Os Estados Unidos querem a América inteira (do Norte, Central e do Sul), para os estadunidenses autodenominados de “americanos”
O bombardeio dos Estados Unidos à Venezuela e a captura de seu presidente, Nicolás Maduro, se inscrevem em uma longa tradição de intervenções norte-americanas na América do Sul, na América Central e no Caribe ao longo dos últimos dois séculos. Ao mesmo tempo, representam um marco inédito: trata-se do primeiro ataque militar direto dos EUA contra um país sul-americano.
Em entrevista coletiva após a captura de Maduro, Donald Trump afirmou que a “dominância americana no hemisfério ocidental jamais será questionada novamente”.
Desde meados do século XIX, os Estados Unidos atuam sobre países vizinhos por meio de pressão econômica e também de ações militares, com um histórico que inclui invasões, ocupações e operações encobertas. O episódio que mais se aproxima do atual é a captura do ditador panamenho Manuel Noriega, em 1989.
Ações secretas dos EUA contribuíram para a derrubada de governos eleitos e para a instalação de ditaduras militares em países como Brasil, Chile e Argentina. Ainda assim, intervenções militares abertas costumavam se restringir a nações mais próximas, na América Central e no Caribe.
Para Maurício Santoro, professor de relações internacionais da UERJ, o ataque à Venezuela “sinaliza uma mudança profunda na política externa e de defesa”, alinhada à nova estratégia de segurança nacional divulgada recentemente pelo governo Trump. O documento defende a ampliação da presença militar dos EUA na região, apresentada como um “corolário Trump” da Doutrina Monroe — formulada em 1823 sob o lema “América para os americanos” e usada historicamente para justificar golpes apoiados por Washington.
Embora a ação de sábado dialogue com práticas do passado, ela causa impacto por não haver precedentes desde 1989, segundo Alan McPherson, professor da Temple University e autor de A Short History of US Interventions in Latin America and the Caribbean. Para ele, a ideia de que a era do imperialismo explícito teria ficado no século XX não se confirmou.
Piratas ou/e gângsteres
Praticamente todos os países da região já sofreram algum tipo de intervenção norte-americana, aberta ou encoberta. Alguns exemplos ajudam a dimensionar esse histórico:México
A anexação do Texas, então território mexicano, provocou disputas que culminaram na invasão dos EUA em 1847. Tropas americanas ocuparam a Cidade do México, e o conflito terminou em 1848 com um tratado que obrigou o país a ceder 55% de seu território, incluindo áreas que hoje correspondem a Califórnia, Nevada, Utah e partes de outros cinco estados.
Cuba
Em 1898, os EUA apoiaram a luta cubana contra a Espanha. Após a vitória, ocuparam a ilha até 1902 e garantiram controle permanente sobre a base de Guantánamo. Novas ocupações ocorreram entre 1906 e 1909 e entre 1917 e 1922. Os EUA mantiveram ocupação militar em Cuba para proteger plantações de açúcar de propriedade dos estadunidenses. Também apoiaram o ditador cubano Fulgêncio Batista pois suas políticas beneficiavam os interesses comerciais americanos.
Após a Revolução de 1959, a CIA apoiou a fracassada invasão da Baía dos Porcos, em 1961.
Panamá
No Panamá foi fundada, em 1946, a Escola das Américas, um centro de formação militar especializado na luta contra o comunismo, controlada pelos Estados Unidos, onde foram formados numerosos ditadores. Conhecida por Escola de Assassinos, a Escola das Américas é um símbolo da repressão que marca a aliança entre os EUA e as ditaduras da América Latina no século 20 para repressão de opositores. Com o objetivo de ensinar a “formação de contra-insurgência anticomunista”, a Escola treinou vários ditadores latino-americanos, gerações de seus militares e, durante os anos 1980, incluiu o uso de tortura em seu currículo.
Sua missão principal era a de fomentar cooperação ou servir como instrumento para preparar as nações latino-americanas a cooperar com os Estados Unidos e manter assim um equilíbrio político contendo a influência de organizações populares ou movimentos sociais de esquerda.
