O ex-assessor jurídico da Casa Branca Ty Cobb afirmou que o discurso do presidente Donald Trump desta quinta (16) sobre suposta interferência estrangeira nas eleições faz parte de uma estratégia para justificar medidas extraordinárias durante o processo eleitoral americano.
Cobb, que integrou o primeiro governo Trump e coordenou a resposta da Casa Branca à investigação sobre a interferência russa nas eleições de 2016, disse, em entrevista ao programa PBS NewsHour, acreditar que o objetivo do presidente é criar as condições para declarar uma emergência nacional próxima ao período das eleições de meio de mandato.
Ou seja, golpe.
Segundo ele, aliados de Trump como Steve Bannon e Todd Blanche já sugeriram a presença de agentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) nos locais de votação. Cobb afirmou considerar essa possibilidade “praticamente certa” e não descartou o eventual emprego da Guarda Nacional.
Na avaliação do ex-conselheiro, essas medidas poderiam intimidar eleitores, especialmente minorias e imigrantes, além de abrir espaço para novas tentativas de questionar o resultado eleitoral ou até apreender urnas eletrônicas — algo que, segundo ele, Trump também desejou fazer após as eleições de 2020.
Cobb afirmou que o presidente busca impedir uma eventual vitória democrata nas eleições legislativas e preservar sua influência política, acusando Trump de ampliar o uso do poder federal para interesses pessoais e políticos.
Ex-assessor vê enfraquecimento dos mecanismos de controle
Durante a entrevista, Cobb argumentou que a atual administração possui menos freios internos do que o primeiro mandato de Trump.
Ele lembrou que, entre 2017 e 2021, integrantes do governo como John Kelly, James Mattis, Nikki Haley e Mike Pompeo frequentemente se opunham a decisões consideradas precipitadas pelo presidente. Segundo ele, essas figuras foram substituídas por assessores que demonstram lealdade irrestrita ao chefe da Casa Branca.
O ex-advogado também criticou mudanças promovidas no Departamento de Justiça e no FBI, afirmando que parte significativa dos procuradores mais experientes deixou os cargos e que recursos antes destinados ao combate ao terrorismo, lavagem de dinheiro, fraudes e violações de direitos civis passaram a ser concentrados em ações de imigração.
Alegações sobre fraude e urnas são “exageradas”, diz Cobb
Questionado sobre a possibilidade de existirem ameaças reais envolvendo urnas eletrônicas ou interferência chinesa nas eleições, Cobb respondeu que esses riscos vêm sendo exagerados.
Ele reconheceu que países como China, Rússia, Irã e Venezuela historicamente tentam influenciar a opinião pública em diferentes países, mas afirmou que não existem evidências consistentes de manipulação das urnas eletrônicas americanas.
Como exemplo, lembrou que a Fox News concordou em pagar US$ 787,5 milhões à empresa Dominion Voting Systems após divulgar alegações falsas sobre fraude nas eleições de 2020.
Cobb também afirmou esperar que Trump apresente novas acusações sem base sólida durante seu discurso, incluindo alegações envolvendo o governo venezuelano de Nicolás Maduro.
Segundo ele, eventuais informações divulgadas pelo presidente dificilmente contarão com respaldo de especialistas respeitados da comunidade de inteligência, historiadores ou jornalistas, sendo apoiadas principalmente por aliados políticos e comentaristas que, em sua avaliação, já defenderam teorias conspiratórias no passado.
Por Kiko Nogueira
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