A diretriz, enviada em tom de urgência na última sexta-feira (7), expõe um suposto controle editorial e financeiro sobre os produtores de conteúdo, com ameaças de punição para quem descumprir a nova linha.
“A partir das 15h da tarde está proibido associar o Tarcísio à imagem do Bolsonaro”, diz a mensagem, que ressalta ainda que “eles querem que foque em segurança pública e principalmente no flow de ontem”, em relação à participação de Tarcísio e do ex-secretário de Segurança Pública Guilherme Derrite, exonerado para assumir a relatoria do PL Antifacção, no Flow Podcast.
A mensagem, enviada aos participantes às 13h44 daquele dia, também detalha a punição para quem desobedecer, confirmando um suposto sistema de controle financeiro: “QUEM POSTAR DEPOIS DAS 15H VAI PERDER AS VIEWS DO DIÁRIO E MENSAL. E se tiver recorrência até direito a BAN!!!”.

A Fórum entrou em contato com a assessoria de imprensa do Governo de São Paulo na manhã desta terça-feira (11) para posicionamento do governador. A resposta veio em tom de ameaça.
“A gestão estadual não tem conhecimento, tampouco envolvimento ou anuência dos fatos mencionados e, portanto, o governo e o governador do Estado desconhecem em absoluto a iniciativa citada pela reportagem. Qualquer tentativa de vincular os prints relatados ao governador é absolutamente falsa e irresponsável. Cabe ressaltar que a disseminação de informações falsas não será tolerada e, em caso de ilação indevida, todas as medidas legais cabíveis serão tomadas”, diz a íntegra da nota, enviada pela assessoria do Palácio dos Bandeirantes.
A máquina de vídeos virais por R$ 50 milA ordem direta controla uma “Competição de Cortes” , programada para ocorrer entre 3 de novembro e 3 de dezembro. Um dashboard (painel de controle) vazado de uma plataforma privada, exposto pelo mesmo empresário de tecnologia no X, revela a dimensão da operação: um prêmio total de R$ 50 mil que teria gerado 6 milhões de visualizações em um único dia.

O objetivo, admitido pelo próprio dono da plataforma de SaaS que expôs o caso, é “farmar” (produzir em massa) conteúdo viral para o governador , visando explicitamente as eleições de 2026.
Impacto comprovado por dadosA eficácia da campanha é comprovada por dados das próprias redes sociais. A hashtag #tarcisiocortes, principal marca da campanha, não existia em nenhuma plataforma antes do início de novembro. Ela foi criada exatamente na data de início da competição revelada no dashboard – 3 de novembro -, provando a ligação direta entre o esquema e a operação.
Nos últimos dias, houve uma explosão de vídeos com a hashtag da campanha. No TikTok haviam 600 vídeos na sexta-feira (7), durante o fim de semana chegou a 850 cortes e na manhã desta terça-feira (11) já haviam mais 1 mil publicações na rede. O engajamento na rede já supera os 5 milhões de impressões.
No YouTube, a mesma tag já acumulava 710 vídeos curtos (shorts) distribuídos por 78 canais, somando mais de 2,7 milhões de visualizações desde o início de novembro. Nesta terça já conta com 808 vídeos em 79 canais.
Notavelmente, a análise de dados do confirma o timing da operação: o maior pico de atividade no Youtube ocorreu na última sexta-feira (07/11), quando 91 vídeos publicados sob as tags da campanha geraram sozinhos 719.362 visualizações. Esta é a mesma data em que a ordem “anti-Bolsonaro” (13h44) foi emitida no grupo e, posteriormente, vazada (17h26).
O precedente Marçal e o risco de inelegibilidadeA questão central, agora duplamente comprovada pelos vazamentos, é a origem dos R$ 50 mil. A legislação eleitoral proíbe terminantemente o financiamento de propaganda por pessoas jurídicas ou o uso de recursos não declarados, caracterizados como Caixa 2.
O caso é um espelho do precedente de Pablo Marçal. No julgamento do coach, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) foi claro ao determinar que a remuneração de terceiros (seja por sorteios ou prêmios) para “cooptar colaboradores” não é engajamento orgânico, mas sim uma tática ilícita que utiliza recursos financeiros para simular um apoio popular inexistente, desequilibrando a disputa.
Cabe ao Ministério Público Eleitoral (MPE) e às autoridades policiais apurarem a rastreabilidade desse dinheiro. Se comprovada a ligação direta entre o entorno político do governador e o financiamento desta “competição”, o ato pode ser enquadrado como abuso de poder econômico, um ilícito grave com potencial para levar à inelegibilidade por oito anos.
Empresário que expôs campeonato de cortes de Tarcísio foi preso por elo com facções do narcotráfico