O Himalaia está derretendo – e bilhões estão rio abaixo

O Himalaia está derretendo – e bilhões estão rio abaixo

Nas retinas de todos nós ainda estão gravadas as imagens terríveis da avalanche de pedras, gelo e água que, há poucos dias, ocorreu no norte do Nepal deixando milhares de mortos e desabrigados. Ela se transformou numa gigantesca massa de detritos que desceu por dezenas de quilômetros o vale do rio Trishuli arrastando tudo em…

Esses materiais atingiram o rio Trishuli – também conhecido como Bhotekoshi – e, em questão de segundos, vidas, estradas, pontes e usinas hidrelétricas foram arrastadas. Em apenas meia hora, o nível do rio subiu até nove metros, enquanto afluentes como o rio Lhende Khola transbordaram com uma força impressionante.

Por duas vezes, na década de 1970, visitei essa região. É uma espécie de capital mundial do trekking – as longas caminhadas por trilhas de onde se descortinam paisagens deslumbrantes. Agora, como mostram as fotos e vídeos do desastre, virou terra arrasada, na qual a vegetação e quase todas as obras construídas pela mão humana simplesmente se dissolveram.

O derretimento das geleiras das grandes cordilheiras da Ásia Central – o Himalaia e o Caracórum -, o descongelamento do permafrost e a expansão dos lagos glaciais estão transformando essas imensas cadeias de montanhas em bombas-relógio climáticas. O que acontece no topo do mundo poderá determinar o destino da água de bilhões de pessoas

Segundo os geólogos, as montanhas estão perdendo sua “cola”. Esta é a imagem que talvez seja capaz de resumir toda a tragédia climática do nosso tempo: as montanhas perdendo a sua cola.

Durante milhares – talvez milhões – de anos, gelo, neve, permafrost, rochas e sedimentos permaneceram unidos nas grandes altitudes da Ásia, formando um sistema aparentemente indestrutível. O Himalaia parecia eterno. Imutável. Uma muralha de pedra e gelo diante da qual a humanidade só podia se sentir pequena.

Mas a eternidade era uma ilusão. O aquecimento do planeta está desmontando lentamente essa arquitetura. As geleiras recuam. O permafrost descongela. A água penetra nas fissuras das rochas. Encostas tornam-se instáveis. Lagos glaciais aumentam de tamanho. Massas de gelo e rocha se desprendem. E, quando uma delas desaba, pode transformar-se em uma torrente de lama, pedras e água capaz de destruir tudo o que existe quilômetros abaixo. Isso foi o que acaba de acontecer

Na verdade, não estamos simplesmente assistindo ao derretimento de geleiras. Estamos assistindo à transformação física das montanhas. E o desastre que atingiu o Nepal e o Tibete é um dos sinais mais assustadores dessa transformação.

Trata-se de uma tragédia anunciada. Ainda serão necessários estudos científicos de atribuição para determinar exatamente quanto da tragédia foi provocado ou agravado pelo aquecimento global. A ciência exige cautela – e essa cautela é necessária. Mas cautela científica não pode ser confundida com dúvida sobre o fenômeno maior.

Os dados são inequívocos: o Himalaia e a região do Hindu Kush estão esquentando em ritmo muito superior à média global. As geleiras estão perdendo massa. A neve está diminuindo. O permafrost está se degradando. Lagos glaciais estão crescendo. E cientistas vêm alertando há anos que essa combinação produzirá riscos cada vez maiores.

O problema, portanto, não é que ninguém tenha previsto. O problema é que previmos e continuamos praticamente imóveis. A expressão usada por especialistas – a “cola que mantém as montanhas unidas” – não é apenas uma metáfora poética.

O permafrost funciona, em muitos locais, como um elemento estabilizador. O gelo existente nas fissuras das rochas ajuda a manter estruturas geológicas coesas. Quando a temperatura sobe e esse gelo desaparece, muda a mecânica das encostas. A água ocupa os espaços antes preenchidos pelo gelo. As fissuras aumentam. As rochas se movimentam. As encostas perdem estabilidade. E uma montanha que parecia sólida pode, subitamente, comportar-se como uma estrutura fraturada. É como retirar lentamente os parafusos de uma ponte enquanto os carros continuam passando por ela.

