Campeonato de cortes para Tarcísio paga R$ 50 mil para vencedor

Campeonato de cortes para Tarcísio paga R$ 50 mil para vencedor

Organizadores citam “solicitação imediata da equipe de Tarcísio” para não associá-lo “à imagem de Bolsonaro” no “campeonato de cortes”, que já tem mais de 1 mil vídeos divulgados no TikTok

Enquanto Tarcísio Gomes de Freitas (Republicanos) viabiliza  a cooptação do apoio do Centrão com Guilherme Derrite (PP-SP) na relatoria do PL Antifacção,  aliados do governador paulista estão promovendo, entre os dias 3 de novembro e 3 de dezembro, nas redes sociais um “campeonato de cortes” que oferece um prêmio de R$ 50 mil para quem conseguir obter maior engajamento com a edição de vídeo de entrevistas e declarações recentes.

A estratégia, que antecipa a disputa presidencial contra Lula em 2026, replica o modus operandi que levou o coach Pablo Marçal (PRTB) a ser condenado e tornado inelegível pela Justiça Eleitoral por abuso de poder econômico e uso indevido dos meios de comunicação nas eleições à prefeitura de São Paulo em 2024.

A Revista Fórum acompanhou diversas trocas de mensagens na promoção do campeonato nos últimos dias. Uma delas, que circulou no WhatsApp e foi parar na rede X, diz respeito a uma suposta solicitação que teria partido diretamente da “equipe de Tarcísio” para não associá-lo à imagem do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), de quem foi ministro da Integração.

A diretriz, enviada em tom de urgência na última sexta-feira (7), expõe um suposto controle editorial e financeiro sobre os produtores de conteúdo, com ameaças de punição para quem descumprir a nova linha.

“A partir das 15h da tarde está proibido associar o Tarcísio à imagem do Bolsonaro”, diz a mensagem, que ressalta ainda que “eles querem que foque em segurança pública e principalmente no flow de ontem”, em relação à participação de Tarcísio e do ex-secretário de Segurança Pública Guilherme Derrite, exonerado para assumir a relatoria do PL Antifacção, no Flow Podcast.

A mensagem, enviada aos participantes às 13h44 daquele dia, também detalha a punição para quem desobedecer, confirmando um suposto sistema de controle financeiro: “QUEM POSTAR DEPOIS DAS 15H VAI PERDER AS VIEWS DO DIÁRIO E MENSAL. E se tiver recorrência até direito a BAN!!!”.

Campeonato de cortes para Tarcísio paga R$ 50 mil para vencedor

Fórum entrou em contato com a assessoria de imprensa do Governo de São Paulo na manhã desta terça-feira (11) para posicionamento do governador. A resposta veio em tom de ameaça.

“A gestão estadual não tem conhecimento, tampouco envolvimento ou anuência dos fatos mencionados e, portanto, o governo e o governador do Estado desconhecem em absoluto a iniciativa citada pela reportagem. Qualquer tentativa de vincular os prints relatados ao governador é absolutamente falsa e irresponsável. Cabe ressaltar que a disseminação de informações falsas não será tolerada e, em caso de ilação indevida, todas as medidas legais cabíveis serão tomadas”, diz a íntegra da nota, enviada pela assessoria do Palácio dos Bandeirantes.

A máquina de vídeos virais por R$ 50 milA ordem direta controla uma “Competição de Cortes” , programada para ocorrer entre 3 de novembro e 3 de dezembro. Um dashboard (painel de controle) vazado de uma plataforma privada, exposto pelo mesmo empresário de tecnologia no X, revela a dimensão da operação: um prêmio total de R$ 50 mil que teria gerado 6 milhões de visualizações em um único dia.

Campeonato de cortes para Tarcísio paga R$ 50 mil para vencedor

O objetivo, admitido pelo próprio dono da plataforma de SaaS que expôs o caso, é “farmar” (produzir em massa) conteúdo viral para o governador , visando explicitamente as eleições de 2026.

Impacto comprovado por dadosA eficácia da campanha é comprovada por dados das próprias redes sociais. A hashtag #tarcisiocortes, principal marca da campanha, não existia em nenhuma plataforma antes do início de novembro. Ela foi criada exatamente na data de início da competição revelada no dashboard – 3 de novembro -, provando a ligação direta entre o esquema e a operação.

Nos últimos dias, houve uma explosão de vídeos com a hashtag da campanha. No TikTok haviam 600 vídeos na sexta-feira (7), durante o fim de semana chegou a 850 cortes e na manhã desta terça-feira (11) já haviam mais 1 mil publicações na rede. O engajamento na rede já supera os 5 milhões de impressões.

No YouTube, a mesma tag já acumulava 710 vídeos curtos (shorts) distribuídos por 78 canais, somando mais de 2,7 milhões de visualizações desde o início de novembro. Nesta terça já conta com 808 vídeos em  79 canais.

Notavelmente, a análise de dados do confirma o timing da operação: o maior pico de atividade no Youtube ocorreu na última sexta-feira (07/11), quando 91 vídeos publicados sob as tags da campanha geraram sozinhos 719.362 visualizações. Esta é a mesma data em que a ordem “anti-Bolsonaro” (13h44) foi emitida no grupo e, posteriormente, vazada (17h26).

O precedente Marçal e o risco de inelegibilidadeA questão central, agora duplamente comprovada pelos vazamentos, é a origem dos R$ 50 mil. A legislação eleitoral proíbe terminantemente o financiamento de propaganda por pessoas jurídicas ou o uso de recursos não declarados, caracterizados como Caixa 2.

O caso é um espelho do precedente de Pablo Marçal. No julgamento do coach, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) foi claro ao determinar que a remuneração de terceiros (seja por sorteios ou prêmios) para “cooptar colaboradores” não é engajamento orgânico, mas sim uma tática ilícita que utiliza recursos financeiros para simular um apoio popular inexistente, desequilibrando a disputa.

Cabe ao Ministério Público Eleitoral (MPE) e às autoridades policiais apurarem a rastreabilidade desse dinheiro. Se comprovada a ligação direta entre o entorno político do governador e o financiamento desta “competição”, o ato pode ser enquadrado como abuso de poder econômico, um ilícito grave com potencial para levar à inelegibilidade por oito anos.

Empresário que expôs campeonato de cortes de Tarcísio foi preso por elo com facções do narcotráfico

Antonio Carlos Guimarães Filho, que vazou informações sobre campeonato de cortes para Tarcísio de Freitas nas redes, foi preso em 2024 em operação que investigou lavagem de R$ 126 milhões para o narcotráfico, incluindo o Comando Vermelho.

A peça-chave que expôs o suposto “campeonato de cortes” focado no governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) é uma figura complexa. Antonio Carlos Guimarães Filho, conhecido pelo perfil “@acgfbr” na rede X (antigo Twitter) e promotor de uma plataforma de inteligência artificial para produção de virais não é um novato no noticiário policial.

 

Veja também

A hora do doido: Irã contratou psicólogos e psiquiatras para saber como lidar com Trump

A hora do doido: Irã contratou psicólogos e psiquiatras para saber como lidar com Trump

O governo do Irã contratou psicólogos e psiquiatras experientes para avaliar a condição mental do …