Carta aberta ao senador Davi Alcolumbre

Carta aberta ao senador Davi Alcolumbre

Prezado senador Davi Alcolumbre

Vi com muito espanto que o senhor levou apenas um minuto e quarenta e dois segundos para derrubar uma resolução do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), que tinha por objetivo garantir atendimento humanizado às vítimas de violência sexual e que determinava que menores de 14 anos podem realizar aborto em qualquer mês de gestação.

Escrevo para perguntá-lo: o senhor está ciente de que a cada uma hora, seis meninas ou meninos de todos os níveis sociais (de 0 a 14 anos) são abusados sexualmente nesse país? E, se não for ingenuidade da minha parte, o senhor sabe “como nascem os bebês”?

Desculpe se eu pergunto, mas pela rapidez, frieza, distanciamento e objetividade com que o senhor colocou em votação um projeto de decreto legislativo, dessa natureza, me pareceu que o senhor ignora. Os bebês, senhor Alcolumbre, nascem do ato sexual, que deveria ser consentido (mas o abuso se caracteriza exatamente pelo não consentimento), e entre pessoas adultas.

Essa sua atitude, a de apertar um botão, olhar para o painel, se dirigir aos senadores que mal tiveram tempo de prestar a atenção ao que o senhor disse, e decretar: “os que concordam permaneçam como estão. Está aprovado”, diz respeito a todas as meninas que disseram não, mas não foram ouvidas. Um dia, se descobriram grávidas, sem entender exatamente o que se passava em seus corpos. Foi sobre isso que o senhor decidiu. Sim, foi o senhor quem decidiu, pois os que estavam à sua volta não tiveram tempo nem sequer de perguntar: heim? O que está mesmo sendo votado?

A medida já entra em vigor sem necessidade de sanção da Presidência. Ou seja, passa a valer. E se não houver questionamento encaminhado ao Supremo Tribunal Federal (STF), é o que vai acontecer. Essas meninas vão se olhar no espelho com espanto, e descobrir que aquela barriga se avolumando é uma criança que foi plantada em seu corpo com violência, filha do pai, do padrasto, do vizinho, do tio, do amigo da família, que em geral são os abusadores, segundo pesquisas da PNAD (IBGE). E o amparo legal que antes lhes permitiria retirar de dentro de si esse ser imposto por um ato de terror e medo, foi-se embora naquele momento em que o senhor, com a carranca de sempre, apertou aquele maldito botão à sua frente, decidindo sobre a Nação.

E sabe por que o senhor procedeu assim, com um projeto relatado pela senadora Damares Alves, que a rigor deveria saber exatamente o que isso significa, não só por ser mulher, mas por relatar – é o que ela conta -, ter sofrido abuso na infância, aos seis anos? Porque o senhor jamais vai saber o que se passa no corpo feminino.

Somos nós, senador, quem fabricamos pessoas. Sim, isso mesmo. A tal da mão-de-obra que labuta no regime 6X1, para erguer coisas nesse país e fazer funcionar desde o parafuso que ampara a sua mesa de trabalho, até a confecção do seu cafezinho, é feita por mulheres. O senhor nasceu de uma mulher, sinto lhe dizer. Talvez o senhor não goste da ideia, mas é assim que funciona.

Aí, no afã do ir e vir nos ambientes acarpetados de Brasília, talvez o senhor não tenha tempo de pensar nessas coisas, mas desde que o mundo é mundo os homens, não importa o tamanho do seu poder, primeiro precisam ser produzidos na barriga de uma mulher. (Claro que agora a ciência até permite que seja diferente, mas o processo natural é esse, senador).

É uma tarefa romantizada, embalada em canções ternas, mas é isso o que fazemos. Produzimos pessoas. Umas melhores, outras mais alheias às dores e às delícias desse mundo, mas sempre nós.

Por isso, senador, eu aconselho que o senhor tire um tempinho para refletir que uma criança não pode ser chamada a essa tarefa precocemente. A gente até poderia enquadrar a situação no quesito “trabalho infantil”. Afinal, aos olhos da lei, criança não pode produzir nada. Não tem aptidão para isso. Não está pronta.

Que tal, pensar por essa ótica? Pela rapidez, distância e objetividade – conforme já descrito acima, mas não custa repisar -, que o senhor apertou aquele botão em sua mesa e mudou o destino de tantas meninas desgraçadas, violentadas, racionalizar assim talvez seja mais simples.

Difícil vai ser vê-lo parar um instante para ler essas linhas, mas estou tentando chamar a sua atenção. Quem sabe assim, entre um “permaneçam como estão” e outro, o senhor queira ouvir sobre o mal que fez às meninas desse país.

Em algum lugar, bem distante do seu gabinete, uma delas acordou, passou a mãos pelo seu corpo e percebeu bem perto do umbigo, um entumecimento. Sentiu os seios doloridos, um jorro de hormônios foi jogado em sua corrente sanguínea e ela, que nem menstruou, percebeu que algo havia mudado. Não ainda o bastante para lhe informar que, sim, além daquela violência de ver o seu corpo abusado, ela herdará uma criança que mal cabe dentro do seu corpinho, colocando em risco a sua própria vida. Mas o que importa a situação dessas meninas, quando o senhor está mesmo é preocupado com o atraso em receber as suas canetinhas de emagrecimento, não é?

E, no duro mesmo, essa é uma pauta de um minuto e quarenta e dois segundos em sua vida. Falando francamente é apenas uma fração do tempo que o espermatozoide do abusador levou para chegar ao útero da menina violentada. Eles precisam nadar pelo colo do útero e atravessar a sua parede para alcançar as trompas de Falópio. Este processo pode levar de 30 minutos a algumas horas. Ou, seja, trinta vezes mais que o tempo que o senhor levou para se esquecer o que colocou para votar naquela maldita tarde de 02/06/2026, passando em seguida para a próxima pauta.

Essa sua pauta, senador, vai interromper vidas, futuros, sonhos. Pare, por favor, um minuto e quarenta e dois segundos para refletir que entre o seu gesto e a próxima pauta que o senhor seguiu tocando, em algum lugar desse país uma menina estava paralisada de horror na frente do seu abusador, sem reação, gelada, com os pés colados ao chão, com a boca seca, o coração aos pulos, e se sentindo miseravelmente sozinha.

O Senado o separa do mundo real. Obrigar crianças a parir crianças é uma escolha abominável, senhor Davi Alcolumbre. Se o senhor concorda, “permaneça como está”.

Por Denise Assis

 

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