Aprendi a ler fronteiras, tratados, blocos e correlações de força. Aprendi também que a história costuma ser escrita pelos impérios. Nos livros deles, países como o nosso aparecem quase sempre como nota de rodapé: o lugar onde a democracia caiu, anos de ditadura militar, esperança adiada.
No domingo, 25 de outubro de 2026, o Brasil deixou de ser rodapé.
Lula chegou ao segundo turno atrás. Nenhum candidato na história da República tinha virado uma eleição a partir dali, e ele virou. Mais de 64 milhões de brasileiros e brasileiras devolveram a ele a faixa pela quarta vez. Dois dias depois, Lula fez 81 anos e o mundo cantou parabéns em línguas que ele não fala.
Porque o “L”, esse gesto simples, saiu de casa.
Ele nasceu em 1989, criado por um publicitário do Paraná para uma campanha que perdeu. Era quase um gesto de quintal: dois dedos, um polegar, um nome. Trinta e sete anos depois, eu vejo esse mesmo gesto erguido em Madri, por Ada Colau, que pediu às pessoas que levantassem o braço com o “L” de Lula por esperança e por uma Palestina livre. Vejo Claudia Sheinbaum abrir sua coletiva no México fazendo o “L” e dizendo que nossa vitória era ar fresco para a América Latina. Vejo Pedro Sánchez escrever que o que aconteceu no Brasil vai acontecer na Espanha. Vejo militantes franceses fazendo o “L” e girando as mãos até virar M, de Mélenchon, e criando seus próprios “soldados insubmissos” à imagem do nosso exército de WhatsApp. Vejo brasileiros diante do Portão de Brandemburgo, na praça do Rossio, nas ruas de Londres. Vejo Tilda Swinton, Almodóvar, Bardem e Del Toro dobrando os dedos por um operário de Garanhuns.
E vejo a Sérvia. Na mesma noite em que viramos, os estudantes que ocupam as ruas, desde que uma marquise desabou em Novi Sad e matou dezesseis pessoas, derrotaram nas urnas o regime de Vučić. A juventude, lá e cá, disse não.
Penso também em Gaza. Vi um vídeo no Instagram de crianças de lá recortando o rosto de Lula de um jornal. Sei que, em Ramallah, quase todos os brasileiros que votaram escolheram ele. Sei que Mahmoud Abbas lhe escreveu falando em coragem. E sei por quê: Lula chamou de genocídio o que era genocídio quando dizer isso custava caro, e por isso foi declarado persona non grata. Há presidentes que se tornam símbolo pelo que conquistam. Lula virou símbolo pelo que se recusou a calar.
É por isso que um homem de 81 anos virou bandeira de guerrilha: uma guerrilha sem armas, feita de afeto, de rua e de tela de celular. A extrema direita aprendeu a ser internacional antes de nós, com os mesmos financiadores, os mesmos algoritmos e os mesmos inimigos inventados. O Brasil acaba de provar que a nossa resposta também pode atravessar fronteiras.
Como internacionalista, sei o peso da expressão “exportar democracia”. Durante décadas, ela significou porta-aviões, bombardeios e governos impostos de fora. O que o Brasil exporta agora é o contrário: um método. Gente na rua, gente na rede, gente convencendo gente, um vizinho por vez. Ninguém precisa invadir ninguém, basta copiar a coragem.
E o calendário não espera. A Espanha vota em 29 de novembro. Os Estados Unidos vão às urnas na próxima semana. França e Argentina decidem em 2027. Em cada uma dessas disputas, alguém vai levantar a mão e lembrar que no Brasil deu certo. Ser o freio da extrema direita no mundo não é um título que se recebe, é uma tarefa que se cumpre com a disciplina militar de André Janones.
Um dia, alguém vai abrir um livro de história e ler sobre 2026. Vai ler que, num ano em que o mundo parecia escorregar para a sombra, um país do Sul fez a virada impossível. Vai ler que, naquela mesma noite, estudantes sérvios derrubaram um regime, que crianças e mulheres palestinas tinham ao menos um chefe de Estado chamando sua dor pelo nome, e que um gesto de quintal virou saudação em Madri, na Cidade do México e em Paris. Com esperança, no mundo inteiro!
Quero que esse livro registre também que não foi um homem só. Foi um povo que se recusou a desistir.
“L” de Lula. “L” de luta. “L” de liberdade, em todas as línguas que têm essa letra.
Por Júlia Tessmann
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