Coluna da Angélica: Elon Musk expõe a hipocrisia da guerra às drogas

Coluna da Angélica: Elon Musk expõe a hipocrisia da guerra às drogas

Uma reportagem do jornal estadunidense The New York Times foi considerada uma bomba, por mostrar o uso de drogas pelo bilionário Elon Musk. A matéria foi reproduzida pela imprensa mundial e manchete na imprensa brasileira, deixando de fora a principal questão: que a guerra contra as drogas é uma guerra contra os pretos e pobres e que o tráfico e o uso de drogas sempre foi tolerado e até utilizado por instituições de governo dos Estados Unidos, de acordo com seus interesses.

Vamos aos fatos.

Se fosse um preto e pobre estaria preso e seria chamado de drogadito, como é bilionário virou conselheiro na gestão Trump

A reportagem do The New York Times diz que Elon Musk consome diariamente cerca de 20 comprimidos de cetamina, um anestésico utilizado por efeitos recreativos por seus efeitos alucinógenos que podem provocar distorções sensoriais e dissociação da realidade.

Além da cetamina, seu padrão de consumo envolveria também ecstasy e cogumelos alucinógenos.

Mas esta não é a primeira vez que o nome de Musk aparece envolvido com a dependência de drogas. Em 2024, uma reportagem do jornal The Wall Street Journal já mostrava executivos e integrantes do conselho de administração de empresas de Elon Musk, como Tesla (NASDAQ:TSLA) e SpaceX,  preocupados com o uso de drogas por parte do bilionário. Segundo eles o consumo de drogas por parte de Musk incluía além dos citados pelo The New York Times, a maconha, LSD e cocaína. O problema se arrasta há anos. Tanto que interferiu na eleição para o conselho da empresa de carros elétricos em 2019, por causa do comportamento inconstante do empresário.

De acordo com o The Wall Street Journal que conversou com os executivos das empresas de Musk, o bilionário consome drogas em festas privadas em que os participantes assinam acordos de confidencialidade ou entregam os seus celulares na entrada. O jornal cita como fontes pessoas que testemunharam o uso das substâncias e outras com conhecimento do assunto.

As dificuldades de relacionamento com Elon Musk levaram o  presidente do conselho da Tesla, Robyn Denholm, a procurar Kimbal Musk (irmão de Elon Musk, integrante do conselho da Tesla e que participou do conselho da SpaceX até o início de 2022) para pedir ajuda com o comportamento do empresário.

A guerra às drogas é uma guerra aos pobres, negros e pardos. Isso fica claro quando se sabe que Donald Trump aceitou US$ 275 milhões (equivalente a R$ 1,5 bilhão) doados por Elon Musk à sua campanha e uma vez eleito o colocou para chefiar o Departamento de Eficiência Governamental — DOGE, na sigla em inglês e o teve como um dos principais conselheiros ao mesmo tempo em que mantém a maior população carcerária do mundo, a maioria composta por presos por delitos de drogas.

Segundo dados do Escritório de Estatísticas do Departamento de Justiça (BJS), 59% das pessoas em prisões estaduais ou federais nos EUA pertencem a minorias étnicas. Dados de 2013, mostram que quase metade (47,9%) dos condenados por delitos de drogas em tribunais federais eram hispânicos, enquanto os negros compunham 26,5%. Somados, pretos e pardos respondem por 63% das pessoas encarceradas nos Estados Unidos enquanto compõem 55,5% da população. Estudo aponta que minorias étnicas representam 59% da população carcerária dos EUA.

A questão portanto, não é o uso de drogas, afinal, Carlota Joaquina,  rainha consorte de Portugal e do Brasil, neta deCarlos III da Espanha e esposa de João VI de Portugal, imperatriz do Brasil,  mãe de Dom Pedro I, imperador do Brasil, usava regularmente maconha, segundo historiadores.

A  Rainha Vitória da Inglaterra, consagrada como modelo de mãe exemplar e cristã devota que consagrou o pensamento conservador, marcando seu governo por costumes rígidos, moralismo social e sexual  e fundamentalismo religioso, gostava de ópio e cannabis, antes de ser apresentada à cocaína.

Guerra às drogas

A Guerra às Drogas promovida pelos Estados Unidos começou em Junho de 1971 quando o presidente Richard Nixon, aquele que teve que renunciar por causa do escândalo de Watergate,  declarou o abuso de drogas como “inimigo público número um” e aumentou o financiamento federal para as agências de controle de drogas.

Em 1973, a Drug Enforcement Administration foi criada a partir da fusão do Office for Drug Abuse Law Enforcement, do Bureau of Narcotics and Dangerous Drugs, e do Office of Narcotics Intelligence para consolidar os esforços federais para controlar o abuso de drogas.

Não adiantou. No início dos anos 1980 surgiu a epidemia de crack. O nervosismo público que gerou, ajudou a impulsionar o apoio político à posição dura de Reagan sobre as drogas. Reagan assumiu a presidência em 1981 e expandiu grandemente o alcance da guerra das drogas e o seu enfoque na punição criminal sobre o tratamento levou a um aumento maciço de encarceramentos por delitos não violentos, de 50.000 em 1980 para 400.000 em 1997.

