Economista explica como a taxa Selic elevada concentra renda, amplia a dívida pública e limita investimentos produtivos no Brasil
A análise foi apresentada por Dowbor em entrevista ao programa Boa Noite, da TV 247, na qual ele detalhou o funcionamento da dívida pública, os efeitos da taxa Selic de 15% ao ano e as consequências desse modelo para o crescimento econômico e o financiamento de políticas públicas.
A análise foi apresentada por Dowbor em entrevista ao programa Boa Noite, da TV 247, na qual ele detalhou o funcionamento da dívida pública, os efeitos da taxa Selic de 15% ao ano e as consequências desse modelo para o crescimento econômico e o financiamento de políticas públicas.
De acordo com o economista, o Brasil mantém uma das mais altas taxas de juros reais do mundo. “Você pega um estoque de dívida pública superior a R$ 7 trilhões e remunera quem compra esses títulos a 15% ao ano. Isso significa um dreno de quase 10% do PIB”, afirmou. Dowbor destacou que esse montante pode chegar a cerca de R$ 1 trilhão em um único ano, valor muito superior ao orçamento de programas sociais como o Bolsa Família.
Na entrevista, ele explicou que os compradores de títulos da dívida pública são, em sua maioria, grandes detentores de capital. “Quem compra título do governo é essencialmente gente que tem dinheiro sobrando. Um bilionário que coloca R$ 1 bilhão para render a 15% ganha R$ 150 milhões por ano, sem produzir nada”, disse. Segundo Dowbor, esse rendimento corresponde a mais de R$ 400 mil por dia, pagos com recursos provenientes dos impostos.
O economista ressaltou que esse mecanismo afeta diretamente a população. “O dinheiro vem dos impostos. Uma grande parte, equivalente a cerca de 10% do PIB, é transferida da população para os grupos financeiros”, afirmou. Para ele, essa estrutura cria uma distorção na contabilidade pública, já que o pagamento de juros não entra no cálculo do resultado primário, enquanto os gastos sociais são submetidos a limites fiscais.
Dowbor também contestou a narrativa de que a dívida pública decorre de investimentos excessivos do Estado. “O que gera o déficit do governo não é quanto ele investe em educação, saúde ou políticas sociais. É quanto ele paga de juros”, afirmou. Segundo ele, cerca de 82% do estoque da dívida corresponde a juros sobre juros, resultado do reinvestimento contínuo dos rendimentos obtidos com os próprios títulos públicos.
Na avaliação do economista, a taxa Selic elevada desestimula o investimento produtivo. “Um empresário que poderia investir em uma fábrica ou em produção útil não vai se arriscar se pode comprar títulos do governo com risco zero e lucro elevado”, disse. Ele classificou esse processo como financeirização da economia, no qual o capital se desloca da produção para a especulação financeira.
Ao comparar o Brasil com outros países, Dowbor apontou que economias desenvolvidas operam com juros muito inferiores. “Nos países da OCDE, a taxa de juros sobre a dívida pública gira em torno de 2% a 3% ao ano. É esse o nível de referência”, afirmou. Segundo ele, taxas mais baixas incentivam a aplicação de recursos em atividades produtivas, em vez de ganhos financeiros.
Para o economista, a política de juros atual compromete a capacidade do Estado de investir e limita o crescimento econômico. “Quando você eleva a Selic, trava a capacidade de financiamento de políticas públicas e transfere o dinheiro dos impostos para a intermediação financeira”, afirmou. Dowbor concluiu que a discussão sobre juros é central para compreender o déficit público e os obstáculos estruturais ao desenvolvimento do país.
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