Chico Mendes completaria 80 anos neste domingo, 15. Mas ainda não tem o devido reconhecimento

Chico Mendes completaria 80 anos neste domingo, 15. Mas ainda não tem o devido reconhecimento

Apesar de reconhecido internacionalmente como um dos mais importantes brasileiros de todos os tempos, Chico Mendes não tem o devido respaldo em sua terra natal. Uma avenida aqui, uma estátua ali, a lembrança de antigos companheiros, não mostram a real importância deste acreano para as novas gerações.

Seu aniversário de 80 anos não foi comemorado e ele é pouco estudado nas escolas do Acre. A tal ponto que uma estudante de escola pública do estado disse que Chico Mendes era conhecido pelo combate ao HIV. Perde-se a história, perde o povo.

Chico Mendes jogou luz sobre os conflitos de terra no Acre através da exploração dos seringueiros que vinha desde o início mas foi intensificada pela política de substituição da borracha pela pecuária implantada na Amazônia pela ditadura militar na década de 1970. Política que intensificou a especulação fundiária e aumentou a devastação ambiental. Os seringueiros dependem da preservação da floresta.

Nascido no seringal Porto Rico, Xapuri,  e seringueiro desde a infância, Chico denunciou ao mundo as condições de pobreza e a exploração do povo que vive no interior das florestas. Sua luta resultou em prêmios internacionais como o Global 500 da ONU e a Medalha de Meio Ambiente da Better World Society, nos Estados Unidos.

À frente de seu tempo

Ele iniciou na luta sindical  em 1975, como secretário geral do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasileia e popularizou os “empates”, manifestações pacíficas em que os seringueiros impediam com os próprios corpos que as árvores fossem derrubadas pelos peões de fazendeiros. A luta incomodou tanto os poderosos da época que Wilson Pinheiro, presidente do STR, que liderava os empates, foi assassinado dentro da sede do sindicato em Brasileia, em 1980.

Chico foi preso e torturado pela ditadura militar sob acusação de “subversão”. Como vereador eleito em Xapuri pelo MDB, usou seu mandato para promover um foro de discussões entre lideranças sindicais, populares e religiosas na Câmara Municipal de Xapuri. Ele também denunciou o financiamento de bancos estrangeiros para a devastação da floresta que resultava na expulsão dos seringueiros. Chico foi fundadores do PT.

Em outubro de 1985, Chico Mendes liderou o 1º Encontro Nacional de Seringueiros, durante o qual foi criado o Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS), que se tornou a principal referência da categoria. Foi do CNS  que saiu a proposta de criar uma “União dos Povos da Floresta”, que buscava unir os interesses de povos indígenas, seringueiros, castanheiros, pequenos pescadores, quebradeiras de coco e populações ribeirinhas, através da criação de reservas extrativistas.

Essa aliança com os índios amazônicos levou o governo a criar reservas florestais para a colheita não-predatória de matérias-primas. A intenção era preservar as áreas indígenas e a floresta e ser um mecanismo para promover a reforma agrária.

Suas ideias influenciam até hoje conservacionistas e legisladores em todo o mundo.

Inimigos

Os principais adversários de Chico Mendes eram os latifundiários abrigados na UDR (União Democrática Ruralista), que era presidida pelo atual governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil).  Chico foi ameaçado e perseguido pelos membros da UDR, principalmente depois de percorrer o Brasil denunciando em seminários, palestras e congressos, as intimidações que os seringueiros sofriam.

Chico denunciou reiteradas vezes as ameaças que sofria. No 3º Congresso Nacional da CUT), voltou a denunciar sua situação e atribuiu a responsabilidade pelo aumento da violência no campo ao advento da UDR.

Em 22 de dezembro de 1988, uma semana após completar 44 anos, Chico Mendes foi assassinado com tiros de escopeta no peito na porta de sua casa. Os tiros foram  disparados por Darci Alves, que cumpria ordens de seu pai, Darly Alves, grileiro de terras da região.

Chico vive

Chico permanece vivo na memória de seus companheiros de luta e nem tanto na dos que foram beneficiados por sua luta. Foi imortalizado pelos prêmios que recebeu e pelo nome dado a uma nova espécie de pássaro descoberta em 2013, o Zimmerius chicomendesi. Algumas produções cinematográficas e menções em trabalhos acadêmicos. Mas a população de seu estado natal ainda não reconhece a sua importância. Nem conhece sua história.

Logo após sua morte o cantor acreano Tião Natureza compôs a belíssima “Ao Chico”, que transcrevo abaixo:

“Ecoou, pela mata a fora. Cai a flor e a seringueira chora. De Xapuri, chora o mundo inteiro. Morre Chico, Chico Rei Seringueiro. Mas essa mata que mata esse povo infeliz, um dia há de fazer o chico rei, seringueiro feliz”.

Francisco Alves Mendes Filho

15/12/1944- 22/12/1988

 

                      

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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