Do Voiter ao Banco Pleno: a engenharia do “banco bom”
Relatórios de administração e comunicados ao mercado mostram que, em 2023, o Banco Master celebrou contrato para adquirir o controle do antigo Banco Voiter por meio da NK 031. A operação foi aprovada pelo Banco Central em 2024, integrando o Voiter ao conglomerado Master. Em 2025, já em meio ao agravamento da crise, o órgão regulador autorizou a saída do Voiter do grupo, que passou a adotar de vez a marca Banco Pleno.
A reconfiguração foi apresentada por executivos e analistas como uma forma de separar “ativos de melhor qualidade” das operações sob maior risco. Em textos promocionais e entrevistas, o Pleno passou a ser descrito como um banco voltado a crédito estruturado, investimentos e carteiras com garantias mais robustas, enquanto o Master permanecia com o grosso dos ativos associados às operações hoje investigadas pela PF e pelo Ministério Público.
Na prática, a operação teve o efeito de concentrar no Banco Pleno a parte mais atraente da carteira – incluindo segmentos ligados ao consignado – e deixar no Master a parte problemática que, posteriormente, seria alvo da Compliance Zero e da liquidação extrajudicial.
Bento no comando do herdeiro
É nesse cenário que o nome de Ronaldo Vieira Bento aparece na estrutura do Pleno. Registros da Junta Comercial e da Receita Federal consultados pela reportagem apontam que, em 2025, ele é indicado como diretor da NK 031 e do Banco Pleno.
No mesmo período, documentos já o traziam como administrador da Mettacard Administradora de Cartões, empresa de cartão de benefício consignado cuja marca é licenciada ao próprio Banco Master.
Ou seja, o ex-ministro que, no governo Bolsonaro, participou da formulação e implantação das regras que abriram o consignado para beneficiários do Auxílio Brasil passa, na iniciativa privada, a ocupar posições de comando tanto na empresa de cartões que opera consignado com servidores quanto no banco que herda a parte “boa” do conglomerado Master.
O vínculo entre essas estruturas vai além do papel. A política de privacidade da Mettacard registra que a marca é licenciada ao Banco Master S/A; na loja Google Play, o aplicativo METTAcard aparece tendo o Banco Master como desenvolvedor, com endereço de escritório em Botafogo, no Rio de Janeiro, e e-mail de suporte no domínio do banco. A mesma base de tecnologia é usada para gerenciar operações de crédito atreladas a convênios com prefeituras e entes públicos.
Consignado e servidores: a nova frente de negócios
Enquanto o Banco Pleno se vende ao mercado como instituição “enxuta” e focada em operações estruturadas, documentos obtidos pela Fórum mostram que parte desses negócios passa por carteiras de crédito consignado alimentadas por convênios com entes públicos. Em propostas enviadas a prefeituras, como a de São Paulo, a Mettacard oferece cartões de benefício consignado cuja liquidação financeira é feita em contas mantidas em bancos do grupo, replicando uma lógica semelhante à vista no Auxílio Brasil: o desconto em folha garante a remuneração do produto financeiro.
Com Bento ocupando simultaneamente a administração da Mettacard e a diretoria do Banco Pleno, especialistas em integridade pública ouvidos pela reportagem enxergam um potencial conflito de interesses: a mesma figura que ajudou a construir o ambiente regulatório do consignado no governo passa a comandar empresas que dependem desse mercado, inclusive em uma instituição apontada como herdeira de ativos do Master.
Entre a ruptura formal e a continuidade de práticas
Com a liquidação extrajudicial do Master, clientes foram orientados a buscar ressarcimento junto ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC), enquanto o Banco Pleno tenta se afirmar como entidade distinta, com capital e governança próprios. Em entrevistas e notas, executivos do Pleno insistem que o banco não é sucessor das irregularidades atribuídas ao Master e que seus resultados decorrem de uma gestão de risco “prudente”.
Do ponto de vista jurídico, o Banco Central tratou a saída do Voiter/Pleno do conglomerado Master como uma reorganização societária regular. Do ponto de vista político e econômico, porém, a presença de um ex-ministro diretamente envolvido com a expansão do consignado, e ligado ao partido Republicanos, no comando do novo banco reforça a percepção de que há uma continuidade de pessoas, métodos e interesses entre o “banco ruim” que afundou e o “banco bom” que tenta sobreviver.
A Fórum enviou perguntas ao Banco Pleno e a Ronaldo Vieira Bento sobre a participação do ex-ministro na gestão do banco, o histórico de relações com o Master e as operações de consignado vinculadas a servidores. Até o fechamento deste texto, não houve resposta.