Vários dos seus cursos ou adestramentos incluíam técnicas de contra insurgência, operações de comando, treinamento em golpes de Estado, guerra psicológica, intervenção militar, técnicas de interrogação. Seus manuais militares de instrução davam detalhes sobre violações de direitos humanos permitidos, como por exemplo o uso de tortura, execuções sumárias, desaparecimento de pessoas, etc definindo seus objetivos como sendo o de conter e controlar indivíduos participantes em organizações sindicais e de esquerda.
Nela se graduaram mais de 60 mil militares e policiais de cerca de 23 países da América Latina como militares da Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela. Alguns deles de especial relevância pelos seus crimes contra a humanidade como o Brigadeiro João Paulo Burnier, militar da Força Aérea Brasileira; General Manuel Noriega, responsável pela ditadura militar no Panamá; General Hugo Banzer, responsável pelo Golpe Militar na Bolívia em 1971 e sua subsequente ditadura militar que se prolongou até 1978. Hugo Banzer foi incluído em 1988 no Hall da Fama da Escola; Roberto D’Aubuisson, graduado en 1972 e depois parte do serviço de inteligência de El Salvador, acusado como líder de esquadrões da morte, entre outros crimes e delitos; General Héctor Gramajo, ex-ministro de Guatemala, autor de políticas militares genocidas nos anos oitenta; Roberto Eduardo Viola, promotor do golpe de estado militar na Argentina em 1976; Leopoldo Galtieri, precursor da Guerra das Malvinas (1982), líder da Junta Militar da Argentina que supervisionou desde 1981, os dois anos finais da “guerra suja”, onde se torturaram mais de 100.000 pessoas, e posteriormente mais de trinta mil foram assassinadas e desaparecidas; General Guillermo Rodriguez, responsável pelo golpe de estado de 1972 a 1976 no Equador e Vladimiro Montesinos, advogado, militar, colaborador inicial da CIA, responsável pelo Serviço de Inteligência do Peru durante o polêmico governo de Alberto Fujimori. Acusado de repressão política, incitador do golpe de estado e de arrecadar enorme fortuna graças a sua estreita ligação com o narcotráfico.
A “Escola de Assassinos” funcionou no Panamá até 1984,ano em que teve a sede mudada para os Estados Unidos e passou a funcionar em Fort Benning (atual Fort Moore), Georgia, com nome em inglês.
O Brasil enviava regularmente militares para treinamento na Escola das Américas .Entre os graduados mais reconhecidos encontram-se importantes instigadores de crimes de guerra ou contra a humanidade, alguns deles também relacionados estreitamente aos esquadrões da morte e ao crime organizado bem como com ligações com a CIA estado-unidense. Atualmente militares brasileiros continuam a ser enviados para cursos nos Estados Unidos.
República Dominicana
Em maio de 1961, o governante da República Dominicana, o ditador de direita Rafael Trujillo, foi assassinado com armas fornecidas pela CIA. Juan Bosch, cuja propaganda e instituto de treinamento político receberam algum financiamento da CIA por meio do J. M. Kaplan Fund, foi eleito presidente da República Dominicana nas primeiras eleições livres, em dezembro de 1962. Bosch foi deposto por um golpe de direita 1963. Em 1965, o presidente dos EUA, Lyndon Johnson, enviou tropas para ajudar a encerrar a guerra e impedir que partidários do deposto Bosch assumissem o poder.
Guatemala
Camponeses e trabalhadores (majoritariamente de ascendência indígena) se revoltaram durante a primeira metade do século XX devido às duras condições de vida e aos abusos de proprietários de terras e da United Fruit Company, de propriedade de estadunidenses e apoiada pelo governo dos EUA. Essa revolta foi reprimida, mas levou à eleição democrática de Jácobo Árbenz, deposto durante o golpe de 1954 endossado pelos Estados Unidos.
Nicarágua
Em 1912 os EUA ocuparam a Nicarágua como forma de proteger os interesses comerciais americanos. Os nicaraguenses conviveram com a tomada de seus sistemas político, bancário e ferroviário. até 1933, quando o presidente dos EUA Herbert Hoover encerrou oficialmente a ocupação.
