Doze países decretam sanções contra Israel por "limpeza étnica"

Doze países decretam sanções contra Israel por “limpeza étnica”

Reino Unido e 11 nações anunciam imposição de restrições ao comércio com assentamentos judaicos na Cisjordânia ocupada. Governo israelense reage, denuncia “mentiras ultrajantes” e fecha o consulado britânico em Jerusalém

Moradores do vilarejo de Qusra, na Cisjordânia ocupada, o palestino-americano Loui Ridi, 46 anos, e sua família vivem um pesadelo desde 9 de agosto. “A situação por aqui é a mesma. Não somos capazes de ir e vir livremente, e ninguém tem permissão para nos visitar ou nos trazer comida sem coordenação, o que pode levar de dois a quatro dias. O posto de controle das IDF (Forças de Defesa de Israel) está bem em frente à minha casa, enquanto os colonos judeus circulam livremente ao redor de nossa residência”, desabafou ao Correio. O drama vivido por Loui mobilizou a atenção da comunidade internacional para os ataques perpetrados pelos colonos israelenses contra palestinos da Cisjordânia.

Em declaração conjunta, Reino Unido, Espanha, França, Canadá, Dinamarca, Finlândia, Irlanda, Islândia, Noruega, Portugal, Polônia e Suécia anunciaram que aplicarão sanções contra o comércio com assentamentos judaicos na Cisjordânia ocupada. Em discurso no Parlamento, o ministro das Relações Exteriores britânico, Ed Miliband, acusou o governo do premiê israelense, Benjamin Netanyahu, de fazer vistas grossas à “limpeza étnica” organizada pelos colonos judeus. “Posso anunciar hoje que vamos instaurar uma proibição de importação de produtos procedentes de assentamentos ilegais situados nos territórios ocupados”, disse Miliband.

O chanceler israelense, Gideon Saar, divulgou as medidas de retaliação a Londres: o fechamento do consulado do Reino Unido em Jerusalém; a expulsão de britânicos do centro de ajuda internacional para Gaza, em Kiryat Gat; a suspensão da atividade britânica no treinamento de forças da Autoridade Palestina na Cisjordânia; a proibição de entrada em Israel de 12 autoridades eleitas e cidadãos britânicos envolvidos em ações antissemitas. “A mensagem para qualquer governo que nos prejudique é clara: quem agir contra Israel, Israel agirá contra ele, e ele perderá sua influência e relevância na região. Ações contra Israel não ficarão sem resposta.”

O chefe da diplomacia israelense classificou as declarações de Miliband como “mentiras ultrajantes”. Deixe-me deixar isso claro desde o início. Não temos nada contra o povo britânico. Infelizmente, um governo trabalhista hostil está no poder, sistematicamente agindo contra o Estado de Israel”, afirmou Saar.

Alta representante para a política externa da União Europeia (UE), Kaja Kallas comentou a aplicação das sanções pelos 12 países. Segundo ela, “todos os Estados-membros do bloco concordam que os assentamentos israelenses na Cisjordânia são ilegais à luz do direito internacional”. “A expansão dos assentamentos pelo governo de Israel na Cisjordânia compromete as perspectivas de uma solução viável de dois Estados”, afirmou. No entanto, ela assegurou que a UE seguirá como “a maior doadora da assistência humanitária para Gaza e Cisjordânia”. “Mantemos nosso firme compromisso de apoiar uma paz abrangente, justa e duradoura, baseada na solução de dois Estados”, acrescentou.

“Problema político”

Kai Enno Lehmann, professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP), reconhece a existência de uma crise diplomática envolvendo Israel e países ocidentais. “No Reino Unido, liderado pelo primeiro-ministro trabalhista Andy Burnham, o apoio considerado incondicional a Israel pelos premiês anteriores tem sido um problema político para os governistas. Muitos dos seus distritos eleitorais têm uma parcela significativa de eleitores muçulmanos, que consideram esse apoio a Israel quase que uma falha moral”, explicou ao Correio. Para Lehmann, o embate entre Reino Unido e Israel precisa ser visto dentro desse aspecto: a perda do aval importante desses eleitores. “Burnham viu-se obrigado a mudar um pouco a postura diante do declínio do apoio popular a Israel.”

O professor da USP mostra-se cético em relação ao efeito das sanções aplicadas a Israel. “Eu duvido que isso vá mudar algo na Cisjordânia em termos concretos. Temos que esperar o resultado das eleições”, opinou Lehmann. Professor de relações internacionais da Universidade de Nova York, Alon Ben-Meir admitiu que Israel tem cometido crimes contra a humanidade na Cisjordânia. “Passou da hora de esses países, e muitos outros, imporem sanções severas a Israel para acabar com esses crimes. Espero e oro para que cada vez mais nações sigam esse exemplo e enviem uma mensagem clara a Israel de que o que o país está infligindo aos palestinos é simplesmente inaceitável”, disse ao Correio Braziliense.

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