Segundo o site paranaense A Ponte, a conduta cada vez mais letal da PM-PR não se resume ao ocorrido na favela do Parolin, em Curitiba, onde a impressão de moradores é de que a PM do Paraná tem atuado nos últimos anos como um grupo de extermínio. Lá desde maio, a corporação matou cinco pessoas na comunidade: o mais recente dos casos, na terça-feira (7/10), foi de um jovem negro de 20 anos, Yago Gabriel Pires de Oliveira, baleado com mais de dez tiros e arrastado ensanguentado por um policial dentro de casa quando tentava sobreviver — a cena foi gravada.
No governo Ratinho Júnior (PSD), o estado bateu recorde de letalidade policial, com uma média anual de 370 mortes desde 2019, o que a Ponte identificou a partir de dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).
Antes do atual governador, hoje em seu segundo mandato no estado e cotado à corrida presidencial do ano que vem, a PM paranaense matava, em média, 189 pessoas por ano, desde 2010. Ou seja, a matança quase dobrou no governo de Ratinho — que carrega o apelido do pai, apresentador de televisão.

Secretário liderou tropa no Massacre de 29 de Abril
A letalidade policial no Paraná já tinha tendência de alta antes do governo atual, mas com ele houve uma disparada. Em 2022, em meio à pandemia de Covid-19, 14 unidades da federação tiveram queda dos índices: na contramão disso, o Paraná se juntou a uma minoria mais letal e teve 479 pessoas mortas por policiais, sendo 475 delas vitimadas por militares — um recorde do estado.
Após o pico de mortes em 2022, Ratinho promoveu uma nova troca no comando da Secretaria de Estado da Segurança Pública paranaense (SESP-PR), empossando o seu quarto secretário da pasta, o coronel e ex-comandante geral da PM-PR Hudson Leôncio Teixeira. Com ele, o patamar de mortes teve um breve recuo em 2023, mas se manteve, ainda assim, acima do padrão anterior ao governo atual.
Hudson é conhecido no Paraná pelo episódio lembrado como Massacre de 29 de Abril e também Batalha do Centro Cívico — ocasião em que, em 2015, servidores estaduais foram violentamente reprimidos pela Polícia Militar ao protestarem contra uma reforma previdenciária do então governador Beto Richa (PSDB). O atual secretário comandava o Batalhão de Operações Especiais (Bope), presente na repressão.
O coronel também já havia tido projeção nacional em dezembro de 2022, quando permitiu que bolsonaristas insatisfeitos com o resultado da eleição presidencial mantivessem um bloqueio parcial em uma rodovia no estado. Ele foi filmado na ocasião dizendo que estava “prevaricando” ao não encerrar de vez o ato de cunho golpista.

