Ator espanhol afirma que denunciar genocídios, fome e mudanças climáticas é uma obrigação moral e alerta para os riscos do silêncio diante das injustiças
O ator espanhol Javier Bardem, de 57 anos, fez uma defesa contundente do posicionamento público contra o fascismo, os genocídios e outras violações de direitos humanos. Em entrevista ao F5, da Folha de S. Paulo, publicada neste sábado (24), o artista criticou a postura de neutralidade adotada por personalidades públicas diante de questões políticas e sociais e afirmou que denunciar injustiças não deve ser confundido com militância partidária.
“A vida seria mais fácil se você não irritasse ninguém, mas seria totalmente desprovida de sentido”.
“Se posicionar politicamente é uma coisa, mas denunciar de fato o fascismo, os genocídios, a fome, as mudanças climáticas, o aquecimento global — isso é defender o que é certo”, afirmou.
Bardem também criticou aqueles que se colocam contra essas causas e defendeu que suas posições sejam submetidas ao escrutínio público.
“Portanto, não se trata de se envolver em política, e aqueles que se opõem a essas causas são perigosos e precisam ser expostos perante a sociedade. Desculpe, mas é assim que as coisas são.”
Preocupação com o futuro das próximas gerações
A preocupação de Bardem com os rumos políticos e sociais do mundo também está relacionada à sua experiência como pai. Casado com a atriz Penélope Cruz, de 52 anos, o espanhol tem dois filhos, Leonardo, de 15 anos, e Luna, de 13.
Durante a entrevista, o artista reconheceu que, apesar de demonstrar firmeza em suas manifestações públicas, convive com receios sobre o futuro da humanidade e as consequências das decisões tomadas pelas gerações atuais
“Tenho 57 anos e dois filhos”, afirmou, antes de explicar que suas maiores preocupações estão relacionadas ao ambiente em que eles crescerão.
“Acho que todos os meus medos dizem respeito a eles, ao mundo que estamos deixando para eles.”
O ator também recorreu a uma reflexão sobre a responsabilidade coletiva de preservar o planeta para as próximas gerações.
“Como alguém disse, não herdamos o mundo dos nossos pais; nós o tomamos emprestado dos nossos filhos”, comentou.
“E o mundo que estamos deixando para eles agora está muito complicado. Então esse é o meu medo: como eles vão lidar com todas as coisas que fizemos tão errado.”
As declarações reforçam a ligação que Bardem estabelece entre suas preocupações pessoais e o engajamento em questões internacionais, como os conflitos armados, as violações de direitos humanos e a crise climática.
Ator interpreta personagem movido pela vingança em “Cabo do Medo”
A entrevista ocorreu em meio à divulgação da minissérie “Cabo do Medo”, disponível na Apple TV, na qual Bardem interpreta Max Cady, um homem que deixa a prisão após cumprir 17 anos por um crime que não cometeu.
Na trama, Cady passa a aterrorizar a família Bowden. Tom Bowden, interpretado por Patrick Wilson, foi o promotor responsável pelo caso, enquanto Anna Bowden, vivida por Amy Adams, atuou como advogada de defesa do condenado antes de se casar com Tom.
A libertação de Cady desencadeia uma sequência de acontecimentos que coloca o casal sob constante tensão. A nova adaptação da história, baseada no livro de John D. MacDonald e anteriormente levada ao cinema em 1962 e 1991, incorpora elementos contemporâneos, como o uso de tecnologias de vigilância.
Ao analisar a psicologia de seu personagem, Bardem explicou que a ausência de perspectivas e o desejo de vingança tornam Cady especialmente ameaçador.
“Ele tem todo o tempo do mundo e não tem nada a perder — ele já perdeu tudo”, afirmou. “É isso que o torna perigoso.”
Segundo o ator, o principal temor do personagem não está relacionado às consequências de seus atos, mas à possibilidade de fracassar em sua busca por vingança.
“Acho que a resposta é que ele teme trair o próprio objetivo, teme não ser capaz de concretizar sua vingança”, avaliou.
“Ele saboreia isso, adora, sabe que a vingança, quando servida fria, é ainda mais poderosa do que quando servida quente; é daí que vem o prazer do personagem.”
A produção reúne ainda Joe Anders e Lily Collias no elenco e conta com dez episódios.
Novo filme aborda colonização espanhola do Saara Ocidental
Além da produção televisiva, Bardem participa da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo com o filme “O Ser Querido”, dirigido por Rodrigo Sorogoyen.
No longa-metragem, o espanhol interpreta um cineasta envolvido na realização de uma obra sobre a colonização espanhola do Saara Ocidental, território africano cuja situação política é uma das causas defendidas publicamente pelo ator.
A escolha do projeto mantém a aproximação entre sua trajetória artística e temas políticos que também aparecem em suas manifestações fora das telas.
O filme integra a programação da Mostra com sessões neste sábado (24), às 17h30, no Reserva Cultural, e no domingo (25), às 16h, no Cultura Artística.
A participação nas duas produções ocorre em um momento em que Bardem reafirma sua disposição de se pronunciar sobre conflitos internacionais e problemas sociais, mesmo diante das possíveis repercussões para sua carreira.
Para o ator, o silêncio pode evitar confrontos, mas não constitui uma resposta aceitável diante de situações que considera moralmente injustificáveis.
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