A Páscoa reúne tradições judaicas e pagãs, e cada religião comemora de acordo com sua própria interpretação
Para os cristãos da América Latina, a Páscoa comemora a ressurreição de Jesus Cristo, mas historiadores afirmam que na antiguidade (muito antes de Cristo), a Páscoa já era celebrada por germânicos e celtas, como culto à deusa Ostara, e eram comuns os ovos e o coelho, símbolo da fertilidade.
Nos países de língua inglesa a Páscoa é Easter, cujo significado de acordo com linguistas tem origem no nome da deusa anglo-saxã Ēostre, associada à primavera e à fertilidade. Com o tempo, a celebração cristã da ressurreição de Jesus Cristo se juntou às festas pagãs da primavera. Esta mistura segundo pesquisadores, resultou no feriado que conhecemos hoje.
O consenso atual é que a Páscoa tem relação direta com eventos da natureza. O primeiro ponto é a chegada do equinócio de primavera (no hemisfério Norte) — ou seja, a transição de inverno para primavera — ou equinócio de outono (no hemisfério Sul). O fenômeno acontece entre os dias 20 e 22 de março. Nesse momento, os antigos povos pagãos (celtas, fenícios, egípcios, etc.) festejavam a chegada da primavera e o fim do inverno. Naquele contexto, essa celebração simbolizava a sobrevivência da espécie humana.
“Sabemos que essa festa está muito ligada a um ambiente pastoril, agrário, rural. Era uma festa que existia na Antiguidade no que seria o Oriente Médio hoje. Provavelmente a Páscoa nasceu como uma festa em comemoração do nascimento das ovelhas na primavera”, conta Gerson Leite de Moraes, coordenador do curso de teologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Na tradição judaica, a Páscoa é Pessach, que acontece a partir do momento em que os israelitas se libertam da escravidão dos egípcios. Não é fácil precisar datas, já que os registros arqueológicos são escassos. É possível situar o período de escravidão próximo ao século 13 antes de Cristo, na época do reinado do faraó Ramsés II (1279 a 1213- aC).
“No horizonte bíblico, os israelitas são um povo peregrino, migrante, nômade. Ao longo das andanças, foram tendo contato com vários povos e religiões. Houve também contato com religiões politeístas. Eles foram agregando elementos à cultura religiosa”, diz o professor da PUC-SP, Frei Lisaneos Prates.
O contorno religioso se deu por associação segundo historiadores. Moisés dos judeus viveu 1200 anos antes de Jesus, mas existem semelhanças na história dos dois. Na época de Moisés, os judeus sofreram nas mãos dos egípcios. Nos tempos de Jesus, o perseguidor estava na figura do Império Romano, que contava com o apoio de alguns grupos de judeus.
“Jesus não aceitava a dominação política imperial romana e não aceitava que seus conterrâneos tivessem uma parceria interesseira com a dominação romana. Na época, Jesus foi visto como ameaça e isso gerou uma perseguição. A morte de Jesus causou uma dispersão nos primeiros seguidores, por causa do risco de também serem brutalmente assassinados. Muitos se esconderam. E aí vem a ressurreição de Jesus, que foi definitiva para a nova Páscoa. É a cristianização da Páscoa judaica feita pelos seguidores de Jesus”, afirma o frei Lisaneos Prates.
Foi no concílio de Niceia que a data da Páscoa começou a ser discutida. O relato bíblico dá conta que, após a ressurreição no domingo, Jesus teria convivido com seus seguidores por aproximadamente 40 dias, antes de ascender aos céus. A cruz virou símbolo.
“Não há uma linha direta de confiabilidade. Não existem provas nem certezas que conseguem desfazer a necessidade de confiança, de fé. Páscoa é uma afirmação da fé. Não há uma forma de cientificamente aprovar ou reprovar”, reconhece Prates.
Símbolos do coelho e dos ovos
Estudos mostram que o coelho e os ovos coloridos derivam dos cultos pagãos da deusa da fertilidade da mitologia nórdica e germânica Eostre, Ostera ou Ostara, que eram símbolos de renovação da deusa.
O ovo é um símbolo antigo de vida e renascimento. Povos como os romanos acreditavam que o Universo tinha a forma oval. Na Idade Média, surgiram crenças de que o mundo teria nascido dentro da casca de um ovo. Com o tempo, presentear com ovos de galinha se tornou um hábito — prática que alguns historiadores atribuem aos persas, outros aos chineses.
“Muitos séculos antes do nascimento de Cristo, a troca de ovos no equinócio da primavera, comemorado no dia 21 de março no hemisfério norte, era um costume que celebrava o fim do inverno”, explica o monsenhor André Sampaio Oliveira, doutor em Direito Canônico.
Ele acrescenta que, com o surgimento da Páscoa cristã, esse rito pagão foi incorporado à Semana Santa, e o ovo passou a simbolizar a ressurreição de Jesus.
Na liturgia cristã, a Páscoa representa a morte e a ressurreição de Jesus Cristo. Uma das versões mais conhecidas relata que Maria Madalena teria ido ao sepulcro de Jesus na manhã de domingo, após a crucificação, levando material para ungir o corpo. Ao chegar, encontrou a sepultura aberta e, segundo a tradição popular, um coelho teria sido o primeiro ser vivo a testemunhar a ressurreição. Por isso, teria recebido o papel de anunciar a boa nova às crianças e entregar ovos. Seria portanto, a comemoração da vitória sobre a morte.
E o coelho?
Desde o Egito Antigo, o animal já era associado à fertilidade. Suas múltiplas ninhadas por ano reforçavam essa ideia. Mais tarde, foi visto como símbolo de renascimento, por ser um dos primeiros a sair da toca após o inverno.
Mas na Austrália, Easter in Australia, a figura do Easter Bunny (Coelhinho da Páscoa) foi substituída pelo Easter Bilby (Bilby de Páscoa),porque naquele país os coelhos são considerados uma praga que prejudicam as plantações. O bilby, essa figurinha aí abaixo, que se parece com um rato orelhudo é um marsupial típico da Austrália.

E por lá, não se presenteia coelho de chocolate na Páscoa, mas bilby de chocolate.

Com tantas narrativas diferentes, os historiadores chegaram à conclusão que o mais importante não é identificar a ‘verdadeira história’, mas decifrar os significados atribuídos a esses símbolos e as ideias que eles procuram transmitir.
O ovo de chocolate presenteado na Páscoa é invenção do comércio.
Imagem de capa- Escola Educação
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