Outubro sangrento: mês é marcado por chacinas policiais no Paraná e Rio de Janeiro

Outubro sangrento: mês é marcado por chacinas policiais no Paraná e Rio de Janeiro

Em 2024 no Brasil, 6.243 pessoas foram mortas pelas polícias

Em outubro de 2025, operação policial nas cidades de Laranjeiras do Sul e Cascavel resultou em 43 prisões e 7 mortes. Famílias denunciam execuções sumárias e ausência de devido processo legal. O caso se enquadra no aumento da letalidade policial no estado, que registrou 413 mortes em 2024.

No dia 16 de outubro de 2025, as Polícias Civil, Militar e Penal deflagraram uma operação de chacina, alegando combate a organização criminosa suspeita de tráfico de drogas e roubos de cargas. A ação resultou em 43 prisões e sete mortes, todas apresentadas pela polícia como resultado de “confrontos”. No entanto, relatos de familiares das vítimas contradizem completamente essa narrativa, denunciando execuções sumárias realizadas contra pessoas que se encontravam desarmadas em suas residências.

Todas as sete mortes ocorreram pela manhã, durante invasões de residências quando as vítimas dormiam ou estavam acordando. Nenhuma delas resultou em “confronto”, segundo os relatos dos próprios policiais. Familiares que presenciaram os eventos apresentam, contudo, uma versão diametralmente oposta: casas invadidas sem apresentação de mandados, disparos contra pessoas desarmadas e eliminação de pessoas sob a acusação de serem suspeitos de criminosos.

A operação foi realizada simultaneamente em nove municípios: Laranjeiras do Sul, Guarapuava, Cascavel, São José dos Pinhais, Cantagalo, Nova Laranjeiras, Porto Barreiro, Rio Bonito do Iguaçu, Laranjal (todos no Paraná) e Estância Velha (Rio Grande do Sul). Foram cumpridos 115 mandados judiciais, sendo 43 de prisão e 72 de busca e apreensão. A ação contou com apoio aéreo de dois helicópteros e apreensão de aproximadamente 25 quilos de drogas, 14 armas de fogo, dez veículos e R$ 15,3 mil em espécie.

Segundo a Polícia Civil, as investigações iniciaram em fevereiro de 2025, após homicídio praticado em Laranjeiras do Sul. O delegado Denival Barboza Liandro afirmou que o grupo havia estabelecido monopólio na comercialização de entorpecentes. Além do tráfico, o grupo estava envolvido em roubos de cargas na rodovia BR-277. Contudo, essa justificativa oficial contrasta radicalmente com o modo operacional das execuções: investimento em helicópteros para bases de tiro e operações coordenadas não são instrumentos de justiça, mas de eliminação.

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Familiares e amigos denunciam execuções

Os policiais alegaram que os sete mortos – quatro em Cascavel e três em Laranjeiras do Sul – reagiram à abordagem e dispararam contra as equipes. Contudo, relatos de familiares contradizem frontalmente essa versão.

Em Cascavel, o caso de Luís Fernando Ferreira Mergulhão, 26 anos, tornou-se emblemático das denúncias de execução. Segundo relato da mãe, de 58 anos, e do irmão, de 33 anos, Luís Fernando tomava banho por volta das 5h40 da manhã, preparando-se para o trabalho na Ambev, quando a energia elétrica do apartamento foi cortada. Os policiais arrombaram a porta sem apresentar mandado judicial. A mãe teve o braço ferido ao ser empurrada para fora do imóvel enquanto tentava proteger o neto de três anos. Luís Fernando foi retirado do banheiro, levado nu ao quarto e, ao virar de costas para se vestir, sofreu um disparo na nuca.

O irmão do jovem foi algemado e mantido debaixo da escada. A família acredita que ele também seria executado caso a mãe não tivesse interferido. Como a energia foi cortada, as câmeras de segurança do prédio não registraram a ação. Após os disparos, os parentes foram impedidos de entrar no apartamento. A mãe afirmou ter ouvido os policiais rindo e se cumprimentando pela execução do filho. O Siate chegou apenas para confirmação do óbito.

