O discurso dos derrotados

O discurso dos derrotados

A democracia brasileira já mostrou que sabe resistir; resta saber quantas vezes mais terá de provar isso à mesma família

A genética não falha. O que está no corpo desde a concepção ali permanece e é transmitido às gerações seguintes. É o caso do DNA golpista da família Bolsonaro, que se espraia do clã para todo o movimento bolsonarista. Renovam-se os atores, mas mantém-se o velho cacoete: desprezar as regras do jogo e distorcer a verdade para fabricar versões próprias, repassadas tanto aos espertalhões quanto aos que, de boa-fé, ainda os seguem. E não são poucos, como demonstram os resultados das urnas.

Ao declarar que não aceita o resultado, o candidato Flávio Bolsonaro agarrou-se a uma decisão do Supremo Tribunal Federal que, ironicamente, atendia também a um pedido de sua própria campanha: a prorrogação do horário de votação. A medida garantiu o direito de votar a uma parcela ínfima do eleitorado, que lhe tivera sido usurpado por empresários e administradores municipais que lhe negaram a oferta legal de transporte coletivo. Ao contestá-la, Flávio nada mais faz do que repetir o pai, o hoje presidiário Jair Bolsonaro: semear confusão para lançar uma nuvem sobre a própria incapacidade e sobre o sonoro “não” que recebeu do povo brasileiro. Ou, quem sabe, para estender uma neblina sobre algum aeródromo de onde possa taxiar rumo aos Estados Unidos, em fuga de uma prisão que pode estar se aproximando, dado o seu possível envolvimento com os escândalos do INSS e do Banco Master.

O roteiro é conhecido. Em 2022, o pai também se recusou a reconhecer a derrota com clareza, alimentou acampamentos diante dos quartéis e deixou a dúvida fermentar até explodir no 8 de janeiro. O desfecho também é conhecido: condenação, cela e um movimento órfão de seu líder. Quem aposta na mesma receita não pode alegar surpresa ao colher o mesmo resultado.

A postura do ainda senador – em breve um desempregado, que talvez busque um cargo fantasma no gabinete de Nikolas Ferreira, além de mais uma vez atentar contra a democracia – é de uma imbecilidade atroz. E, sob a ótica do próprio bolsonarismo, um erro estratégico: perde a chance de se firmar como liderança da oposição no país. Preferiu a molecagem golpista e abre espaço para quem ficou de lado na fotografia do anúncio chororô: Tarcísio de Freitas, que assiste a tudo com a paciência de quem sabe que 2030 está logo ali.

Na imagem, o destaque ficou com dois nomes que serão a Carla Zambelli e o Roberto Jefferson da vez: Pablo Marçal e Nikolas Ferreira. O primeiro, pelas orientações que conduziram à desastrada participação de Flávio no debate da Band; o segundo, pelo vídeo infeliz, preconceituoso e imbecil sobre o Nordeste – região que costuma dar sua resposta nas urnas.

As consequências do discurso de ontem à noite poderão ser medidas nos próximos dias. Tudo depende do candidato derrotado permanecer em solo brasileiro ou buscar a companhia do irmão nos Estados Unidos, para usufruir um pouco dos fundos do irmãozão – o outro. A democracia brasileira já mostrou que sabe resistir; resta saber quantas vezes mais terá de provar isso à mesma família.

Por Oliveiros Marques

Veja também

Derrotado, Flávio Bolsonaro perderá foro privilegiado a partir de janeiro; veja as investigações contra o senador

Derrotado, Flávio Bolsonaro perderá foro privilegiado a partir de janeiro; veja as investigações contra o senador

Com a derrota nas urnas, Flávio Bolsonaro (PL) perde também o foro privilegiado do cargo …