Chefões do aparelhamento: Bolsonaro e Carluxo definiam quem Abin tinha que espionar

Chefões do aparelhamento: Bolsonaro e Carluxo definiam quem Abin tinha que espionar

Jair e Carlos Bolsonaro eram os chefes da organização criminosa na Abin, diz relatório da PF

Eles aparelharam a Abin (Agência Brasileira de Informação) com pessoas da confiança da família Bolsonaro e comandavam a organização criminosa responsável por ações ilegais de espionagem contra críticos do governo Bolsonaro. Um tipo de ação que só é viável em ditaduras.

Segundo a Polícia Federal, Jair e Carlos chefiavam a organização criminosa que definia os alvos das ações de espionagem e traçava diretrizes estratégicas.

As ações incluíram o uso indevido do sistema de geolocalização First Mile para monitorar ilegalmente indivíduos, um software adquirido por mais de R$ 5 milhões comprado para espionar e assassinar reputações de políticos, jornalistas e membros do judiciário, além de produzir dossiês falsos e disseminar desinformação para beneficiar seu núcleo político.

Entre as pessoas monitoradas ilegalmente estariam o ministro Alexandre de Moraes, o presidente do Supremo, ministro Luís Roberto Barroso e seus familiares. Do Legislativo, os ex-presidentes da Câmara, Rodrigo Maia e Arthur Lira (PP-AL) foram espionados, assim como os senadores Renan Calheiros, Omar Aziz, Randolfe Rodrigues, que participaram da CPI da Covid. Servidores públicos de diversos órgãos também foram monitorados, entre eles o Ibama, Receita Federal, e polícias Civil do Rio de Janeiro e Federal. Também houve espionagem ilegal contra jornalistas e figuras públicas, como Gregório Duvivier, Reinaldo Azevedo e Leandro Demori, dentre outros.

A estrutura operava de forma paralela à Abin oficial e era usada para fins políticos. Os investigadores apontam que esse núcleo “foi o responsável por definir as diretrizes estratégicas da ORCRIM, determinar os alvos das ações clandestinas (opositores, instituições, sistema eleitoral) e se beneficiar politicamente das operações” para favorecer Bolsonaro e aliados. Informações sigilosas obtidas ilegalmente eram utilizadas para embasar discursos públicos do ex-presidente.

O vereador Carlos Bolsonaro (PL) também foi indiciado por comandar a estrutura de divulgação de desinformação com base em dados colhidos de maneira ilegal. Segundo o relatório, ele estava diretamente envolvido na seleção de alvos e na articulação de ataques coordenados nas redes sociais

O ministro do STF Flávio Dino foi espionado durante a campanha eleitoral de 2022, quando disputou o Senado. A Abin de Bolsonaro através de Marcelo Bormevet,  solicitou a seu colega Giancarlo Gomes Rodrigues informações sobre o fotógrafo Leonardo Cunha de Oliveira, que estava associado à campanha de Dino. A justificativa para a solicitação foi que “chegou uma info importante pro PR”, em referência ao então presidente Bolsonaro.

Até bispos foram espionados

O Gabinete de Segurança Institucional (GSI), ligado à Presidência da República, solicitou à Abin de Bolsonaro, a elaboração de perfis detalhados de 152 bispos católicos que assinaram, em 2020, uma carta com duras críticas ao governo Jair Bolsonaro (PL). O pedido foi feito durante a gestão do general Augusto Heleno, atual réu por envolvimento em trama golpista.

A carta dos bispos denunciava a condução do governo nas áreas da saúde, educação e cultura, classificando o Brasil como um país mergulhado em crise política e de governança.“A causa dessa tempestade é a combinação de uma crise de saúde sem precedentes, com um avassalador colapso da economia e com a tensão que se abate sobre os fundamentos da República, provocada em grande medida pelo Presidente da República e outros setores da sociedade, resultando numa profunda crise política e de governança”, dizia o documento dos líderes religiosos.

Dossiê do governo Lula

Integrantes do chamado “gabinete do ódio” de Jair Bolsonaro continuaram a espalhar desinformação mesmo após o fim de seu mandato. O grupo produziu dossiês com acusações falsas contra membros do governo do presidente Lula (PT), em especial o então ministro da Secretaria de Comunicação Social, Paulo Pimenta. A PF concluiu que o modo de operação dos acusados repete o mesmo padrão já identificado durante a CPI da COVID, com o objetivo de disseminar desinformação. A PF afirmou que o conteúdo visava sustentar a narrativa de um suposto “gabinete do ódio” petista.

Tudo isso consta no relatório da Polícia Federal entregue ao Supremo Tribunal Federal (STF). O relatório com mais de 1200 páginas teve o sigilo retirado nesta quarta-feira (18) pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Segundo os investigadores, as operações ilegais tinham como objetivo favorecer o núcleo político do governo, especialmente Bolsonaro, com ataques e informações direcionadas contra o sistema eleitoral e opositores.

O ex-presidente Jair Bolsonaro, o filho dele, Carlos Bolsonaro e o atual deputado federal Alexandre Ramagem que era chefe da Abin durante a atuação dessa organização criminosa que usou da inteligência estatal e dinheiro público para fins políticos, foram indiciados.

 

Os indiciamentos, segundo a PF, foram fundamentados em mensagens, documentos e depoimentos colhidos ao longo das investigações, que constam como provas no relatório. As investigações também revelaram tentativas de obstrução e destruição de provas por parte de alguns integrantes da estrutura.

 

 

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