Homem que oferecia a esposa para estupros encerra depoimento. Drogada, esposa sofreu 92 estupros

Homem que oferecia a esposa para estupros encerra depoimento. Drogada, esposa sofreu 92 estupros

Era um vício, diz homem que dopava a esposa para ser estuprada por outros

 

Dominique Pélicot, 71, o homem acusado de dopar a esposa ao longo de uma década para que dezenas de desconhecidos pudessem estuprá-la na França, admitiu nesta terça (17) os crimes imputados contra ele.

“Eu sou um estuprador”, afirmou Dominique no tribunal de Avignon, cidade no sul francês onde ocorre o julgamento desde o começo do mês. “Peço à minha esposa, aos meus filhos e aos meus netos que aceitem as minhas desculpas. Lamento o que eu fiz. Peço seu perdão, mesmo que não seja perdoável.”

A brutalidade do caso chocou o país e ganhou projeção internacional desde que detalhes se tornaram públicos. Em paralelo, vem estimulando debates sobre a violência contra a mulher. No último sábado (14), milhares de pessoas foram às ruas em várias cidades francesas para demonstrar apoio à vítima.

Gisele Pélicot sofreu ao menos 92 estupros de 2011 a 2020, segundo os investigadores. Ela era dopada com ansiolíticos pelo marido, que oferecia a esposa em um site de relacionamento para abusá-la.

Dominique enfim compareceu ao tribunal nesta terça depois que autoridades decidiram adiar o depoimento, na semana passada, sob a justificativa de que o réu tinha problemas de saúde. Diante do juiz, ele admitiu culpa e afirmou que os outros homens foram cúmplices. “Todos sabiam [que cometiam estupros]. Eles não podem dizer o contrário.”

Além dele, mais 50 homens, com idades de 26 a 74 anos, estão nos bancos dos réus. Alguns argumentaram que, ao cometer o crime, acreditavam estar participando de fantasias sexuais do casal. Em seu depoimento, Gisèle disse que não houve consentimento com nenhum deles.

Todos são acusados de estupros de vulnerável e podem receber penas de até 20 anos de prisão. No caso de Dominique, também pesa a denúncia de violação de privacidade, uma vez que ele filmava os abusos.

O caso veio à tona depois da captura de Dominique, em 2020. Ele foi flagrado em um shopping filmando as partes íntimas de uma mulher, por baixo de sua saia. Nos dias que se seguiram à prisão, os investigadores encontraram em seus computadores cerca de 4.000 fotos e vídeos de sua esposa inconsciente e sendo estuprada por dezenas de homens.

Dominique não está se escondendo das acusações contra ele, afirmou a advogada do réu, Béatrice Zavarro. Ao fazer uma espécie de mea culpa, o homem mencionou episódios traumáticos que teriam acontecido em sua infância e na adolescência. Ele disse que foi estuprado por um enfermeiro aos 9 anos e que participou do estupro coletivo de uma mulher com deficiência aos 14.

Os acontecimentos no passado, afirmou, ajudaram a desencadear um comportamento abusivo. “Tornou-se uma perversão, um vício”, afirmou Dominique no tribunal.

Gisèle, por sua vez, tornou-se uma espécie de símbolo da luta contra a violência sexual na França. De acordo com seus advogados, ela abriu mão de um julgamento a portas fechadas para dar visibilidade ao caso e estimular outras mulheres a denunciarem os agressores. Também tenta conscientizar a população sobre os perigos da perda de consciência induzida por drogas.

O jornal britânico The Guardian noticiou que Dominique fez pelo menos um discípulo. Investigadores dizem que Jean Pierre, 63, um dos réus no caso, copiou as técnicas de Dominique para que a própria mulher fosse violentada.

Pierre, ex-motorista de caminhão, teria tido contato com Dominique primeiro em uma sala de bate-papo na internet. Eles conversaram sobre sedativos e depois se encontraram pessoalmente.

Procuradores afirmam que Dominique forneceu ansiolíticos para que Pierre dopasse a esposa. O próprio tutor teria inclusive viajado para violentar a mulher. Pelo menos 12 estupros teriam ocorrido de 2015 a 2020.

Devido à complexidade do caso, o julgamento deverá se estender até dezembro. “Nunca deveria ter feito isso. Estraguei tudo. Perdi tudo e devo pagar por isso”, afirmou Dominique nesta terça.

“Vou morrer como um cão”

Dominique Pelicot, de 71 anos, encerrou seu depoimento no Tribunal de Avignon, França, com lágrimas e pedidos de perdão. Durante uma década, ele drogou sua esposa, Gisèle Pelicot, e permitiu que dezenas de homens a violentassem. Em suas palavras finais, afirmou: “Nunca deveria ter feito isso, vou morrer como um cão”. Apesar de reconhecer que Gisèle não o ama mais, declarou: “Eu ainda a amarei. Ela é parte daquilo que guardo dentro de mim”.

Gisèle Pelicot, também de 71 anos, deixou claro que jamais perdoará o marido. Em seu depoimento na quarta-feira, ela instou o tribunal a refletir sobre a sociedade machista e patriarcal, enfatizando a necessidade de mudar a percepção sobre o estupro. “Eles devem assumir a responsabilidade por suas ações. Eles estupraram. Estupro é estupro”, afirmou.

Os filhos do casal também exigiram punições severas para os culpados. David Pelicot expressou: “O que espero deste julgamento é que esses homens, e aquele homem no banco dos réus [o pai], sejam punidos pelos horrores que infligiram à minha mãe”. Sua irmã, Caroline, acredita ter sido abusada pelo pai. O processo envolve 50 acusados, com idades entre 26 e 74 anos.

O caso ganhou destaque na mídia francesa, com veículos como Le Monde e Le Figaro acompanhando de perto o julgamento. O Le Monde relatou que Dominique Pelicot admitiu sua culpa e expressou remorso durante o julgamento. Já o Le Figaro destacou os depoimentos emocionais dos filhos, que confrontaram o pai no tribunal, exigindo justiça pelos crimes cometidos contra a mãe.

Este julgamento tem sido considerado um dos mais significativos na França em relação a crimes sexuais.

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