A família afirma que Luís Fernando nunca teve arma e que a casa havia sido limpa um dia antes, apontando que a polícia plantou as cápsulas. Segundo relato dos parentes, o jovem havia começado a trabalhar alguns meses antes na Ambev e, segundo a empresa, foi reconhecido como destaque do mês. Sonhava em tirar a carteira de motorista e ajudar a mãe. A família humilde pagou o enterro com ajuda de vizinhos e clama por justiça. Até o momento da denúncia, não foi apresentado boletim de ocorrência nem mandado judicial que justificasse a entrada dos policiais no local.

No mesmo bloco do Residencial São Fernando, Maicon da Silva Castanho, 32 anos, foi morto em circunstâncias semelhantes. A polícia invadiu a residência e, segundo familiares, a esposa e filha foram retiradas do local antes da execução. A Polícia Militar alegou que uma pistola e um revólver foram apreendidos durante as ações no condomínio, sem informar a quem pertenciam as armas em cada caso específico.

Na Rua Ásia, bairro Periolo, Max Gabriel de Lima, 29 anos, e Lucas de Souza, 25 anos, foram mortos por volta das 6 horas da manhã. Segundo relato de familiares, os policiais invadiram a residência, quebrando a porta, e atiraram nos dois. Familiares de Max Gabriel fizeram vídeo mostrando que os jovens estavam dormindo quando a polícia invadiu e destruiu a casa. Além disso, familiares informaram que apenas um dos jovens seria alvo dos mandados judiciais.

Horas após as mortes, amigos e familiares organizaram protestos em frente à residência, bloqueando a via com pneus e incendiando outros materiais. Equipes da Guarda Municipal e dos Bombeiros estiveram no local para apagar as chamas e retirar os objetos queimados, possibilitando a desobstrução da rua.

Cinicamente, o secretário de Segurança Pública do Paraná, coronel Hudson Leôncio Teixeira, defendeu a operação afirmando que as ações foram planejadas com intenção de reduzir riscos à população. Sobre as mortes, explicou que “eles confrontam, a gente vai com o intuito de realizar a prisão, mas infelizmente ocorre esse tipo de reação que obriga os nossos policiais a fazer o uso dos equipamentos que têm à disposição”. De fato, nesse aspecto o coronel tem razão: se a polícia invade e executa pessoas desarmadas, não há bala perdida, mas fogo direcionado.

Silêncio sobre as mortes em Laranjeiras do Sul

No caso de Laranjeiras do Sul, três pessoas foram mortas em confrontos com a Polícia Militar em locais distintos: bairro São Francisco, bairro Presidente Vargas e próximo ao trevo da PR-158. Segundo a polícia, os três confrontos ocorreram durante cumprimento de mandados de prisão e busca e apreensão, com os indivíduos reagindo à abordagem. As mortes ocorreram bem cedo, pela manhã.

Os nomes das três vítimas não foram divulgados oficialmente pelas autoridades. Essa ausência de informações públicas sobre a identidade e circunstâncias das mortes contrasta com a transparência relativa observada em Cascavel.

Violência policial no Paraná e a impunidade do velho Estado

No Paraná, resolução da Secretaria de Estado de Segurança Pública (Resolução nº 575/2025, de 12 de outubro) autorizou a Polícia Militar a fazer investigação das ações da própria corporação, estabelecendo que as ações policiais serão consideradas legítimas até que se prove o contrário e prevendo que não será lavrado auto de prisão em flagrante contra os agentes envolvidos. Desse modo, cada assassinato praticados por estes gendarmes fica impune.

Terrorismo de Estado e a farsa eleitoral

Durante o mesmo mês de outubro o Rio de Janeiro foi, no dia 28, palco da maior chacina da história recente do Brasil, com mais de 130 pessoas brutalmente assassinadas em operação policial, sob a mesma falsa justificativa de combate ao tráfico de drogas.

As operações policiais, não visam desarticular estruturas criminosas, mas sim acumular a maior quantidade possível de mortes e usar suas demagogias de “combate ao narcoterrorismo” para angariar apoio ao projeto fascista da extrema-direita, enquanto desgasta o governo na opinião pública. Não a toa, enquanto os moradores da Penha e do Alemão ainda relatavam ouvir disparos na mata, o governador Claudio Castro não poupou tempo para provocar o governo federal, sugerindo que o estado estava isolado no “combate à criminalidade”.