Em 1986, o Congresso dos EUA aprovou a Lei Anti-Droga que estabeleceu uma série de penas de prisão “mínimas obrigatórias” para vários delitos relacionados com a droga. Uma característica notável das penas mínimas obrigatórias foi a enorme diferença entre as quantidades de crack e cocaína em pó que resultou na mesma pena mínima: a posse de cinco gramas de crack levou a uma pena automática de cinco anos enquanto que a posse de 500 gramas de cocaína em pó levou a essa pena. Dado que aproximadamente 80% dos utilizadores de crack eram afro-americanos, os mínimos obrigatórios levaram a um aumento desigual das taxas de encarceramento dos infratores negros não violentos, bem como a alegações de que a Guerra às Drogas era uma instituição racista.

O modelo estadunidense de combate às drogas foi exportado para vários países, apesar das denúncias de envolvimento da famosa CIA (Agência Central de Inteligência), com o tráfico de drogas. Na maioria dos casos, o papel da CIA envolveu várias formas de cumplicidade, tolerância, ou ignorância intencional sobre o tráfico.  Por exemplo,  a CIA não lidava com a heroína, mas deu a seus aliados, os senhores das drogas, transporte, armas e proteção política. Vejamos alguns casos, dentre muitos outros:

Afeganistão 

De acordo com Peter Scott, uma das principais razões para a invasão estadunidense ao Afeganistão em 2001 se deu em decorrência do fato dos Talibãs terem praticamente eliminado a produção de ópio na região. Após a invasão norte-americana em 2001, com o apoio dos ex-traficantes, a produção anual de papoulas e opioides no Afeganistão disparou,  crescendo 4500% e continuou a crescer nos anos seguintes. Em 2007 o país já havia retomado a posição de domínio do mercado mundial de opiáceos, respondendo por 93% da produção.

Comunismo

Para auxiliar Ghiang Kai-Shek que lutava contra os comunistas chineses, liderados por Mao Tse-Tung, a CIA foi além de tentar um golpe de Estado em Taiwan, ajudou no contrabando de ópio da China para financiar Kai-Shek.

Vietnã

Vários soldados dos EUA que lutaram na guerra do Vietnã denunciaram que a CIA estava envolvida no contrabando de ópio do Vietnã e do Camboja para os produtores de heroína dos Estados Unidos.  O livro A Política da Heroína no Sudoeste da Ásia, do professor da Universidade de Wisconsin,  Alfred W. McCoy discute o uso do ópio no custeio de operações camufladas pela CIA no Vietnã.

Irã-Contras
O relatório do Comitê Kerry concluiu que membros do Departamento de Estado dos Estados Unidos “forneciam apoio para os Contras, estavam envolvidos em tráfico de drogas e os próprios componentes dos Contras sabidamente recebiam assistência financeira e material dos traficantes de drogas. Os Contras era um grupo de  rebeldes de direita, que fazia oposição ao governo socialista “sandinista” da Nicarágua. Investigadores descobriram que os Contras apoiados pela CIA faziam contrabando de cocaína para os Estados Unidos. A cocaína era distribuída como crack e os lucros canalizados para os Contras. A CIA ajudou diretamente os traficantes de drogas a arrecadar dinheiro para os Contras. Mas não para por aí, a CIA foi acusada de lavagem de dinheiro dos recursos de drogas dos Contras  no Irã. O ex-comissário da Alfândega dos Estados Unidos William von Raab disse que quando os agentes alfandegários invadiram o banco em 1988, encontraram numerosas contas da CIA.
Haiti

Em meados da década de 1980, a CIA criou uma unidade no Haiti para o combate às drogas que  foi usada como um instrumento de terror político e estava pesadamente envolvido no tráfico de drogas. Os membros da unidade eram conhecidos por torturar apoiadores de Aristide e ameaçaram matar o chefe local da Força Administrativa de Narcóticos. De acordo com um oficial norte-americano, a unidade fez tráfico de drogas e nunca apresentou qualquer informação útil sobre as drogas.

México

O mais antigo cartel mexicano, o Cartel de Guadalajara,  foi beneficiado pela CIA por ter ligações com o narcotraficante hondurenho Juan Matta-Ballesteros,  um ativo da CIA, que foi o chefe da SETCO, uma companhia aérea usada para o contrabando de drogas para os Estados Unidos e que também era utilizada para transportar suprimentos militares e pessoal para os Contras da Nicarágua.

A DES, principal agência de inteligência do México,  teve entre seus membros, aliados da CIA no México. Os distintivos da DFS  eram entregues pelo DEA aos traficantes de drogas mexicanos de alto nível, como identificação de uma virtual licença para traficar.

Vicente Zambada Niebla, filho de Ismael Zambada García, um dos principais traficantes de drogas no México, afirmou depois de sua prisão ao seus advogados que ele e outros altos membros do Cartel de Sinaloa haviam recebido imunidade por agentes estadunidenses e uma licença virtual para contrabandear cocaína para a fronteira dos Estados Unidos em troca de informações sobre cartéis rivais envolvidos na Guerra contra o narcotráfico no México.

Não acredite em mim, aliás, não acredite em ninguém. Leia, pesquise. Depois disso, conversamos.

Coluna de opinião

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Imagem- G1

 

 

 

 

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