Pelo mundo: líderes de direita e esquerda reconhecem vitória de Lula; Milei e Trump silenciam

Pelo mundo: líderes de direita e esquerda reconhecem vitória de Lula; Milei e Trump silenciam

UE, França, China, Rússia, OEA e mais de uma dezena de países reconhecem vitória de Lula; advogado de Trump fala em fraude e Musk difunde tese conspiracionista

Apesar de Flávio Bolsonaro não reconhecer a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva e dos questionamentos alimentados por Elon Musk e pela extrema direita americana, líderes de direita e de esquerda de todo o mundo, a UE e a OEA saudaram a vitória do petista.

Os gestos são considerados como importantes para blindar o brasileiro diante do que pode ser uma ofensiva por parte da extrema direita para tentar anular o pleito no país, com o apoio de Donald Trump.

Ao longo dos últimos meses, observadores e negociadores brasileiros percorreram o mundo em busca de um compromisso por parte de governos estrangeiros sobre a necessidade de que, rapidamente, o resultado da eleição no Brasil fosse chancelado por grandes países e vozes de peso.

A preparação funcionou e, nas horas que se seguiram à vitória de Lula, dezenas de países declararam seu reconhecimento.

Instantes depois do resultado final, de fato, foi o senador Bernie Sanders, um dos pilares da oposição democrática nos EUA e crítico de Donald Trump, que foi um dos primeiros a comemorar a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições.

Nas redes sociais, ele escreveu:

Parabéns a Lula por sua extraordinária vitória na reeleição para a presidência do Brasil.

Lula defendeu os trabalhadores brasileiros e a democracia — e continuará a fazê-lo nos próximos quatro anos.

Outro opositor de Trump, o governador da Califórnia, Gavin Newsom, foi às redes sociais para felicitar Lula. Ele afirmou estar orgulhoso de “estar ao lado do Brasil e daqueles que defendem a democracia, a proteção ao meio ambiente”.

A vitória do brasileiro é considerada como um dos grandes eventos geopolíticos do ano. Diplomatas em diferentes partes do mundo revelaram ao ICL Notícias que a apuração estava sendo acompanhada por europeus, asiáticos e latino-americanos.

Para muitos, o que se questionava era como uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro poderia acelerar o avanço dos EUA na América Latina.

Latinos de direita, de esquerda e OEA parabenizam Lula

A OEA, que havia enviado observadores para a eleição, reconheceu o resultado das urnas. Alberto Ramdin, secretário-geral da OEA, saudou “o povo brasileiro pelo aumento da participação eleitoral no segundo turno das Eleições de 2026, que demonstra seu compromisso com o dever cívico, a participação pacífica e o espírito e os valores democráticos”.

“Após a reeleição do presidente Lula, a OAB continuará trabalhando com o Governo do Brasil em prol de uma agenda hemisférica unida e voltada para o futuro, pela paz e pela prosperidade”, disse.

Segundo ele, o relatório preliminar da Missão da OEA no Brasil sobre o segundo turno apontará oportunidades para aprimorar os processos eleitorais do país.

Pela América Latina, mesmo governos alinhados aos EUA saíram publicamente para felicitar Lula pela vitória. Santiago Peña, presidente do Paraguai, destacou nas redes sociais a “grande jornada democrática”. “Paraguai e Brasil compartilham uma agenda comum de integração e desenvolvimento”, afirmou.

De extrema direita, o presidente do Chile, José Antônio Kast, telefonou para Lula para parabenizá-lo.Rodrigo Paz, presidente da Bolívia, também saudou o novo mandato do petista. “Bolívia e Brasil são países vizinhos e irmão”, indicou. José Molino, presidente do Panamá, foi outro que foi às redes para saudar o brasileiro, além do chanceler de Cuba, do governo da Venezuela e do Uruguai.

Mesmo Keiko Fujimori, presidente do Peru e distante da ideologia da esquerda, fez questão de ir às redes sociais para felicitar Lula e dizer que quer “fortalecer nossa aliança estratégica”.

