Conselho estadual, dominado por republicanos aliados de Trump, impõe, pela primeira vez nos EUA, um conjunto comum de obras a mais de 5 milhões de alunos da rede pública. Críticos denunciam violação da separação entre Igreja e Estado
O conselho de educação do Texas aprovou, na última sexta-feira, uma lista de leitura obrigatória para as escolas públicas do estado que inclui passagens bíblicas em praticamente todos os níveis escolares a partir do final do ensino fundamental.
A medida, considerada inédita nos Estados Unidos, foi aprovada por um conselho com maioria republicana de 10 a 5 e atinge mais de 5 milhões de estudantes, o equivalente a 11% de todos os alunos da rede pública americana. Defensores alegam valor cultural e literário da Bíblia; críticos afirmam que a decisão fere o princípio constitucional de separação entre Igreja e Estado.
Texas impõe leitura bíblica nas escolas
O Texas aprovou uma nova lista estadual de leituras que estabelece, pela primeira vez, um conjunto comum de obras a ser estudado por milhões de alunos em todo o estado, incluindo trechos da Bíblia. A medida é considerada altamente incomum, talvez sem precedentes nos Estados Unidos, onde a escolha dos textos escolares costuma caber a escolas ou professores individualmente, não a um órgão estadual.
O debate sobre a separação entre Igreja e Estado
Autoridades da educação do Texas defendem a inclusão da Bíblia argumentando que as tradições judaico-cristãs foram fundamentais para a fundação dos Estados Unidos e que isso deve estar refletido no currículo das escolas públicas. Para os defensores da medida, o texto bíblico é uma peça essencial da literatura ocidental e indispensável para compreender a cultura americana.
Os críticos, porém, vão em direção oposta. Rachel Laser, presidente da organização Americanos Unidos pela Separação entre Igreja e Estado, foi direta: o governo do Texas, como qualquer órgão governamental americano, nunca deveria se envolver em impor uma religião a todos.
Elva Mendoza, da Texas Freedom Network, alertou que a medida transmite uma mensagem clara às crianças: “apenas um texto religioso, um cristão, é digno de fazer parte desta lista de leitura obrigatória”, excluindo alunos de outras crenças ou sem crença alguma. A lista, segundo críticos, não apenas viola a separação entre Igreja e Estado como aprofunda a falta de diversidade no currículo, ao privilegiar textos históricos e clássicos predominantemente de autores brancos e de tradição cristã.
Contexto conservador no Texas e nos EUA
A aprovação da lista não é um episódio isolado. O Texas tem estado na linha de frente de uma campanha conservadora para incorporar a religião nas salas de aula: o estado já permite que escolas públicas contratem capelães para aconselhar alunos, exige a exibição dos Dez Mandamentos nas salas de aula e aprovou um currículo opcional com base bíblica. A nova lista, aprovada por um conselho com maioria republicana de 10 a 5, é mais um passo nessa direção, e foi além do que a lei de 2023 determinava ao definir uma série extensa de textos para cada série escolar.
O movimento se insere em um cenário mais amplo de restrição ao que se lê nas escolas americanas. Mais de 5 mil livros foram retirados de bibliotecas nos EUA em 2025, e quase 7 mil obras foram proibidas em escolas públicas, segundo dados citados por livreiros, com quase 40% dessas obras abordando experiências LGBTQ+ e de pessoas não brancas. Kasey Meehan, diretora do programa Liberdade de Leitura da PEN America, avalia que exigências tão rígidas como a lista texana equivalem a uma “quase censura de fato”, comparando o mecanismo ao movimento de proibição de livros. Alicia Quiñones, diretora do PEN Internacional para a América, resume o quadro: “A censura de livros está sendo usada como uma ferramenta para limitar quais histórias podem ser contadas, quais experiências podem ser reconhecidas e quais perspectivas podem fazer parte do debate público.” No Texas, agora, essa disputa passa também pela Bíblia como leitura obrigatória. As informações são da Fórum
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