Este é “um fenômeno bastante novo na Bolívia”, um “país muito seguro até alguns anos atrás”, explica à AFP o pesquisador Joaquín Chacín, especialista em crime organizado.
– “Debaixo do nariz” –
Ariana Roca, uma professora boliviana de 35 anos, volta com suas sacolas de compras após cruzar o tranquilo rio Mamoré. Ela vem da cidade brasileira de Guajará-Mirim, visível do lado boliviano.
Ela conta à AFP que agora os crimes acontecem com maior frequência e “às vezes acontecem coisas até debaixo do nariz dos policiais”.
Entre janeiro e setembro de 2025, foram denunciados 774 homicídios de todo tipo, diante dos 325 no mesmo período do ano anterior, segundo dados do Ministério do Governo (Interior).
Também cresce uma forte sensação de insegurança por assaltos à mão armada, sequestros e outras agressões.
O agente de câmbio Ademar Zapata, protegido do sol com uma sombrinha, ultimamente foi atacado duas vezes por assaltantes, a última no começo de agosto. Um deles era brasileiro, segundo as investigações.
O governo do presidente Rodrigo Paz (centro direita), que pôs fim a 20 anos de governos socialistas de Evo Morales (2006-2019) e Luis Arce (2020-2025), acusa seus antecessores de terem permitido a propagação da criminalidade.
Segundo o Ministério do Governo, desde o início da gestão de Paz, em novembro, foram capturados 17 chefes de quadrilhas criminosas internacionais.
– Mais policiais –
Na semana passada, Paz lançou em Guayaramerín um plano de segurança para aumentar a presença policial nas fronteiras, trocar informação de inteligência com o Brasil e capturar criminosos foragidos dos dois lados.
Para Chacín, contingentes policiais nas fronteiras podem dissuadir a violência, mas o crime organizado deve ser atacado em sua estrutura econômica, é preciso investigar como se lava o dinheiro e quem enriquece.
“Faz falta um plano sério, mas não se ouve que se esteja trabalhando em algo assim”, diz.
Paz anunciou, ainda, que em Guayaramerín será construída uma ponte que ligará o Brasil à Bolívia, como parte do que será um corredor viário que chegará ao Pacífico, no Peru.
Muitos moradores, como o agente de câmbio Zapata, concordam porque dinamizará o comércio, embora também lhes gere preocupação.
“As quadrilhas, as máfias de roubo, podem atravessar” com mais facilidade, teme Yestin Durán, uma vendedora de bebidas tropicais de 31 anos.
O próprio chefe de polícia da localidade, coronel Johnny Rivas, o admite. A violência, diz à AFP, “vai aumentar” e “vai nos exigir que aumentemos os efetivos”. Com informações da AFP