Outubro sangrento: mês é marcado por chacinas policiais no Paraná e Rio de Janeiro
Editorial – Cláudio Castro assassino e terrorista – A Nova Democracia
Não custa lembrar, por exemplo, que o “maior fornecedor” de contrabandos para o CV, segundo a própria polícia, é o vereador carioca “TH Joias”, cujas relações com o atual governador são conhecidíssimas – presume-se que o dito “narcoterrorismo” é mesmo o Estado, então, que diz combatê-lo? Curioso, não?
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A experiência do Rio é categórica: a chacina do dia 28 de outubro ocorreu após o índice de aprovação eleitoral de Claudio Castro amargar em 43%, segundo uma pesquisa da Quaest de agosto. Após a propaganda em defesa da chacina, endossada pelo monopólio de imprensa, o governador genocida teve seu apoio eleitoral avançado para 53%, segundo uma nova pesquisa do mesmo instituto.

Tráfico de drogas e velho Estado: Uma relação íntima

A operação genocida no Rio de Janeiro ocorreu dez dias após uma investigação da Polícia Federal, referente ao caso de Marielle Franco, concluir que pelo menos metade dos deputados estaduais do Rio de Janeiro estão diretamente envolvidos com organizações paramilitares.

O próprio governador Cláudio Castro possui conhecida amizada com o ex-deputado Thiego Raimundo dos Santos, o TH Jóias, conhecido por manter íntimas relações com lideranças do tráfico de drogas e apontado pela própria polícia como o maior fornecedor de drogas e armas para o CV. O caso demonstra que a verdadeira estrutura da criminalidade se encontra protegida pelo velho Estado brasileiro, e não nos becos das periferias brasileiras.

O estado do Rio, aliás, não possui nenhuma fronteira com outros países, com as drogas chegando nas favelas após transitar quilômetros nas estradas controladas pelo Exército Brasileiro e pela Polícia Rodoviária Federal, pelos portos controlados pela Marinha Brasileira, ou pelos aeroportos, controlados pela Força Aérea.

Aumento das chacinas policiais

O Paraná registrou 433 confrontos envolvendo policiais e guardas municipais em 2024, segundo dados do Ministério Público do Paraná. Destes confrontos, 413 pessoas morreram e 109 ficaram feridas. Trata-se do segundo maior número desde 2019, ficando atrás apenas de 2022, que registrou 488 confrontos. A Polícia Militar está envolvida em 424 casos (37% do total).

Segundo o 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em julho de 2025, o Paraná teve 400 mortes por intervenção policial em 2024, aumento de 17% em relação ao ano anterior. Na proporção com a população, isso coloca o estado atrás apenas do Rio de Janeiro nas regiões Sul e Sudeste.

Dados preliminares do Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública (Gaesp) do Ministério Público do Paraná mostram que as forças de segurança do estado mataram 7% a mais no primeiro semestre de 2025 em comparação ao mesmo período de 2024. Foram 217 mortes em 2025, contra 202 no ano anterior.

Das 10 cidades brasileiras cujo número de mortes por ação policial ultrapassa metade do total de mortes violentas, duas estão no Paraná: Cambé e Arapongas, na Região Metropolitana de Londrina. Cascavel registrou 11 mortes em confrontos em 2024 e, no primeiro trimestre de 2025, teve redução de 53% (de 32 para 15 mortes), mas os casos de outubro demonstram a continuidade da violência letal.

De acordo com dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, desde 2019, quando teve posse o governador Ratinho Jr. (PSD), o Paraná registra média anual de cerca de 370 mortes decorrentes de intervenções policiais, quase o dobro da média verificada antes do início de sua gestão.

No Brasil, em 2024, 6.243 pessoas foram mortas pelas polícias,

representando 14,1% do total geral de mortes violentas intencionais do país no período, o maior índice da última década. Considerando o período de 2014 a 2024, esse número chega a 60.394 vítimas.

Em todo o País, 99,2% das vítimas de mortes decorrentes de intervenção policial são do gênero masculino, com a chance de um homem negro ser morto por forças públicas sendo 3,5 vezes maior do que um homem branco. As informações são de A Nova Democracia

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