Para a atriz Cleo Diára, protagonista europeu Sérgio representa quem se beneficia dessa estrutura sem se questionar
O filme “O Riso e a Faca”, em cartaz nos cinemas brasileiros, lança um olhar crítico sobre a relação entre Portugal, antiga potência colonial, e suas ex-colônias na África.
Dirigido pelo português Pedro Pinho, o longa é uma coprodução entre Portugal, Brasil, França e Romênia. A trama acompanha o engenheiro português Sérgio (Sérgio Coragem), que viaja à Guiné-Bissau para a construção de uma estrada. No país, ele se aproxima de Gui (Jonathan Guilherme) e Diára (Cleo Diára) e mergulha em dinâmicas marcadas pelo neocolonialismo.
A atriz cabo-verdiana Cleo Diára venceu o prêmio de Melhor Atriz na Mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes em maio de 2025 pelo papel. Em entrevista ao programa Bem Viver da Rádio Brasil de Fato, ela afirmou que a passividade do personagem Sérgio diante da desigualdade revela algo estrutural: a forma como o capitalismo depende, para se sustentar, de que alguém esteja sempre na base da pirâmide. “O capitalismo não irá sobreviver se existir equidade. Alguém tem que ter 30 centavos para alguém ter 30 bilhões”, diz.
Para Cleo, Sérgio é justamente alguém que se beneficia dessa estrutura sem se questionar. “É aquele homem que acredita que é bom e que tem valores dentro de si, mas, com isso, não se permite pensar nas suas ações e no lugar que ocupa”, afirma.
Nascida em Cabo Verde e radicada em Portugal desde os 10 anos, Cleo conta que sua personagem foi pensada como uma referência à diáspora cabo-verdiana que se fixou na Guiné-Bissau, uma população que migrou tanto para somar à luta de independência quanto para ocupar funções na administração colonial portuguesa.
“A mãe seria guineense e o pai, cabo-verdiano. Isso não aparece no filme, mas ela foi para Cabo Verde ficar com o pai e mais tarde volta para a Guiné para recuperar a relação com a mãe. Resolve ficar nesse cultivo do afeto”, explica.
Cleo afirma que o filme não foi feito para constranger o público europeu. Para a atriz, o que está em cena são corpos que não se propõem a agradar e que se permitem ser sua essência, sua liberdade e sua racialidade.
“Acho que [ela e Jonathan] encontramos essa liberdade de existir e, se calhar, a nossa existência tão livre pode constranger estruturas opressoras. Esse é o belo: essa sede de vida, essa sede de existir e de ser livre”, afirmou.
Leia a entrevista completa
Brasil de Fato: O filme “O Riso e a Faca” é hipnotizante. Quem começar não vai querer parar. Ele é longo, denso e traz muitas reflexões. Me parece que um dos objetivos do filme é constranger o público europeu, o público colonizador. O que você acha?
Cleo Diára: Eu acho que tanto eu como o Jonathan [Guilherme, ator brasileiro] somos dois corpos que estão livres de querer agradar. Acho que são dois corpos que se permitem ser sua essência, sua liberdade, sua racialidade. Então, não acho que temos esse objetivo de constranger. Acho que não nos deixamos constranger pela estrutura europeia na Guiné-Bissau.
Acho que encontramos essa liberdade de existir e, se calhar, a nossa existência, tão livre, pode constranger estruturas opressoras. Então, eu acho que nós temos esse sentido de liberdade e de existência naquilo que se consegue na sua plenitude. Isso é o belo: essa sede de vida, essa sede de existir e de ser livre.
Porque dizemos coisas, muitas vezes, que são pensadas e não ditas. Mas eu vejo isso como um ato de ser livre: quando podemos usar da nossa honestidade sem medo das consequências, porque estamos confortáveis na nossa pele, na nossa existência, e não temos medo de que o poder nos oprima.
A verdade de cada um também é o seu poder. Muitas vezes somos embutidos de verdades dos outros, que nos retiram um pouco do nosso poder.
É muito difícil que um europeu volte para o continente africano sem ter um passado de mais de 500 anos carregado nas costas.
Sim, sim. Nessa questão, pelo menos na minha perspectiva, em relação à figura do Sérgio [interpretado por Sérgio Coragem], para mim é a sua passividade perante as coisas, porque existe muito aquilo que nós temos na esquerda caviar: “vamos mudar, mas também não vamos mudar tanto. Vamos dar, mas não vamos dar tanto”.
De alguma forma, a estrutura tem que se manter; o capitalismo sobrevive disso. O capitalismo não irá sobreviver se existir equidade. Alguém tem que estar na base da pirâmide suportando o peso. Alguém tem que ter 30 centavos para alguém ter 30 bilhões.
Por mais que o mundo seja abundante, os recursos naturais são finitos. Então, essa desigualdade é sustentada, normalmente, por determinados grupos, nessa nossa forma de organização majoritariamente ocidental, mas que se espalhou para o mundo inteiro, e temos que admitir isso. Por mais que tenhamos países que se dizem mais comunistas, vivemos no mundo capitalista.
O Sérgio [personagem] é aquele típico homem que se acha bom, e do qual eu não gosto muito, porque ele não se permite pensar, não se permite reavaliar o próprio comportamento, e faz com que sempre lide com as outras pessoas a partir de um lugar de superioridade, porque ele seria bom.
