2º jornalista que cobria ligações de presidente do Equador com crime organizado, é assassinado

2º jornalista que cobria ligações de presidente do Equador com crime organizado, é assassinado

René Manuel Cobos Merchán, de 49 anos, foi assassinado a tiros na madrugada de 23 de agosto de 2026, no setor de Tres Postes, no cantão de Yaguachi, na província de Guayas, no Equador. Cobos trabalhava como colaborador de veículos estrangeiros que cobrem crime organizado e segurança pública no país, fornecendo contatos, logística e acesso a fontes, inclusive integrantes de estruturas criminosas.

Segundo familiares ouvidos pela imprensa, cerca de seis homens armados e encapuzados chegaram ao local em duas caminhonetes. Eles usavam coletes e roupas semelhantes às empregadas por forças de segurança.

Antes de chegar à casa de Cobos, o grupo invadiu a residência de um vizinho, José Manuel Vélez Vera, de 29 anos, que também foi morto a tiros. Moradores suspeitam que os criminosos tenham inicialmente chegado ao endereço errado.

Na sequência, os homens foram até a casa de Cobos e o executaram.

A cena do crime reforça a dimensão do ataque. Peritos recolheram 30 cápsulas deflagradas, sendo 20 de calibre 9 milímetros e outras 10 de calibre 5,56, utilizadas em fuzis. A Fiscalía determinou que os corpos fossem encaminhados à morgue de Milagro para autópsia.

A Polícia Nacional informou que Cobos já havia recebido ameaças antes do assassinato. Há relatos divergentes sobre a identidade dos autores. Uma testemunha afirmou que alguns dos homens se apresentaram como policiais, enquanto outra descreveu os criminosos como integrantes de um grupo com coletes e roupas de aparência militar.

Jornalista atuava na cobertura do crime organizado

Cobos trabalhava para correspondentes e veículos internacionais que cobrem o avanço do crime organizado no Equador. Sua função incluía facilitar entrevistas, contatos e deslocamentos de jornalistas que investigavam as estruturas criminosas que operam no país.

A organização Fundamedios, que acompanha casos de violência contra jornalistas no Equador, ressalvou que a investigação precisa esclarecer quem ordenou e executou o crime e se houve relação com seu trabalho.

Em junho, a ativista polonesa Monika Silva Koniuszek, de 41 anos, que investigava denúncias relacionadas aos negócios da família do presidente de extrema-direita Daniel Noboa, lacaio de Donald Trump, também foi encontrada morta.

Mãe solo de duas meninas, de 4 e 9 anos, Monika estava no chão de sua casa, em Montañita, na província de Santa Elena, em 8 de junho, com uma corda no pescoço.

A primeira versão apresentada pelo governo equatoriano foi a de suicídio. Um dia depois da morte, antes mesmo da divulgação do resultado da autópsia, o ministro do Interior, John Reimberg, afirmou à imprensa local que as evidências encontradas na residência apontavam para essa hipótese.

A perícia, porém, apresentou uma conclusão diferente.

Uma autópsia realizada em Guayaquil constatou que Monika morreu após sofrer um golpe na cabeça e ser estrangulada.

Noboa amplia militarização enquanto violência bate recordes

Os assassinatos ocorre em um momento em que o presidente equatoriano Daniel Noboa utiliza a crise de segurança para ampliar os poderes do Estado e endurecer a repressão sob o discurso da “guerra às drogas”. Seu governo expandiu o regime de emergência e intensificou operações contra organizações criminosas e adversários políticos.

A aproximação entre Washington e Quito também passou a enfrentar resistência dentro dos próprios Estados Unidos. Durante uma visita de Noboa ao país, vinte parlamentares americanos pediram ao Pentágono a suspensão imediata das operações militares conjuntas entre EUA e Equador, até que sejam investigadas denúncias de violações de direitos humanos, incluindo o bombardeio e a tortura de civis.

O pedido ocorreu depois de uma operação antidrogas apoiada pelos Estados Unidos na região da fronteira com a Colômbia atingir o alvo errado. Uma investigação do New York Times apontou que a operação, apresentada pelas autoridades como parte da ofensiva contra o “narcoterrorismo”, atingiu uma fazenda de produção de leite. Testemunhas também relataram que soldados equatorianos espancaram e torturaram trabalhadores desarmados nos dias anteriores ao bombardeio.

A escalada militar, porém, não impediu o avanço da violência. Mais de 70% da população equatoriana passou a viver sob toque de recolher noturno, enquanto cerca de 75 mil militares foram mobilizados no que o Ministério da Defesa classificou como a maior operação de segurança interna da história recente do país.

Mesmo com a militarização, o número de homicídios continua em alta. O Equador registrou 9.216 assassinatos em 2025, o maior número de sua história, com uma taxa próxima de 51 homicídios por 100 mil habitantes. O país, que há uma década estava entre os mais seguros da América Latina, passou a apresentar a maior taxa de homicídios do Hemisfério Ocidental.

Por Davi Nogueira

Veja também

Nauseabunda eleição

Nauseabunda eleição

E é isso que interessa aqui, mais uma vez, nesta nauseabunda eleição: quem promove o …