegaria a gente da própria Abin, que continua dentro do governo. A parte do inquérito que não foi arquivada, e que precisa mostrar serventia, envolve figuras do segundo time do esquema e sem foro, como Carluxo, uma ex-assessora dele e policiais federais.

Uma investigação sem a supervisão de Moraes teria mais autonomia para chegar às engrenagens de produção dos informes e dossiês. É o desafio diante de instituições que não conseguiram, por falta de fôlego, pernas e braços, identificar os criminosos da pandemia e os bloqueadores de estradas, entre outros executores de ações extremistas.

Flávio Bolsonaro era o dinheirista da família, o gestor que transformava relações políticas em negócios, e virou candidato no atropelo. A direita toda, e não só o bolsonarismo, sabe que ele não tem condições de encarar uma guerra contra Lula com paridade de armas.

Flávio só irá sobreviver se tirar uma dúzia de coelhos da cartola, apresentá-los ao centrão e ainda mostrar como fez o truque. Porque ninguém mais confia na sua capacidade de representar todo o antilulismo. Empresários mordidos pela estrutura bolsonarista devem ter os mesmos pensamentos do centrão nesse momento.

Botaram dinheiro fora contribuindo para uma vaquinha que já não dá leite com Bolsonaro preso, com um filho despreparado e perdido em meio a uma luta que não era para ele, com uma madrasta furiosa e dissidente e com o outro filho pateta e foragido.

Por Moisés Mendes

Veja também

Mortes por ebola no Congo ultrapassam 1.000 enquanto a violência e escassez de suprimentos prejudicam médicos

Mortes por ebola no Congo ultrapassam 1.000 enquanto a violência e escassez de suprimentos prejudicam médicos

O Ebola já matou mais de 1.000 pessoas na República Democrática do Congo, segundo dados …