A advogada, analista política e ativista boliviana Nadia Beller, vítima de uma tentativa de assassinato no início deste mês, concedeu entrevista exclusiva aos jornalistas Thiago Suman, do DCM, e Leandro Demori, do programa Os Três da Manhã, que estreou hoje no Youtube. Beller apontou seu ex-companheiro, o consultor político argentino Fernando Cerimedo, como o mandante intelectual do atentado.
Em recuperação em Santa Cruz de la Sierra, Nadia foi atingida por três disparos durante o ataque. Na entrevista, a boliviana faz graves denúncias sobre a estrutura da operação que, segundo ela, Cerimedo articula para a construção e o fortalecimento de governos de extrema direita em diferentes países da América Latina.
Do clã Bolsonaro a Rodrigo Paz, na Bolívia, de Keiko Fujimori, no Peru, a Javier Milei, na Argentina, Cerimedo teria operado um esquema baseado em milhões de perfis falsos e disparos coordenados de fake news, com o objetivo de influenciar o debate público e processos políticos na região.
Cerimedo, detido por tentativa de feminicídio, negou envolvimento no crime e afirmou que mantinha uma relação respeitosa com Beller. A investigação, porém, segue com análises de celulares, computadores e provas balísticas. Segundo o advogado da vítima, mensagens encontradas no telefone de Cerimedo indicavam que “Nadia tinha que ser eliminada”.
Beller foi baleada três vezes, permanece hospitalizada e sob proteção policial. Ela solicitou proteção como testemunha após denunciar atos de corrupção envolvendo o presidente boliviano Rodrigo Paz e sua família. A advogada também deveria depor sobre o suposto enriquecimento ilícito de Cerimedo, caso que provocou forte impacto no governo boliviano.
Nadia declarou que estava grávida de quatro semanas no momento do ataque, o que configuraria agravante pelo art. 252 Bis do código penal boliviano
Confira abaixo a entrevista:
Fazenda de bots e estrutura de desinformação na Bolívia
Sei que a empresa presta esse serviço pelo qual é contratada não porque tenha grandes ideias de comunicação, mas porque eles fazem todo esse trabalho de propagação por meio de seus bots e também de ataques. Acima de tudo, o ponto forte deles é justamente a desinformação.
A que encontraram em La Paz é muito pequena; na verdade, eu sequer tinha conhecimento daquela de La Paz. Eu sei que aqui na Bolívia ele tem uma enorme fazenda de bots no centro empresarial de Santa Cruz, no bairro Equipetrol, na qual a polícia ainda não fez nenhuma intervenção.
Sei disso porque ele fez videochamadas comigo de lá. Uma vez, ele deixou a chave dele comigo, dizendo que alguém iria buscá-la na minha casa, mas, no fim, não mandou ninguém e, quando voltou de viagem, tive que devolvê-la a ele. Sei que é um lugar bastante grande, pelo menos pelo que vi naquela videochamada. Era um lugar grande.
Ele constantemente levava chips da operadora Entel para lá, constantemente levava telefones celulares. Também sei que eles têm outra muito, muito grande em Buenos Aires. Exatamente onde fica, eu não sei e desconheço se eles têm outras em outros países.
Campanhas eleitorais na América Latina
O que ele me contou sobre como trabalharam e como trabalham é que não atuaram apenas lá. Trabalharam na Assembleia Constituinte do Chile, trabalharam em Honduras, trabalharam, pelo que entendo, no segundo turno de Keiko Fujimori, trabalharam na Bolívia, trabalharam na Argentina e tinham a intenção de trabalhar na Colômbia. Acho que isso não chegou a se concretizar.
O medo de Fernando Cerimedo de voltar ao Brasil
Para ele, o processo que abriram contra ele, pelo que entendo, foi muito duro, foi muito difícil de lidar. Fernando tinha muito medo de ir ao Brasil. Pelo que sei, não voltou desde aquela vez em que teve problemas, porque, por exemplo, o presidente Rodrigo Paz foi a uma reunião com Lula e ele não o acompanhou.
Ele se precavia muito em relação ao Brasil. Dizia-me que era um país extremamente difícil, extremamente complicado, não apenas pela idiossincrasia das pessoas, mas também pelo volume da população. No entanto, ele me disse que, para ele, era bastante difícil ganhar, por exemplo, uma eleição agora.
A Polícia Federal indiciou Cerimedo em 21/11/2024, no inquérito da trama golpista, por coordenar com militares o ataque ao sistema eleitoral pra manter Bolsonaro no poder — inclusive a live “Brazil was stolen”, ou “Brasil foi roubado” (04/11/2022, que contém mais de 400 mil visualizações) que espalhou as alegações de fraude nas urnas, desmentidas pelo TSE.
Envolvimento com a família Bolsonaro
Em algum momento ele me comentou que a maioria de seus seguidores no Twitter existe justamente por isso, porque ele trabalhou muito ativamente na campanha de Flávio Bolsonaro em 2022. Pelo que entendo, ele empenhou toda sua empresa nisso. Inclusive, entendo que ele viveu no Brasil por bastante tempo.
Pelo que sei ele é muito próximo da família Bolsonaro e ele me disse que Flávio seria o candidato, e que naturalmente o apoiaria porque era seu amigo. Não sei em que nível seria esse apoio, não sei o quanto ele poderia ajudá-lo, porque devemos lembrar que Fernando não vai ao Brasil por causa do processo que teve. Então, não sei se ele atuaria ativamente.