No México, a presidente Claudia Scheinbaum foi enfática. “Viva a democracia, o povo brasileiro venceu. Parabéns, presidente Lula”, disse.

Aliado de Flávio reconhece Lula

Um dos gestos mais importantes na região, porém, foi a mensagem postada nesta segunda-feira pelo presidente da Colômbia, Abelardo de la Espriella. Ele havia feito campanha por Flávio Bolsonaro e chegou a realizar uma live com o senador após o primeiro turno. Agora, porém, não endossou o complô bolsonarista.

“Na campanha presidencial colombiana, o presidente Lula apoiou abertamente Ivan Cepeda e eu ganhei. Na campanha brasileira, apoiei Bolsonaro e Lula ganhou. Nem Lula decide pelos colombianos nem eu decido pelos brasileiros. ¡DECIDE O POVO! E quando o povo se pronuncia nas urnas, sua vontade é respeitada porque é sagrada. ¡E nisso que consiste a democracia!”, afirmou o colombiano.

“O presidente Lula e eu temos grandes e profundas diferenças políticas e ideológicas, mas coincidimos em algo fundamental: Brasil e Colômbia se precisam mutuamente. Nenhuma consideração pode estar acima dos interesses de nossas nações. Colômbia e Brasil são países irmãos, com enormes desafios e oportunidades compartilhados”, disse.

“Temos muito a fazer e trabalhar em benefício de nossos povos. O respeito mútuo, a soberania e a cooperação devem marcar nossas relações, assim como a luta contra o narcoterrorismo e a mineração ilegal, a proteção da Amazônia e o bem-estar de nossos cidadãos”, completou.

Entre os membros do Mercosul, o único a se manter em silêncio foi Javier Milei, que protagonizou ofensas contra Lula nas últimas semanas.

Europa sai ao apoio de Lula

Outro movimento foi o amplo reconhecimento da vitória pelos europeus. Chamando Lula de “meu amigo”, a presidente da Comissão Europeias, Ursula von der Leyen, afirmou que a “democracia e o multilateralismo venceram”.

“Continuamos ao seu lado”, afirmou. Ela ainda mandou um recado para Trump, ao indicar que ira trabalhar com o Brasil por uma “ordem global com base em regras”.

Emmanuel Macron, presidente da França, também comemorou. “Meus parabens, Lula, pela sua reeleição. A França e o Brasil têm muito a construir juntos”, disse.

O presidente do governo espanhol, Pedro Sanchez, foi às redes sociais para declarar o resultado no Brasil como “uma grande vitória de Lula”. “O que aconteceu no Brasil acontecerá na Espanha”, disse, numa referência às eleições de novembro. “A virada do progressismo global acaba de começar”, completou.

Antonio José Seguro, presidente de Portugal, também felicitou Lula e insistiu sobre a necessidade de lidar com os desafios do mundo de forma conjunta.

Pela Europa, a vitória de Lula foi aplaudida pela Alemanha, Noruega e Malta.

Não faltou nem mesmo o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, um opositor à extrema direita na região. Também entraram na lista das comemorações os governos da África do Sul, Bahamas, Índia, Irã, Malásia, Paquistão e Nova Zelândia.

Carta de Putin e reconhecimento da China

Entre as mensagens recebidas por Lula, duas ainda ganham destaque: Rússia e China.

Vladimir Putin escreveu uma carta ao presidente brasileiro para felicitar pela vitória e insistiu que os dois países precisam “continuar a trabalhar para construir uma cooperação bilateral em todas as direções”. Ele ainda citou o Brics, a ONU e o G20.

Em Pequim, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Guo Jiakun, afirmou que a China tomou nota do anúncio do Tribunal Superior Eleitoral do Brasil de que o presidente Lula venceu e eleição e apresenta as suas felicitações. “A China está disposta a trabalhar em conjunto com o Brasil para continuar a avançar na construção de uma comunidade de destino partilhado China-Brasil”, disse.