Existem dezenas de milhares de geleiras no Hindu Kush-Himalaia. Mas apenas uma pequena fração é monitorada de forma suficientemente detalhada. Essa é uma das grandes irresponsabilidades da nossa época.

Sabemos que a montanha está mudando, sabemos que os lagos glaciais estão crescendo, sabemos que o permafrost está se degradando – mas ainda não observamos de maneira adequada uma parcela enorme do sistema. É como pilotar um avião em meio a uma tempestade com metade dos instrumentos desligados.

E há uma diferença fundamental: as pessoas que vivem nos vales abaixo não têm escolha. Elas estão na rota da água. O fenômeno geológico GLOF – Glacial Lake Outburst Flood, um tipo de avalanche líquida – talvez seja uma das manifestações mais assustadoras dessa nova realidade.

Imagine um lago suspenso a milhares de metros de altitude. Ele é contido por uma barragem natural formada por gelo, pedras e sedimentos.

A geleira recua. O lago cresce. Uma avalanche cai dentro dele. A barragem rompe. De repente, milhões de metros cúbicos de água despencam pelo vale.

Não é uma enchente convencional. É uma avalanche líquida, carregada de rochas, lama, árvores e destroços. Em poucos minutos, comunidades inteiras podem desaparecer.

O paradoxo mais cruel: a crise produz uma ironia que parece saída de um romance distópico. Primeiro, água demais. Depois, água de menos. Quando as geleiras derretem rapidamente, os rios podem receber mais água. Aumentam os riscos de enchentes.

Mas uma geleira não é uma fonte infinita. Ela é um estoque. Quando o estoque começa a acabar, a oferta diminui. Assim, a mesma população que hoje enfrenta inundações pode amanhã enfrentar escassez hídrica. A montanha que antes armazenava água para liberar lentamente durante a estação seca poderá deixar de cumprir essa função. Estamos queimando uma poupança de milhares de anos em poucas décadas.

Os glaciares asiáticos são a caixa-d’água de dois bilhões de pessoas. Inúmeros rios que correm tanto para o norte quanto para o sul das cordilheiras – inclusive os três maiores rios da Índia, o Indo, o Ganges e o  Brahmaputra – surgem a partir do derretimento natural das geleiras das montanhas. Poucas pessoas fora da Ásia percebem a dimensão do que está em jogo. Estamos falando de uma região que influencia a segurança hídrica e alimentar de bilhões de pessoas.

Por isso, o desaparecimento das geleiras não é um problema exclusivamente ambiental. É também econômico. É agrícola. É energético. É social. É geopolítico. E pode se tornar militar. Porque onde falta água, aumentam as disputas pela água.

Não a toa o Himalaia e as montanhas vizinhas são frequentemente chamados de Terceiro Polo, depois do Ártico e da Antártica. E esse Terceiro Polo está derretendo. A comparação não é exagerada. Ali está concentrada uma quantidade extraordinária de gelo fora das regiões polares. Mas existe uma diferença crucial: Os grandes depósitos de gelo asiáticos estão muito próximos de algumas das maiores concentrações humanas do planeta.

O que acontece no Ártico tem consequências planetárias. Da mesma forma, o que acontece no Himalaia pode atingir diretamente centenas de milhões e, de maneira indireta, bilhões de pessoas. O Terceiro Polo não é apenas uma reserva de gelo. É uma reserva de futuro. E estamos consumindo esse futuro.

Se essa infraestrutura entrar em colapso, não haverá tecnologia capaz de reconstruí-la em algumas décadas. Uma geleira que levou milhares de anos para se formar não poderá ser reposta por um programa governamental, uma conferência internacional ou um fundo climático.

A pergunta que precisamos fazer já não é se devemos salvar o Himalaia. A pergunta é: ainda somos capazes de desacelerar sua transformação?

Porque o que está acontecendo no Nepal não pertence apenas ao Nepal. O que está acontecendo no Tibete não pertence apenas ao Tibete. O que está acontecendo no Terceiro Polo pertence a todos nós.

A humanidade passou dois séculos acreditando que podia dominar a natureza. Agora começa a descobrir uma verdade muito mais desconfortável: não estamos fora do sistema climático. Somos parte dele.

E quando a “cola” que mantém as montanhas unidas começa a desaparecer, talvez seja hora de entender que não estamos apenas perdendo gelo: estamos perdendo uma das estruturas que sustentam a própria civilização.

 

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