As parteiras tradicionais do Acre são louvadas em verso e prosa, no entanto sua realidade é dura.
Desde 2013, elas têm garantido por lei estadual o Bolsa Parteira, um auxílio de R$ 250 que nunca foi implantado. Segundo a lei, as parteiras dos municípios de Porto Walter, Marechal Thaumaturgo, Jordão e Santa Rosa do Purus teriam direito a receber uma bolsa auxílio para prestar assistência ao parto domiciliar em áreas de difícil acesso, mas o benefício nunca foi efetivamente pago.
De 2016 a 2018, o governo do estado distribuiu kits com materiais necessários ao parto no estado do Acre. Com o fim da distribuição desses kits, os partos nos locais de difícil acesso, a prática retrocedeu ao ponto de cordões umbilicais serem cortados com talas de buriti porque “nao tem tesoura ou lâmina”, como conta Concita Maia, ao retornar de uma viagem ao Alto Purus.
Concita é da linha de frente do Instituto de Mulheres da Amazônia (IMA), associação que tem por atividade principal a defesa de direitos sociais e está em atividade desde 2002. Mas o interesse e o trabalho dela é anterior. Vem desde o início da década de 1990 e foi tema de sua dissertação de mestrado ” a gente vem acompanhando todo o processo desde a invisibilidade na década de 90 ao empoderamento e o processo organizativo. Invisibilidade para o resto do estado, porque dentro das comunidades as parteiras sempre tiveram status de autoridade”.
Os Encontros de Parteiras realizados neste mês vão resultar em documentos com reivindicações que serão encaminhados às autoridades competentes: prefeitos e governador. Para realizar esses encontros, Concita percorreu as comunidades do Alto Juruá- rios Amônia, Tejo, Boca do Araras, entre outros.

A viagem foi documentada através de uma série intitulada “Diario de Bordo”, disponível no Instagram do IMA.
Atualmente as parteiras tradicionais do Acre formam uma categoria à parte. São reverenciadas pelas comunidades e pela imprensa nacional. Recentemente a história da primeira presidente da Associação de Parteiras de Marechal Thaumaturgo, Maria Zenaide, que iniciou na profissão aos 10 anos de idade, foi contada pela revista Istoé Dinheiro. Na reportagem, Maria Zenaide conta uma de suas aventuras quando foi acordada de madrugada para fazer um parto difícil. A caminhada de duas horas na chuva pela floresta escura tambem nao era fácil: “Pisei em uma cobra, ela inchou, fez barulho e, ao tentar correr, perdi a poronga. Não tinha nada para alumiar o caminho”, lembra a parteira que passou a se agarrar nas árvores e a contar com a luz da lua. Leia Mais
Para chegar até elas, Concita Maia também teve que acordar de madrugada. No Diário de Bordo ela conta da viagem em uma pequena voadeira de três lugares, a aventura de descer barrancos escorregadios para chegar até a embarcação e o desafio de manter o equilíbrio para atravessar a estreita prancha de madeira que ligava o barranco a balsa onde a voadeira estava ancorada para a viagem de 7 ou 8 horas em meio a temporais.

A representante do IMA descreve as parteiras tradicionais como “sábias parteiras tradicionais, guardiãs da vida e da floresta”. Em seu Diário de Bordo registrou: “Aqui estou, neste lugar sagrado, com as poderosas filhas do ventre da terra”.
Foto- Portal da Amazonia
Assista ao vídeo
Acre in Foco – Cobertura das Últimas Notícias do Acre Acre in Foco traz as últimas notícias do Acre, com cobertura atualizada sobre política, segurança, saúde, cultura e eventos locais. Fique por dentro de tudo
