O escândalo Spagnuolo e o colapso da retórica libertária
A Justiça argentina investiga denúncia de corrupção que envolve advogado e irmã de Milei. Áudios ligam Karina Milei e outras pessoas próximas do presidente a cobrança de propina de fornecedores de remédios
O caso foi revelado pelo jornal argentino La Nación e mostra o envolvimento do ex-chefe da Agência Nacional para Pessoas com Deficiência (Andis), Diego Spagnuolo e a irmã do presidente da Argentina Karina Milei, que é secretária da Presidência em um esquema de propinas em contratos de medicamentos para pensionistas.
A denúncia judicial e operações de busca obtiveram áudios em celulares dos acusados. Após a divulgação dos áudios, o advogado Gregorio Dalbón apresentou uma denúncia na Justiça Federal envolvendo Spagnuolo, Karina Milei, Eduardo Menem, Javier Milei e os empresários Eduardo e Emmanuel Kovalivker, donos da Suizo Argentina.
De acordo com os áudios, a distribuidora de medicamentos Suizo Argentina teria exigido 8% de propina dos fornecedores para garantir contratos com o Estado. Também foi dito que 3% dessas propinas iam diretamente para Karina Milei, secretária-geral da Presidência, enquanto Eduardo Menem, aliado próximo de Karina, teria patrocinado a nomeação de funcionários ligados ao esquema, que movimentaria entre 500 mil e 1 milhão de dólares por mês.
Mesmo sem experiência na gestão de políticas para pessoas com deficiência, Diego Spagnuolo ingressou no governo em 2023 como diretor da Andis. Ele é amigo e advogado pessoal de Javier Milei, fez parte do núcleo fundador do partido La Libertad Avanza e foi candidato a deputado federal em 2021.
A relação próxima entre Spagnuolo e Milei fica evidente pelo fato de ele ser uma das quatro pessoas com mais registros de entrada na Casa Rosada. Entre janeiro de 2024 e março de 2025, contabilizou quase 40 visitas à residência presidencial.
Durante sua gestão, Spagnuolo implementou cortes orçamentários significativos na área da deficiência e cancelou milhares de pensões, acusando seus beneficiários de serem “deficientes fraudulentos”.
O promotor Franco Picardi apreendeu celulares, computadores e documentos tanto de Spagnuolo quanto de empresários da Suizo Argentina, drogaria citada nos áudios. Também foi alvo o advogado Daniel Garbellini, acusado de atuar como arrecadador do esquema em nome de “Lule” Menem. Para fontes da Casa Rosada, a maior preocupação é o desconhecimento sobre a quantidade de materiais ainda por vir à tona — áudios e vídeos que podem aprofundar a crise.
No âmbito da investigação, o juiz federal Sebastián Casanello ordenou 15 operações de busca e apreensão. Na sexta-feira (22), a Polícia encontrou Spagnuolo em um condomínio de luxo no município de Pilar, em Buenos Aires, enquanto tentava fugir. Durante o procedimento, seu celular foi apreendido para perícia.
No mesmo dia, Emmanuel Kovalivker foi interceptado em sua casa em Nordelta – uma das áreas mais caras da Argentina – a bordo de um veículo, também em tentativa de fuga. No carro, foram encontrados 266 mil dólares distribuídos em diversos envelopes.
Já Jonathan Kovalivker, seu irmão, supostamente também ligado ao esquema, não foi localizado em sua residência, embora tenham sido encontrados indícios de dinheiro em uma de suas caixas de segurança.
Enquanto isso, o juiz federal Sebastián Casanello determinou a proibição de saída do país para Diego Spagnuolo e para os diretores da distribuidora de medicamentos Suizo Argentina, Emmanuel, Jonathan e Eduardo Kovalivker.
Em outro momento das gravações vazadas, Spagnuolo reclama da arrecadação ilegal em sua própria área: “Colocaram um cara para controlar toda a minha caixa. É um bandido que já estava na gestão de Macri”. A Suizo Argentina é a principal fornecedora de medicamentos da Andis. A família Kovalivker, proprietária da empresa, mantém laços estreitos e negócios com o ex-presidente Mauricio Macri.
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