Analistas internacionais alertam para o risco de golpe no Peru e a derrubada de Pedro Castillo

Analistas internacionais alertam para o risco de golpe no Peru e a derrubada de Pedro Castillo

O alerta foi dado meses atrás com base no histórico do envolvimento dos Estados Unidos na política da América Latina, mas ganhou contornos de realização com a renúncia do ministro das Relações Exteriores, Hector Béjar. O sociólogo renunciou após 20 dias no cargo. A renúncia aconteceu logo depois que foi desatada uma campanha midiática contra ele.

Antes de ser ministro, o intelectual peruano havia dado uma declaração que envolvia a Marinha peruana em ações anti povo. Disse Béjar: “Eu estou convencido, não posso demonstrar, sobre duas coisas: que o Sendero Luminoso é, em grande parte, obra da CIA e seus serviços de inteligência; e dois, que grande parte das operações de divisão da esquerda estão vinculadas aos serviços de inteligência inimigos. O terrorismo no Peru foi iniciado pela Marinha, isso é o que podemos demonstrar historicamente”.

A “declaração” que gerou a indignação dos fardados, foi feita não pelo ministro, mas pelo professor universitário e analista político, muito antes de ser Chanceler, quando analisava o conjunto do cenário nacional no marco de uma interpretação de fatos ocorridos, e sua projeção

Hector Béjar é o segundo ministro de Castillo que sofre algum tipo de represália. O primeiro-ministro, Guido Bellido, está sob investigação do Ministério Público por suposto vínculo com o terrorismo. Não há provas contra Bellido, apenas uma declaração. O governo Pedro Castillo encara o caso como perseguição político – judicial.

Um dos primeiros anúncios de Béjar foia saída do Peru do Grupo de Lima, bloco criado em 2017 para promover ações internacionais contra o governo venezuelano na Organização do Estados Americanos (OEA). Na ocasião, ele também declarou que o governo peruano se soma ao chamado internacional pelo fim da sanções bloqueios econômicos.

Histórico

Pedro Castillo do partido Perú Libre foi eleito com 50,125% dos votos (8.83 milhões), contra 49,875% (8.79 milhões) de sua opositora no segundo turno, Keiko Fujimori, da Fuerza Popular. Por todos os números, Fujimori perdeu a eleição.

O fugimorismo não aceitou a derrota e se prepara para voltar ao poder. Keiko Fugimori contratou as melhores mentes da advocacia do Peru para contestar os resultados eleitorais. Poucas horas depois que os boletins eleitorais começaram a ser divulgados, a equipe de Fujimori entrou com 134 pedidos de anulação de votos e de atas, e adiantou que já tinha prontos outros 811.

“Todos que conhecem a fraternidade judicial peruana percebem que alguns dos mais importantes nomes estão na lista de Fujimori.  Apenas em Lima a equipe tem mais de 30 advogados trabalhando. O grupo de Fujimori reuniu esses advogados mesmo antes da votação, antecipando a possibilidade da vitória de Castillo e a necessidade de levá-lo aos tribunais. O exército legal de colarinhos brancos armou uma estratégia racista de lawfare; todo o jogo visava invalidar os votos do núcleo de apoio de Castillo, ou seja, as comunidades indígenas do Peru”.

Por outro lado, os Estados Unidos nomearam este ano um novo embaixador para o Peru. Trata-se de Lisa Kenna, ex-assessora do secretário de Estado de Trump, Mike Pompeo, uma veterana de nove anos na Agência Central de Inteligência (CIA), funcionária no Iraque do secretário de Estado e envolvida no escândalo Trump-Ucrânia. Pouco antes da eleição, a embaixadora Kenna divulgou um vídeo, no qual ressalta os estreitos laços entre os EUA e o Peru e a necessidade de uma transição presidencial pacífica. A “transição presidencial estabelece um exemplo para toda a região”, adiantou, como se antecipasse um desafio legal. Se existe alguém que sabe sobre interferência no processo eleitoral na América Latina, esse alguém são os Estados Unidos

Em 18 de novembro de 2005, Rospigliosi e o ex-ministro do Interior Ruben Vargas foram almoçar na embaixada. Eles apresentaram suas “preocupações sobre a perspectiva de o ultranacionalista Ollanta Humala se estabelecer como uma força política a ser reconhecida”. Rospigliosi e Vargas trabalharam com uma ONG chamada Capital Humano y Social (CHS), que prestava serviço para o Gabinete de Aplicação das Leis e Assuntos sobre Narcóticos (NAS, na sigla em inglês), do governo estadunidense. Rospigliosi e Vargas pediram à embaixada dos EUA para orientarem sua contratada empresa de comunicação Nexum a “monitorar a cobertura de Humala e promover notícias e comentários anti-Humala nas regiões cocaleiras”. Eles queriam que a embaixada usasse seus fabulosos recursos para minar a imagem de Humala.

Os EUA estavam preocupados com pronunciamentos de Humala contra a presença militar estadunidense no Peru e seus laços com Hugo Chávez. A embaixada dos EUA gostou do que ouviu de Rospigliosi e Vargas. Humala perdeu a eleição de 2006. Mas ele venceu a de 2011, derrotando Keiko Fujimori; mas então, Humala tinha se estabelecido como candidato dos neoliberais, visto pelos EUA como alguém inofensivo e útil. Em 19 de maio de 2011, Humala assinou um documento que o amarrou à agenda neoliberal (“Compromiso en Defensa de la Democracia”). Na ocasião, ele foi abençoado pelo poderoso chefão da direita do Peru, o escritor Mario Vargas Llosa.

Vargas Llosa é uma figura-chave no país, aproveitando seu prestígio como prêmio Nobel de Literatura de 2010. Quando chegaram as notícias dando conta que Pedro Castillo havia tido uma votação avassaladora na zona rural, Vargas Llosa menosprezou os eleitores da região e advertiu que o Peru se tornaria uma Venezuela e isso seria uma catástrofe para o país. Temperado na bílis do racismo, Vargas Llosa se uniu a outros intelectuais da extrema-direita para diminuir os trabalhadores e camponeses peruanos, numa tática visando ajudar a encobrir o golpe sendo processado no ONPE.

Tudo parece acertado: uma embaixadora dos EUA com credenciais da CIA, um homem especialista em golpes sujos com o hábito de ir à embaixada pedir ajuda para satanizar a esquerda, um importante idoso com alergia a seu próprio povo e uma candidata cujo pai foi apoiado pela oligarquia quando promoveu um autogolpe em 1992. Leia Aqui

De acordo com especialistas em política da América Latina, a Extrema- Direita peruana está na ofensiva contra o governo popular de Castillo: “Primeiro vai exigir a saída de outros ministros; depois, a mudança do Gabinete, ou sua censura; depois a retificação de rumos por parte do governo. Finalmente buscará derrubar Pedro Castillo. Leia Mais

Foto- Al Mayadeen

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