Em 1979, a rebelião sandinista derrubou o ditador Anastasio Somoza na Nicarágua. O presidente americano Ronald Reagan autorizou a CIA a fornecer uma ajuda de 20 milhões de dólares aos Contras, os contrarrevolucionários nicaraguenses contra o governo socialista da Frente Sandinista de Libertação. A ajuda foi financiada em parte pela venda ilegal de armas ao Irã.
A guerra civil nicaraguense, que terminou em abril de 1990, deixou 50 mil mortos.
El Salvador
Reagan também enviou assessores militares a El Salvador para sufocar a rebelião da Frente Farabundo Martí para a Libertação Nacional (FMLN, extrema esquerda), no contexto de uma guerra civil (1980–1992) que deixou 72 mil mortos.
Granada
Em 25 de outubro de 1983, fuzileiros navais e rangers intervieram na ilha de Granada após o assassinato do primeiro-ministro Maurice Bishop por uma junta de esquerda. Reagan lançou a operação “Urgent Fury” para proteger cerca de mil cidadãos americanos.
A operação, classificada como “bem-sucedida” por Reagan e amplamente condenada pela Assembleia Geral da ONU, terminou em 3 de novembro com mais de uma centena de mortos.
Nos anos 1970 e 1980, seis ditaduras (Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai, Bolívia e Brasil) se aliaram para eliminar opositores de esquerda no âmbito do “Plano Condor”, com o apoio tácito dos Estados Unidos
Brasil
Embora não tenha ocorrido intervenção direta em 1964, uma força naval dos EUA ficou posicionada no litoral brasileiro caso houvesse resistência ao golpe que depôs o presidente João Goulart. Na década de 1970, CIA e FBI assessoraram estruturas repressivas de ditaduras no Brasil, Chile e Argentina durante a Operação Condor.
Em consequência, o Brasil viveu décadas de ditadura. A derrubada do presidente João Goulart, cunhado do líder Leonel Brizola, foi uma das vitórias mais significativas dos EUA durante a Guerra Fria, pois a ditadura militar estabelecida no Brasil, a quinta nação mais populosa do mundo, “desempenhou um papel crucial em empurrar o resto da América do Sul para o grupo de nações pró-Washington e anticomunistas”.
Porto Rico
Foi anexado pelos Estados Unidos.
Bolívia
Os EUA apoiaram o golpe de 1971 liderado pelo general Hugo Banzer, que derrubou o presidente Juan José Torres que desagradou Washington ao convocar uma Assembleia do Povo, que incluía representantes de setores trabalhadores como mineradores, professores, sindicalizados, estudantes e camponeses. Após a tomada de poder por Banzer, os EUA forneceram amplo apoio militar e outras formas de assistência à ditadura de Banzer. Torres foi sequestrado e assassinado em 1976 como parte da Operação Condor.
Em 2019, os EUA voltaram a atuar na Bolívia para derrubar o socialista Evo Morales com o apoio interno da elite boliviana formada por brancos de ascendência étnica europeia, assentados na zona mais rica em recursos naturais do país que nunca aceitaram que um camponês indígena os governasse.
Pesava contra Morales o fato de seu projeto de mudança com posições de esquerda ter convertido o país em uma pujante economia que abriu as portas ao bem-estar da maioria de seus compatriotas, levando a pobreza a cair dramaticamente e muitos pobres passaram a ser classe média, o Produto Interno Bruto aumentou acima dos mais prósperos países que aplicavam receitas neoliberais, como a Argentina e o Chile, e o país conseguiu o maior índice de crescimento econômico da região.
Esse exemplo foi inaceitável para as elites de poder e para a Casa Branca, empenhada em impor suas receitas e evitar que se estendesse pela região o convencimento que só os movimentos de esquerda podem chegar a satisfazer os interesses populares.
Washington foi o eixo dessa operação que desestabilizou Evo para abrir as portas fechadas pelo Governo popular do Movimento ao Socialismo (MAS) ao controle de preciosos recursos naturais como o gás e o lítio, entre outros minerais.
Chile
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