Mais de cem sul-coreanas movem ação inédita contra o Exército americano, denunciando exploração sexual e abusos históricos durante décadas, buscando reparação, reconhecimento público e mudanças, enquanto debate sobre responsabilidade militar internacional e direitos das mulheres ganha força na Coreia do Sul
Durante décadas, uma sombra pairou sobre a Coreia do Sul, silenciosa e cruel.
Milhares de mulheres foram coagidas a trabalhar em bordéis que, à época, eram autorizados pelo Estado e destinados a atender soldados americanos mobilizados na península.
Mais de 100 dessas mulheres decidiram romper o silêncio e iniciar uma ação judicial inédita contra o próprio Exército dos Estados Unidos, exigindo justiça, reparação e um pedido formal de desculpas.
O caso marca um ponto histórico na luta pelos direitos das vítimas de violência sexual militar.
Segundo advogados que representam as mulheres, a ação legal é sem precedentes e denuncia diretamente o Exército dos EUA por abuso, coercitividade e violação de direitos humanos.
As demandantes afirmam que foram enganadas, forçadas e submetidas a agressões físicas e psicológicas, deixando traumas que persistem até hoje.
Histórico dos bordéis militares e responsabilidade do Estado sul-coreano
Entre as décadas de 1950 e 1980, historiadores e ativistas confirmam que dezenas de milhares de sul-coreanas foram obrigadas a trabalhar em bordéis administrados e autorizados pelo governo sul-coreano, servindo soldados americanos enviados para proteger o país contra a ameaça comunista da Coreia do Norte.
As mulheres eram frequentemente menores de idade e enganadas com promessas de empregos comuns, como garçonetes ou trabalhadoras domésticas, mas descobriam rapidamente a verdadeira função a que seriam submetidas.
Em 2022, a Suprema Corte da Coreia do Sul determinou que o governo tinha responsabilidade direta por ter estabelecido, administrado e operado esses prostíbulos ilegalmente.
Na ocasião, foi ordenado o pagamento de indenizações para quase 120 demandantes, reconhecendo a gravidade do sofrimento infligido a essas mulheres ao longo de décadas.
Nova ação judicial contra o Exército dos EUA
Em setembro de 2025, 117 vítimas apresentaram uma nova ação, desta vez acusando diretamente o Exército americano e exigindo um pedido formal de desculpas.
É a primeira vez que os Estados Unidos é colocado como alvo direto, além do reconhecimento do Estado sul-coreano.
O processo busca não apenas compensação financeira, mas também o reconhecimento público da responsabilidade militar internacional e o impacto duradouro na vida das vítimas.
Uma das demandantes, que hoje tem quase 60 anos, declarou à AFP:
“Ainda não consigo esquecer de ter sido espancada por soldados americanos.“
Ela contou que tinha apenas 17 anos quando foi enganada para aceitar o trabalho, acreditando que seria garçonete.
“Fui informada de que não poderia sair devido à minha ‘dívida’, e todas as noites éramos arrastadas até os soldados e abusadas sexualmente,” relatou.
Além disso, todas as mulheres eram submetidas semanalmente a exames para detecção de doenças venéreas, e qualquer anomalia resultava em confinamento e aplicação de injeções dolorosas de penicilina, segundo seu depoimento.
Impacto social e ativismo feminino
Ativistas pelos direitos das mulheres emitiram uma declaração conjunta, apontando que o Exército americano ignorou a Constituição sul-coreana, violou a liberdade pessoal das vítimas e causou danos irreparáveis a suas vidas.
Eles enfatizam que o caso não é apenas uma questão histórica, mas também um alerta para a necessidade de responsabilização de forças militares internacionais em relação a abusos cometidos em solo estrangeiro.
O caminho para justiça e reparação
A ação judicial atual reforça o debate sobre a reparação moral e material de vítimas de violência sexual militar.
Além de reivindicar indenizações, as mulheres buscam pedido formal de desculpas e reconhecimento da injustiça sofrida, algo que especialistas apontam como crucial para o processo de reconciliação histórica e social.
Organizações de defesa dos direitos humanos ressaltam que exigir responsabilidade do Exército americano representa um marco em accountability internacional, reforçando normas sobre proteção de civis e combate a abusos sexuais em zonas de conflito.
O caso das sul-coreanas ilustra ainda como políticas estatais e militares podem afetar gerações inteiras. As informações são da Sociedade Militar.
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