O governo argentino deu um passo significativo no alinhamento internacional da sua pauta de costumes ao oficializar a adesão do país à Declaração do Consenso de Genebra.
A organização — uma aliança internacional impulsionada originalmente pela gestão de Donald Trump nos Estados Unidos — tem como objetivo principal articular ações em órgãos multilaterais contra a legalização do aborto e pela restrição do conceito de direitos sexuais e reprodutivos.
O documento formal que selou a entrada da Argentina no bloco foi assinado pelo chanceler Pablo Quirno e pelo embaixador Peter Lamelas. Embora a assinatura tenha ocorrido no início do mês de agosto, o anúncio oficial por parte da Casa Rosada só foi divulgado dias depois, após o vazamento da informação na imprensa internacional.
A adesão reflete a nova postura da diplomacia argentina sob a gestão de Javier Milei, aproximando o país de governos fascistas em fóruns globais.
Redes internacionais e eventos na capital
Paralelamente à decisão diplomática, a capital argentina tornou-se palco de encontros promovidos pela Political Network for Values (PNFV), um think tank ultraconservador criado na Espanha com conexões históricas e financiamento associados ao governo de Viktor Orbán, na Hungria.
Em aliança com parlamentares dos partidos La Libertad Avanza e PRO, a PNFV promoveu colóquios, capacitações e fóruns políticos em Buenos Aires.
As atividades contaram com a presença de figuras proeminentes da política local e focaram na defesa do que definem como “família tradicional”, no combate à Educação Sexual Integral (ESI) nas escolas e na revisão de marcos legais conquistados no país nas últimas duas décadas.
Alvo na lei do aborto e a resistência da opinião pública
O principal objetivo das articulações entre as redes internacionais e a base governista é desconstruir o consenso em torno da Lei de Interrupção Voluntária da Gravidez (IVE). Lideranças conservadoras presentes aos encontros admitiram abertamente que existem projetos e intenções de revogar a legislação, mas reconheceram que uma mudança legislativa desse porte exige primeiro uma alteração profunda na opinião pública.
Entretanto, levantamentos e pesquisas recentes no país indicam que os consensos da sociedade civil sobre igualdade de gênero e direitos individuais continuam consolidados:
- Casamento Igualitário: Estudos do observatório Pulsar, da Universidade de Buenos Aires (UBA), mostram que cerca de 70% da população argentina mantém uma postura favorável ao casamento entre pessoas do mesmo sexo.
- Direitos e Igualdade: Mais de 70% dos entrevistados no mesmo estudo apontam que o país ainda precisa avançar em políticas de combate às desigualdades de gênero.
- Saúde Reprodutiva e Assistência: Pesquisas do Centro de Estudos de Estado e Sociedade (CEDES) revelam que o acesso a anticonceptivos conta com apoio superior a 80%, enquanto cerca de 49% dos cidadãos defendem que o Estado deve manter altos investimentos em programas de apoio a vítimas de violência de gênero.
Esses indicadores revelam uma lacuna entre a agenda ultraconservadora promovida pelo governo no plano institucional e as posições majoritárias da sociedade argentina quanto aos direitos sociais adquiridos. As informações são do DCM
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