Coronel Hudson liderava Bope paranaense na ocasião do Massacre de 29 de abril, em Curitiba (Foto: Juka Madruga/APP Sindicato/Divulgação)
Negros como principais vítimas
No ano passado, a letalidade voltou a subir: foram 413 mortes, conforme apontou um relatório de janeiro do Ministério Público do Paraná (MP-PR) — o FBSP contabilizou apenas 400. O perfil comum das vítimas foi semelhante ao de outros estados: jovens negros, o que contrasta com o fato de o Paraná ter uma maioria da população branca (64,6%), conforme mostrou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) com o Censo 2022.
Ainda segundo o documento do MP-PR, ao menos 49,9% das vítimas mortas pelas polícias eram negras, de pele parda (46,5%) ou preta (3,4%), A maior parte delas tinha idades entre 12 e 34 anos (290). Em 99% dos casos (409), foram mortos homens.
O MP-PR divulgava esse tipo de relatório pormenorizado a cada semestre, mas mudou para uma periodicidade anual durante a gestão Ratinho. Em 2025, é possível ter acesso apenas a dados divulgados pela própria Sesp-PR em um painel online, sem detalhamento do perfil das vítimas. Até aqui, houve mais 290 assassinatos cometidos por policiais no Paraná — o que o governo local chama de “mortes por intervenção legal de agentes do Estado (Milae)”.
Também neste ano, o Paraná teve 764 homicídios dolosos. Ou seja, se somados todos esses casos, as polícias foram responsáveis por mais de uma em cada quatro dessas mortes violentas (28%).
Essa comparação é uma das formas que pesquisadores da área da segurança pública utilizam para dimensionar a violência policial. Estudos do sociólogo Ignacio Cano consideram haver indício de uso abusivo da força quando as mortes cometidas pelas polícias passam de 10% dessa soma com os homicídios. Para o pesquisador Paul Chevigny, índices maiores de 7% seriam considerados abusivos.
A morte mais recente protagonizada pela PM-PR foi a de Yago, o jovem morto na favela do Parolin. Os moradores do local dizem ter se tratado de uma execução: ele foi acordado por PMs antes das 6h da manhã, quando dormia em um sofá junto do irmão mais novo, de nove anos, levado para um galpão na área externa do imóvel em que vivia com familiares e depois baleado. A vítima ainda foi mantida sem socorro por quase uma hora, até ser dada como morta, conforme a Ponte apurou.
Polícias consomem fatia cada vez maior do orçamento
Na mesma comunidade, foram mortos neste ano Ivan Ramos Mathias Filho, de 23 anos, em 13 de agosto, e, em uma mesma ocorrência em 8 de maio, os jovens Luis Fernando Rodrigues de Moura, 17, Marcelo Henrique Lima Andrade, 19, e Rafael Bueno, 27. Familiares e amigos fizeram protestos no local desde então, mesmo sob medo de retaliação da Polícia Militar.
Os moradores tiveram apoio da Rede Nenhuma Vida a Menos, surgida em Curitiba em 2019, ao integrar ativistas e movimentos sociais, para cobrar justiça e memória em casos de violência de Estado. “Quando sabemos de algum caso, procuramos a família para ajudá-la a ter apoio jurídico. Se as pessoas querem fazer uma manifestação, nós ajudamos a organizar. Também fazemos um acompanhamento psicológico, de acolhimento mesmo”, diz, à Ponte, Patrícia Herman, articuladora do coletivo.
A Rede também tenta manter diálogo com órgãos de Estado responsáveis por controlar a PM-PR, o que tem sido cada vez mais difícil. “Recentemente, vários cargos foram trocados no Ministério Público. Uma procuradoria joga para a outra. Houve um desmonte mesmo no combate à letalidade policial.”
Isso se soma, segundo Patrícia, a outras evidências que lançam ao governador a responsabilidade sobre o aumento da letalidade: “Ele aumentou muito a política de investimento na Polícia Militar. No mês passado, anunciou a maior de compra de fuzis da história do Paraná [3.711 novos equipamentos]. Comprou helicópteros, carros blindados, equipamentos de guerra que a gente nem imagina onde pode ser usado.”
Em 2018, ano anterior à gestão Ratinho, a Sesp-PR consumiu 10,5% dos recursos empenhados pelo governo estadual (o equivalente a R$ 3,6 bilhões). Já no ano passado, consumiu R$ 6,4 bilhões, o que representou 13,7% do orçamento do Executivo paranaense — a título de comparação, as secretarias de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior e de Infraestrutura e Logística tiveram R$ 3,7 bilhões e R$ 3,4 bilhões, respectivamente.

MP-PR tem permitido menor diálogo com movimentos sociais e familiares de vítimas, segundo coletivo (Foto: Rede Nenhuma Vida a Menos/Divulgação)
Governador associou piora da letalidade a combate de crimes
Patrícia afirma ainda que a nomeação de um militar à chefia da Sesp-PR e a retórica do governador também endossaram a disparada de mortes. “Ele se manifesta muitas vezes a favor daquela coisa de ‘bandido bom é bandido morto’, exalta o trabalho da Polícia Militar.”
Um exemplo disso ocorreu em maio, quando o governador participou de um evento de entrega de tasers à PM-PR, adquiridos ao custo aproximado de R$ 26 milhões (ou US$ 5 millhões, como anunciou o governo). Naquela altura, a gestão dele também vinha sendo pressionada por mortes cometidas pela PM-PR em Londrina, no noroeste do estado, que famílias denunciaram terem sido execuções.
“Os números comprovam o que está acontecendo: hoje o Paraná é um dos estados mais seguros e uma das regiões mais seguras da América do Sul, fruto desse trabalho estratégico que nós temos. Claro que, muitas vezes, as críticas acontecem, de quem defende bandido. E nós defendemos o cidadão de bem. As nossas polícias estão à disposição e preparadas para isso”, disse Ratinho à época.
“Cada vez mais a bandidagem vai espernear, porque estamos asfixiando ela cada vez mais, desde o pequeno delito até as grandes quadrilhas. Estamos batendo recordes da Polícia Civil e da Polícia Militar em operações. O Paraná não é rota do crime organizado, porque o crime tem medo.”
A Ponte já mostrou, no entanto, que uma polícia mais combativa contra a criminalidade não precisa, necessariamente, ser mais letal. Em 2024, a maioria dos estados que teve queda do número de roubos e maior volume de apreensão de drogas, por exemplo, não precisou matar mais para isso.
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