Protesto contra projeto de lei em favor propriedade privada termina em confronto na Argentina

Protesto contra projeto de lei em favor propriedade privada termina em confronto na Argentina

 

Milhares de pessoas se manifestaram nesta quinta-feira (6) na capital argentina contra um projeto de lei em favor da propriedade privada promovido pelo presidente de extrema direita, Javier Milei.  O protesto terminou em confronto com a polícia.

A força pública dispersou os manifestantes com balas de borracha, gás lacrimogêneo e jatos d’água. Eles responderam atirando pedras contra os policiais em frente ao Congresso.

Dois policiais e um manifestante ficaram feridos, segundo veículos locais. Outras dez pessoas foram presas, de acordo com um balanço não oficial divulgado pela imprensa.

Uma fotografa foi ferida na cabeça, informou o sindicato da imprensa de Buenos Aires (Sipreba). A repressão policial durou mais de quatro horas.

Às 20h locais, a praça em frente ao Congresso se esvaziou, mas alguns focos de tumulto apoiavam seus arredores, enquanto forças de segurança abriam caminho com balas de borracha na Avenida 9 de Julho.

Para permitir que o projeto de lei fosse debatido no Senado, o governo retirou a iniciativa de um ponto polêmico que liberava a venda de terras para estrangeiros, uma mudança mais rejeitada. Mesmo assim, os manifestantes foram às ruas.

“Quero que o projeto inteiro seja derrubado”, disse à AFP Roxana Parapugna, socióloga de 51 anos, em frente ao Congresso. Para Carlos Miño, um aposentado de 67 anos, “quase todo o projeto segue a mesma direção: entregar, de uma forma ou de outra, nossos bens, nossas coisas”.

A iniciativa, que começou a ser discutida hoje no Senado, busca dificultar desapropriações promovidas pelo Estado, facilitar despejos por procedimento acelerado e flexibilizar a mudança de uso e a venda de terras rurais atingidas por incêndios.

Convocada por sindicatos, partidos de esquerda e movimentos sociais, a principal manifestação ocorreu em frente ao Congresso, no centro da cidade de Buenos Aires, apesar do dia de chuva intensa.

“A pátria não está à venda” foi o principal lema dos manifestantes, repetido em cantos e estampado em bandeiras.

O chamado projeto de “Lei de inviolabilidade da propriedade privada” estava há semanas sem avanço por causa do dispositivo que flexibilizava a Lei de Terras Rurais para estrangeiros.

O governo Milei sustenta que as restrições da legislação atual, em vigor desde 2011, desestimulam investimentos. A lei limita a 15% a proporção de terras que podem ser vendidas no exterior, percentual aplicado a cada província e a cada município individualmente.

O governo pretendia eliminar esse limite. Depois de propor ampliar para 25% sobre o total das terras de cada província, esse ponto foi retirado por falta de apoio.

Segundo dados de um estudo da Universidade de Buenos Aires e do Conicet, o órgão estatal argentino de pesquisa científica, mais de 13 milhões de hectares do país — uma área semelhante à da Inglaterra —pertence a estrangeiros.

Embora nenhuma das 23 províncias argentinas ultrapasse o limite de 15% previsto na lei, de acordo com o Registro de Terras Rurais, 31 departamentos já superam esse percentual. Em alguns municípios da província de Misiones, no nordeste do país, a participação chega a 80%.

Após a ampla separação da sociedade, governadores que costumam apoiar o governo também passaram a se opor à medida, e o governo retirou a proposta de alteração.

O projeto ainda será necessário para ser aplicado pela Câmara dos Deputados. O restante da proposta também desperta críticas.

Outros capítulos buscam incentivar as barreiras às desapropriações de terras ou imóveis e acelerar os despejos pela falta de pagamento de aluguel.

O texto também propõe revogar ou flexibilizar a Lei de Manejo do Fogo, que restringe a venda de terrenos atingidos por incêndios. As informações são da AFP

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