O Brasil tem candidatos de sobra
Em março de 2025, o presidente Lula anunciou que disputaria um quarto mandato. Tinha 79 anos. Em março de 2026, Ronaldo Caiado, de 76 anos, foi apresentado como pré-candidato pelo PSD. Na mesma semana, Cabo Daciolo, que em 2018 alertou o país sobre a ameaça da URSAL em um debate televisionado, voltou a se lançar à corrida presidencial. A lista de pré-candidatos à Presidência da República em 2026 já tem onze nomes. O problema não é o tamanho dela. É o que ela revela sobre o sistema que a produziu.
O espelho do sistema
Onze pré-candidatos. Uma mulher. Média de idade no núcleo principal bem acima dos 65 anos. Um senador lançado pelo próprio pai, que está preso e inelegível. Pelo menos dois nomes que concorrem há décadas sem votação expressiva. E um grupo de candidatos com trabalho de base, mas sem estrutura, sem partido competitivo e sem caminho realista para o segundo turno.
Esse é o resultado previsível de um sistema que foi desenhado, ao longo de décadas, para recompensar permanência e dificultar renovação. Não é um retrato acidental.
Filhotismo não é exceção, é padrão
O caso de Flávio Bolsonaro é o mais visível, mas não é o único. Jair Bolsonaro está preso, condenado e inelegível até 2030. A solução encontrada pelo bolsonarismo foi transferir a candidatura para o filho mais velho, preservando o capital político da família. O mecanismo é eficiente do ponto de vista eleitoral e corrosivo do ponto de vista institucional: a inelegibilidade, que deveria encerrar uma trajetória política, foi simplesmente contornada por herança.
Mas o filhotismo vai além do caso Bolsonaro. Ele é um padrão estrutural da política brasileira. Sobrenomes que se repetem em câmaras municipais, assembleias legislativas, bancadas federais e, agora, na corrida presidencial. O sistema de incentivos favorece quem já tem rede, nome e estrutura herdada. Quem começa do zero enfrenta um terreno de acesso incomparavelmente mais difícil.
A anistia que explica a ausência de mulheres
De onze pré-candidatos, apenas Samara Martins, de 38 anos, representando a Unidade Popular, é mulher. Nenhum partido com musculatura nacional e acesso relevante ao fundo eleitoral lançou uma candidatura feminina competitiva à Presidência, até o momento.

Isso não é surpresa para quem acompanhou a aprovação da Emenda Constitucional 133, em agosto de 2024. A chamada PEC da Anistia Partidária perdoou os partidos políticos que descumpriram a aplicação mínima de recursos em candidaturas de grupos sub-representados nas eleições anteriores. Em vez de pagar pelas infrações eleitorais cometidas, as legendas aprovaram uma emenda constitucional para cancelar as próprias multas.
O sinal enviado foi claro: descumprir as regras de inclusão não tem custo real. O sistema prevê cotas nas candidaturas proporcionais, mas não tem nenhum mecanismo equivalente para o Executivo federal. E quando as regras existentes são descumpridas, os próprios partidos votam para se “autoperdoar”. A sub-representação feminina na corrida presidencial não é uma falha do sistema. É uma consequência direta de como ele funciona.
A renovação não chega porque o sistema não deixa
Lula tem 80 anos e disputa o quarto mandato. Caiado tem 76 e retorna para a corrida presidencial depois de décadas no Congresso Nacional e dois mandatos como governador do Goiás. Aldo Rebelo tem 70. Edmilson Silva, do PCB, tem 75. Rui Costa Pimenta, do PCO, tem 68 e concorre à presidência desde 2002.
A questão não é a idade em si. É o que ela sinaliza sobre o funcionamento do sistema. Chegar competitivo a uma disputa presidencial no Brasil exige décadas de acúmulo de capital político, rede partidária consolidada e acesso a financiamento estruturado. Isso favorece, quase que por definição, quem já está no jogo há muito tempo. A renovação não acontece porque as regras do jogo foram desenhadas para quem já está dentro.
Folclore, base e a distância entre os dois
A lista também tem dois nomes que ocupam uma categoria própria. Rui Costa Pimenta concorre à presidência pela quinta vez. Cabo Daciolo voltou ao jogo com o mesmo repertório de 2018, incluindo bordões e tom conspiracionista. São candidaturas que existem sem qualquer pretensão real de governo. O sistema não tem nenhum mecanismo para filtrá-las.
Em outra prateleira estão Hertz Dias, Samara Martins e Renan Santos. Os três têm trabalho de mobilização de base, cada um dentro do seu campo. Hertz Dias e Samara Martins sequer são medidos pelos grandes institutos. Renan Santos aparece em cenários estimulados com 3% a 4%. O que os une é a falta de estrutura: partidos sem musculatura eleitoral, sem acesso real ao fundo partidário em escala competitiva e sem o tempo necessário para construir viabilidade em um campo já ocupado e altamente radicalizado.
Para qualquer um deles chegar competitivo ao primeiro turno, seria necessária uma combinação de fatores improvável e rara na política brasileira.
O que falta não é candidato
O campo presidencial de 2026 tem onze nomes e uma quantidade muito menor de projetos reais de governo. Ter plataforma não é o mesmo que ter plano. Ter plano não é o mesmo que ter partido capaz de sustentar a aplicação desse plano ao longo de quatro anos de gestão.
Governar o Brasil exige coalizão no Congresso, quadros técnicos distribuídos e experimentados, capacidade de negociação permanente com 27 estados e controle de um orçamento que envolve interesses de dezenas de grupos organizados. Precisa de estrutura partidária real, não apenas de legenda registrada no TSE.
O que a lista de 2026 revela, até então, não é falta de pessoas dispostas a concorrer. É a distância entre a disposição de candidatos e a capacidade real de governar. E essa distância, mais do que qualquer nome ou rosto novo, é o maior problema da disputa que o Brasil está prestes a ter.
Acre in Foco – Cobertura das Últimas Notícias do Acre Acre in Foco traz as últimas notícias do Acre, com cobertura atualizada sobre política, segurança, saúde, cultura e eventos locais. Fique por dentro de tudo
