A Câmara dos Deputados atropelou a 6×1, com 472 votos a favor e 22 contra, no primeiro turno, e 461 a 19 no segundo. A padroeira do milagre é a Santa Urna Eletrônica, detestada pelos demônios da democracia. A PEC que extingue a escala e reduz a jornada semanal de 44 para 40 horas, mantendo o salário, passou com uma margem que envergonha qualquer argumento de que “a sociedade está dividida” sobre o assunto.
A mudança precisava de 308. Como adiantei aqui um rosário de vezes, uma vez colocada em votação, seria um rolo-compressor. E não se engane, não era amor, mas o medo da cilada eleitoral, parafraseando os filósofos do grupo Molejo. Com isso, os deputados que votaram a favor não poderão ser chamados de “inimigos do povo” pelos adversários em outubro. Por causa deste tema, claro, porque a capivara é longa.
Essa expressão, aliás, incomodou profundamente as lideranças no Congresso. E incomodou porque é real. O movimento que tomou as ruas e as redes pedindo o fim do 6×1, puxado pelo vereador Rick Azevedo e a deputada Érika Hilton, que atualizaram uma antiga demanda da base da sociedade criou um termômetro político simples e brutal: ou você vota a favor do trabalhador, ou você está contra ele. Não havia terceira opção ou abstração técnica suficiente para escapar do julgamento popular.
A Câmara, aliviada, empurrou esse ônus para o Senado.
Dois partidos instruíram suas bancadas a votar contra: o Novo, de Romeu Zema, e o Missão, de Renan Santos.
A lógica é conhecida: o eleitorado da extrema direita é historicamente avesso à ampliação de direitos trabalhistas, taxada de “custo Brasil”, “ineficiência” e outros eufemismos para “o patrão prefere que você trabalhe mais e ganhe menos”.
Para eles, ser a favor da manutenção da 6×1 dá voto, não tira.
Já o PL, partido de Flávio Bolsonaro, tentou uma manobra de última hora para travar a votação. Muitos deles, que defendem o 7×0, apoiaram a 4×3 só para inviabilizar o acordo costurado para o tema. O presidente da Câmara, Hugo Motta, ignorou a estratégia. O PL, então, liberou o voto da bancada, o que não foi gesto de grandeza, mas autopreservação. O partido não é suicida. Instruir parlamentares a votarem contra uma medida com esse apelo popular, às vésperas das eleições, seria o equivalente político de pular de um prédio para provar que a gravidade não existe.
Agora, o Senado herda o tubérculo quente. Dois terços dos senadores terão que disputar a reeleição em breve caso queiram continuar por lá. Votar contra o fim do 6×1, neste momento, com este placar na Câmara, com este clamor nas redes e nas ruas, exige uma explicação que poucos senadores terão coragem e, principalmente, a habilidade retórica de dar para o eleitorado que acorda às 5h da manhã seis dias por semana.
O Brasil tem 44 horas semanais como limite constitucional desde 1988. Naquele momento, a demanda do povaréu era baixar de 48 para 40, mas o andar de cima disse “calma, daqui a pouco resolvemos isso”. Trinta e oito anos depois, após muita pressão, a Câmara votou pelas 40. Não é revolução. É o básico. Grande parte do mundo desenvolvido já trabalha menos e produz mais. A correlação entre descanso, saúde mental, produtividade e consumo interno está documentada em estudos que os opositores da medida preferem não ler.
O fim do 6×1, especificamente, atinge em cheio o trabalhador mais vulnerável: o da linha de frente do comércio, da limpeza, da segurança, da alimentação. Quem descansa um dia por semana enquanto a família do patrão descansa dois, três. Quem não tem fim de semana enquanto o filho cresce sem o pai ou a mãe em casa. Quem adoece mais cedo e aposenta (quando consegue) com o corpo gasto.
Isso não é abstração econômica. É gente.
A Câmara votou como votou não por iluminação moral repentina ou generosidade espontânea dos parlamentares. Votou porque as eleições chegam, porque as pesquisas falam, porque as redes cobram e porque o trabalhador brasileiro, finalmente, encontrou uma pauta capaz de unir quem é de direita, de esquerda e de centro — porque trabalho de sol a sol não tem ideologia. Tem exaustão.
O governo Lula está se aproveitando das eleições para tentar passar a pauta? Ótimo, mostra que sabe fazer política. O naco do patronato contrário à mudança tem razão de reclamar que esta medida só avançou por causa das eleições. Se não fosse, os parlamentares não estariam nem aí com os trabalhadores.
A bola agora está no Senado. Os senadores têm diante de si uma escolha: ser o passo seguinte de uma mudança histórica ou ser o muro que a travou. Resta saber se os senadores têm o mesmo bom senso ou o mesmo medo de perder mandato.
O cronômetro eleitoral segue em contagem regressiva. E os trabalhadores estão assistindo. Tic-tac.
Por Leonardo Sakamoto
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