Quando foi questionado sobre a decisão de Flávio Bolsonaro de questionar o resultado destas eleições, ele respondeu: “A China respeita a escolha do povo brasileiro.”

Silêncio de Trump e Milei; Musk alimenta tese conspiracionista

Por enquanto, porém, o presidente Donald Trump não se pronunciou sobre a vitória de Lula e a Casa Branca estuda a possibilidade de não reconhecer o resultado. Há uma pressão por parte dos bolsonaristas para que a Casa Branca neste sentido, usando a prorrogação do horário de eleição como pretexto.

Nas redes sociais, um dos advogados de Trump, Martin de Luca, questionou se o domingo havia sido o dia em que “Lula se transformou em Nicolas Maduro”, alertou para o suposto roubo nas eleições e indicou que “ninguém reconheceria” a eleição.

A publicação foi compartilhada por Elon Musk, com um comentário no melhor de seu estilo: “wow”.

Donald Trump Junior, filho do presidente americano, também compartilhou a publicação.

Na semana passada, numa sinalização que deixou observadores da sociedade civil preocupados, o governo de Donald Trump não se comprometeu em reconhecer os resultados eleitorais no Brasil.

Há duas semanas, congressistas norte-americanos enviaram uma carta ao Departamento de Estado, cobrando um posicionamento por parte de Marco Rubio sobre a eleição no país. A principal preocupação do grupo liderado pelo senador Bernie Sanders era de que o voto no Brasil fosse alvo de uma operação de desestabilização por parte dos EUA. No documento, Sanders e outros pressionavam o governo Trump sobre qual seria a reação da Casa Branca diante da situação brasileira.

A carta foi seguida por outras duas manifestações por parte deputados e senadores dos EUA, também pressionando Rubio a dar respostas sobre o posicionamento americano no processo democrático no país.

Mas na resposta, enviada nesta quinta-feira, o governo Trump não deu qualquer garantia de que irá reconhecer o resultado das urnas.

Num texto lacônico, o Departamento de Estado afirma:

“Os EUA apoiam o direito do povo brasileiro a um processo eleitoral livre e justo. Continuaremos a dialogar com o povo brasileiro, o setor privado e o governo eleito para promover a segurança, o comércio recíproco, os investimentos e a prosperidade em ambos os países”.

A resposta não foi sequer assinada por Rubio. Coube a Katherine Bowles, sub-secretária para Assuntos Legislativos do Departamento de Estado, enviar o texto.

A carta acendeu um alerta. Nos últimos meses, a sociedade civil brasileira tem percorrido gabinetes de democratas nos EUA, alertando sobre o risco de que Trump não reconheça o resultado da eleição.

A ação da oposição é considerada como estratégica para observadores brasileiros. A pressão dos parlamentares pode gerar constrangimentos para uma eventual ação desestabilizadora por parte de Trump. A esperança do Brasil é de que essa movimentação ainda sirva como um contraponto dentro do próprio EUA, caso o presidente americano opte por não reconhecer uma vitória de Lula.

O qualificativo de “livre e justo” por parte do Departamento de Estado para se referir à eleição no Brasil também chama a atenção. Uma parte da sociedade civil questiona quem, nos EUA, designaria que a eleição foi “livre e justa”. A suspeita é de que esses termos possam ser usados, eventualmente, para justificar uma decisão por parte de Trump de dizer que esses critérios não teriam sido atendidos.

Dias depois da carta de Sanders, um grupo de senadores liderado por Jeanne Shaheen, do Comitê de Relações Exteriores do Senado, e pelos senadores Tim Kaine e Peter Welch, voltaram a cobrar o Departamento de Estado.

A acusação era de favorecimento explícito à candidatura de Flávio Bolsonaro. “A recente reunião no Salão Oval entre o senador e candidato à presidência Flávio Bolsonaro e o presidente Trump — realizada em meio a tentativas de atenuar um escândalo político interno — evidencia a disposição da Administração em interferir no processo eleitoral”, indicam.

Por Jamil Chade

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