Há muitas coisas aqui, muitas subjetividades que cada um tem, e eu tenho sempre uma frase: “Ninguém inventou nada”. Ninguém inventou o racismo, a homofobia, a transfobia, nada disso. Ninguém inventou, mas todos nós, de uma forma ou de outra, vamos nos beneficiar desses “ismos” que o mundo tem.
Nessa perspectiva de reavaliar e de pensar, eu acho que a Diára é mais calada que o Guilherme. Não fala muito porque — tenho essa sensação — ela já viu muita coisa, já falou, e decidiu então falar o menos possível, porque está focada em fazer o seu negócio, em ser independente. Mas consegue perceber esse comportamento repetitivo que vai acontecendo.
[Na cena] da conversa no carro, ela e o Sérgio vão tendo uma relação, não entram muito em questões políticas; mas, naquele momento, com a família, ela consegue perceber comportamentos que se repetem.O Sérgio, para mim, é aquele homem que acredita que é bom e que tem valores dentro de si, mas, com isso, não se permite pensar nas suas ações e no lugar que ocupa. Acho que pensarmos no lugar que ocupamos permite que não nos esqueçamos dos outros. Permite-nos estar mais atentos e mais empáticos.
Queria falar de uma coisa muito bonita, que é uma atriz cabo-verdiana interpretando na Guiné-Bissau. Existe uma relação muito próxima entre os dois países. Não me pareceu coincidência que te tenham chamado para esse filme. Como foi isso?
Uma das coisas que mais me trouxe alegria foi quando o Pedro Pinho, o realizador do filme, explicou o plot da Diára. Para ele, ela representaria as pessoas cabo-verdianas da diáspora que ficaram na Guiné-Bissau.
Muitas pessoas cabo-verdianas emigraram para a Guiné-Bissau, para a luta da independência, mas também por causa das questões colonialistas. Cabo-verdianos iam para as colônias ocupar vários tipos de funções, tanto na administração como nas roças. E a forma que encontramos para o plot dela foi a partir da minha forma de falar: a mãe seria guineense e o pai seria cabo-verdiano. Isto não aparece no filme, mas ela foi para Cabo Verde ficar com o pai e, mais tarde, volta para a Guiné para recuperar a relação com a mãe, e, nisso, resolve ficar nesse cultivo do afeto. Ela resolve ficar na Guiné-Bissau.
Para mim, poder conjugar essas duas realidades, essas duas identidades, foi uma riqueza muito grande. Eu vivo em Portugal desde os meus 10 anos, e eu digo que, em Cabo Verde, somos rodeados por mar e pelo céu; o resto é sonho. Tudo aquilo que chega a partir das cassetes, da rádio, das novelas brasileiras.
Minha vontade de ser atriz nasce através das novelas, porque era isso que me permitia sonhar e conhecer para além daquilo que estava ao meu redor.
De alguma forma, a minha ancestralidade também se encontra na Guiné-Bissau. É o que eu sinto e o que eu escolhi.
Achei muito bonita a homenagem que o filme fez à música popular brasileira. Você falou das novelas brasileiras, mas o filme faz uma linda homenagem ao Tom Zé. “O Riso e a Faca” é o nome da música do Tom Zé que dá nome ao filme. Você conhecia a música?
Não vou mentir: não conhecia. E o Pedro Pinho me disse que nós íamos cantar essa música. E eu adorei. Depois fui investigar. Mas a minha relação com a música brasileira é imensa, desde que me conheço por gente.
Aos domingos, na minha casa, é o Caetano, é a Gal Costa, é a Bethânia, é o Gilberto Gil, o Milton Nascimento, é o Djavan. Agora, eu amo a Duquesa e a Ebony. Quero dizer, sou superfã das rappers brasileiras que estão arrasando, falando por nós, trazendo muitas questões, muita libertação. Então, a minha conexão com a música brasileira, nesse sentido, é bastante grande. Eu digo sempre isso: que a música brasileira, a bossa nova, é algo inexplicável. Tem uma coisa de vida, de alma. Tem essa melancolia, essa saudade, mas é uma melancolia, uma saudade e uma vida boa. É algo que é bom.
Tenho essa relação de ouvir a Ivete [Sangalo], Daniela Mercury, Fafá de Belém, Marília Mendonça. Lembro-me de quando descobri a Karol Conká: fiquei com o álbum dela, eu estava: “Meu Deus, quando é que ela vem dar um show?”.
Afinal, você já veio para o Brasil ou ainda não?
Já, muitas vezes. Conheço o Rio, São Paulo, Fortaleza, Bahia.
O filme mostra uma grande diversidade linguística: tem pelo menos quatro ou cinco línguas, entre português, francês, espanhol, além do crioulo e suas variações. Isso é muito impactante.
Sim. E, para além dessas, eu não sei qual é a outra língua; não sei se é mandinga. A Guiné-Bissau tem várias línguas.
Em Cabo Verde, nós temos só o cabo-verdiano. Eu gosto de chamar de cabo-verdiano, e vou te explicar por quê. “Crioulo” foi a forma como os colonizadores chamaram todas as línguas que surgiram da colonização: o crioulo do Haiti, o crioulo da Guiné, o crioulo de Cabo Verde. Então, assim como chamamos o português, o francês, o espanhol, eu chamo de cabo-verdiano.
E, sim, tem essa beleza, essa diversidade que compõe o mundo. É tão bonito — e que agora parece tão assustador… Nós somos muitas coisas, diferentes coisas, e cabemos todos. E está tudo bem.
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