O voto perdido e a fuga de um covarde: 60 milhões ignoraram crimes em nome da guerra cultural

O voto perdido e a fuga de um covarde: 60 milhões ignoraram crimes em nome da guerra cultural

Não me surpreende que outro criminoso tenha deixado o país por medo de ser preso. O que me espanta é que o meliante em questão, apenas 48 horas antes, tenha recebido quase 60 milhões de votos para se eleger presidente do Brasil.

As pessoas desconheciam que ele era investigado pelo Supremo Tribunal Federal por evasão de divisas, corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa? Sabiam, ou tinham a obrigação de saber. Era de conhecimento público. Ainda assim, isso pouco importou.

A cumplicidade manifestada nas urnas revela profundo cinismo institucional e o desgaste do nosso pacto democrático. Ao dar aval ao nome de alguém que despreza o sistema legal que pretendia comandar, o eleitorado tornou normal a ideia de que as leis valem apenas para os adversários. Com isso, corrói-se o princípio republicano essencial de que ninguém está acima da lei, substituído por um pragmatismo amoral que abala a confiança nas regras do jogo democrático.

Na realidade, a polarização política ofuscou o discernimento ético e converteu o candidato em um símbolo intocável da guerra cultural. Para seus eleitores, crimes de colarinho branco e desvio de recursos públicos foram relativizados e justificados com a alegação de uma suposta perseguição. Isso mostra que a paixão cega por um líder há muito tomou o lugar do compromisso com a moralidade pública.

As pessoas não sabiam que ele tentaria fugir caso fosse derrotado? Sabiam, claro. Na semana passada, em entrevista a um podcast, um irmão dele que mora nos Estados Unidos havia antecipado que ele fugiria se não fosse eleito. Antes do golpe de 8 de janeiro de 2023, o pai dele também partiu em busca de proteção em outro país.

Uma família que bate continência para a bandeira americana compartilha os mesmos valores e, apesar das brigas internas, segue unida. “Deus, pátria e família” acima de tudo, aqui ou em qualquer lugar. Só faltou acrescentar o dinheiro, de preferência muito e sujo.

O que vimos ontem não foi somente a fuga covarde de alguém que tem contas a acertar com a Justiça. Foi também o retrato de um país anestesiado, no qual metade do eleitorado decidiu ignorar o abismo e continua a ampliá-lo de forma insana.

A confirmação nas urnas de alguém que já desprezava as leis e defendia apenas a ordem bruta e o tacão demonstra que nossa crise moral é muito mais profunda e crônica do que qualquer crise política ou econômica. Por PaiPee

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