O que eu lhe perguntei naquela época foi se ele acreditava que tinha chances de ganhar. Ele me disse que seria muito difícil, mas que eles iriam para uma batalha.
Parceiro de Eduardo Bolsonaro e Brad Parscale
No período em que conheci Brad Parscale, sei que esteve junto de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, quando ele foi receber seu prêmio, e agora, supostamente neste mês, no início de agosto, depois de comunicações telefônicas e outras coisas, sei que os contatos têm sido constantes, porque eles têm uma amizade pessoal.
A foto que Fernando me enviou mostrava os dois jantando e estavam sozinhos. Mas, sim, pelo que entendo, também teriam se reunido com Brad Parscale (diretor digital da campanha presidencial de Donald Trump em 2016 e gerente da campanha de reeleição em 2020).
Sei que Fernando forneceu tecnologia a Parscale, mais ou menos para que ele ficasse responsável pela América Latina; que ele é seu sócio em vários negócios, não apenas na Numen (agência de marketing político digital de Cerimedo); Parscale é seu sócio e Cerimedo administra essa questão da inteligência artificial.
Nova IA e filtros para conteúdos sobre a Palestina e pró-Israel
Inclusive, nesta última viagem, ele me comentou que estavam fazendo uma inteligência artificial especial, com filtros para censurar a questão palestina, de forma que só sairiam informações por meio dessa IA, somente informações pró-Israel. Ele fez uma videochamada comigo do local onde estavam algumas máquinas. Eu não entendo muito disso.
Agente da CIA
Fernando me disse que foi agente, mas, para ser sincera, desconfio dessa situação. Acho que era mentira. Acho que ele ostentava algo que não era. Tive a impressão de que quem realmente era agente, pelo que ele me contava, era Parscale, e que Fernando tentava, ou seja, fazia das experiências dele como se fossem suas, como se quisesse viver a vida dele.
Pelo que estive conversando com a imprensa argentina, com pessoas que o conheciam há muitos anos, todos concordam que ele é como se diz, um vendehumo [alguém que vende ilusões, um farsante]. Acho que ele era bastante mentiroso, bastante mitomaníaco.
Governo boliviano protege Cerimedo
Acredito que ele esteja apostando na própria impunidade pelo poder de proteção que Rodrigo Paz está lhe dando, porque Rodrigo claramente está coordenando com ele tudo o que está negando e que aqui na Bolívia é impossível que as pessoas acreditem.
Ele está negando coisas extremamente absurdas. Não sei com que cara nega que Cerimedo trabalhava ao lado de seu escritório, se todos os parlamentares passaram pelo escritório dele, a imprensa passou pelo escritório dele, atores políticos e organizações sociais passaram pelo escritório dele.
Comunicadores governistas, como o jornalista Arana, disseram que se reuniram no escritório ali ao lado de Rodrigo Paz. Eu publiquei fotos no escritório ao lado de Rodrigo Paz, publiquei fotos de reuniões bilaterais em meados do mandato, mas Rodrigo Paz insiste em dizer que ele apenas colaborou com eles no início da campanha.
Então, essa coordenação e essa negação perante o restante do povo, que talvez não esteja tão envolvido na política, fazem-me entender que eles estão, a partir do poder, articulando alguma fórmula para fazê-lo sair impune de tudo isso.
Como eu disse, as mentiras do governo, em coordenação com ele, fazem-me perceber que ele tem toda a proteção do aparato do Estado. Continua tendo exatamente o mesmo poder.
O poder e o dinheiro
Além disso, Fernando Cerimedo tem muito dinheiro, tem muitas informações do governo. Claramente, o governo prefere ficar mal a se desvincular dele. Acho que ele vai apostar até o fim para tentar sair impune de tudo isso, com o respaldo do governo.
Derrubada de aviões?
Há informações, por um lado, sobre as quais eu o questionei muitas vezes, porque falavam em nome dele e coisas assim, e ele negava algumas situações. Em outras situações, ele admitia que estavam fazendo algum tipo de operação com eles.
Mas ele sempre tentou se apresentar para mim como uma pessoa correta, como uma pessoa maquiavélica, ou seja, capaz de enganar, por exemplo, você, para que você confiasse nele.
Mas, por exemplo, nesse caso, ele me dizia: “Nós colocamos radares nos aviões pequenos e eles operam; então, quando estão operando, nós os derrubamos”. Ou seja, colocavam radares para derrubá-los. Esse foi o comentário que ele me fez. Ele sempre se apresentava como alguém que fazia a coisa certa.
Ministério Público
Há outra situação que vou comentar com o Ministério Público. Quero que entendam que minha vida está em risco, minha vida esteve em risco e, com esses temas, tenho que ser bastante cautelosa. Mas, em termos gerais, uma coisa era o que se sabia aqui na Bolívia e outra coisa era aquilo que, quando eu o questionava, ele justificava para mim. Ele sempre tentou se apresentar como uma pessoa correta, como uma pessoa íntegra e, bem, à luz dos fatos, a realidade é totalmente diferente.
Provas sob análise
Não sei como se atrevem a mentir. Estão fazendo alguma coisa por trás para, obviamente por corrupção, encobrir tudo isso, porque as provas estão ali, estão no celular dele.
Então, todas essas mentiras me levam a concluir que eles estão tramando alguma coisa, que ele continua tendo poder, que continua tendo a proteção do governo e do Estado.
Eu só posso aspirar a ter a proteção obrigatória, porque é isso que determina a norma da polícia, e também não confio nessa polícia. Portanto, de forma nenhuma me sinto segura.
Por Thiago Suman e Leandro Demori
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