A Michelle da extrema direita argentina

A Michelle da extrema direita argentina

Seria mais interessante se Victoria Villarruel viesse ao Brasil para contatos com Michelle, e não Javier Milei para conversas com a família Bolsonaro. Milei vem para mentir que a Argentina está sendo salva pela destruição do Estado e pelas suas crueldades contra idosos, mulheres e crianças. Mas não poderá ir à casa de Bolsonaro.

E Victoria não fará parte da comitiva que virá dia 25. Poderia dizer aqui algumas verdades sobre o governo do sujeito que criou uma criptomoeda a serviço de uma quadrilha mundial e com a ajuda da irmã, Karina. A vice virou inimiga de Milei já em 2024, seis meses depois da posse.

Como vice da Argentina, ela é a versão Hamilton Mourão de Milei, o general esnobado por Bolsonaro e que se tornou seu desafeto dentro do governo. Como uma das líderes da extrema direita, Victoria é uma espécie de Michelle deles.

Já foi chamada de traidora pelo presidente e atacada nas redes sociais. Mas não é a mocinha na briga com o que chamam de libertário. É uma Michelle portenha em disputa por espaços no fascismo, criando lá o que Michelle tenta criar aqui: uma confusão que levaria à deterioração do mileirismo. Para que depois se aproprie do que sobrar.

Victoria é, além de vice, presidente do Senado, onde exerce seu poder para contrariar, gerindo o andamento de pautas da Casa Rosada, os interesses do seu superior. Apresenta-se como nacionalista, ao contrário do presidente entreguista. É militarista, com vínculos familiares com os oficiais da ditadura.

Também foi definida como ignorante por Milei e devolveu dizendo que ele é imaturo. Esse é o jeito consagrado na Argentina de defini-lo como infantil, quase crianção, por atitudes como a da semana passada na Bolsa de Valores, quando fez uma palestra e bateu boca com alguém que estava na plateia.

Alexandre de Moraes impediu que Milei visite Bolsonaro, para que se cumpram as medidas restritivas impostas pelo STF. Se viesse na comitiva, Victoria poderia ter esse encontro com Michelle, porque têm posturas e desafios semelhantes, com diferenças pontuais.

Michelle tenta ser a herdeira do espólio do marido e depende da implosão da estrutura política criada em torno dos enteados. Victoria, que nunca foi ‘libertária’, mas apenas um suporte militarista e feminino que ajudou na eleição do sujeito, quer se habilitar a ser alguma coisa maior na eleição de outubro do ano que vem.

Já foi mal avaliada em pesquisas como figura pública, chegando a estar ao lado de Mauricio Macri e Sergio Massa, mas alguns levantamentos recentes a colocam até à frente de Milei em aprovação popular. E muito à frente de Karina, a irmã e secretária do presidente, que aparece nessas amostras como a figura mais rejeitada da Argentina.

Victoria não encosta, no entanto, na popularidade da senadora Patricia Bullrich, da velha direita que se agregou a Milei, e não tem uma base raiz como Michelle, que conta aqui com o lastro bolsonarista evangélico. Num encontro com Michelle, poderiam tratar da ascensão feminina da extrema direita no Cone Sul.

Fariam avaliações da situação de cada uma delas diante das ameaças dos machos que mandam nos redutos que compartilham. E trocariam informações sobre o risco de estancamento, por parte dos inimigos, se continuarem forçando a barra nas internas do bolsonarismo e do mileirismo.

Discutiriam o paradoxo de serem mulheres que afrontam machos autoritários, mas desfrutam das estruturas machistas e fascistas que eles criaram e ainda mantêm. Victoria é católica ultraconservadora, que só frequenta missas em latim. É contra o aborto e pautas consideradas feministas ou identitárias.

É presidente do Senado sem ser senadora eleita. Michelle quer ser senadora por Brasília. Victoria sabe de todos os podres do governo e em algum momento poderá ajudar a denunciá-los. Michelle deve saber de detalhes de cada um dos grandes rolos da família do marido.

São figuras femininas fortalecidas pelo crescimento do fascismo na região. Mulheres afrontando homens que as revelaram como força política e que deles dependem para apresentar seus discursos e fazer conspirações. É esse o feminismo de extrema direita, para que o fascismo continue sendo o que é.

Por Moisés Mendes

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