Conto da Aia: leitura da Bíblia se torna obrigatória em escolas públicas dos EUA

Conto da Aia: leitura da Bíblia se torna obrigatória em escolas públicas dos EUA

Conselho estadual, dominado por republicanos aliados de Trump, impõe, pela primeira vez nos EUA, um conjunto comum de obras a mais de 5 milhões de alunos da rede pública. Críticos denunciam violação da separação entre Igreja e Estado

O conselho de educação do Texas aprovou, na última sexta-feira, uma lista de leitura obrigatória para as escolas públicas do estado que inclui passagens bíblicas em praticamente todos os níveis escolares a partir do final do ensino fundamental.

A medida, considerada inédita nos Estados Unidos, foi aprovada por um conselho com maioria republicana de 10 a 5 e atinge mais de 5 milhões de estudantes, o equivalente a 11% de todos os alunos da rede pública americana. Defensores alegam valor cultural e literário da Bíblia; críticos afirmam que a decisão fere o princípio constitucional de separação entre Igreja e Estado.

Texas impõe leitura bíblica nas escolas

O Texas aprovou uma nova lista estadual de leituras que estabelece, pela primeira vez, um conjunto comum de obras a ser estudado por milhões de alunos em todo o estado, incluindo trechos da Bíblia. A medida é considerada altamente incomum, talvez sem precedentes nos Estados Unidos, onde a escolha dos textos escolares costuma caber a escolas ou professores individualmente, não a um órgão estadual.

A lista, que ainda estava sendo editada até a tarde de sexta-feira, contém cerca de 200 textos, entre passagens bíblicas, ensaios e livros. Entre os títulos confirmados estão “A Menina e o Porquinho” (Charlotte’s Web), de E.B. White, para o 3º ano; “A Noite”, de Elie Wiesel, para o 8º ano; e “Hamlet”, de William Shakespeare, para o 12º ano. Ao menos um trecho da Bíblia está incluído na maioria dos níveis escolares, a partir do final do ensino fundamental. A implementação será gradual, com início previsto para 2030, começando pelos alunos do ensino básico.O alcance da decisão é expressivo: o Texas educa aproximadamente 1 em cada 10 alunos da rede pública dos Estados Unidos. Antero Garcia, presidente do Conselho Nacional de Professores de Inglês e professor na Universidade de Stanford, afirmou não conhecer nenhum outro estado com uma lista de leitura obrigatória que inclua textos religiosos. A medida vai muito além do que determinava a lei estadual de 2023, que exigia apenas a seleção de pelo menos uma obra literária por nível escolar.

O debate sobre a separação entre Igreja e Estado

Autoridades da educação do Texas defendem a inclusão da Bíblia argumentando que as tradições judaico-cristãs foram fundamentais para a fundação dos Estados Unidos e que isso deve estar refletido no currículo das escolas públicas. Para os defensores da medida, o texto bíblico é uma peça essencial da literatura ocidental e indispensável para compreender a cultura americana.

Os críticos, porém, vão em direção oposta. Rachel Laser, presidente da organização Americanos Unidos pela Separação entre Igreja e Estado, foi direta: o governo do Texas, como qualquer órgão governamental americano, nunca deveria se envolver em impor uma religião a todos.

Elva Mendoza, da Texas Freedom Network, alertou que a medida transmite uma mensagem clara às crianças: “apenas um texto religioso, um cristão, é digno de fazer parte desta lista de leitura obrigatória”, excluindo alunos de outras crenças ou sem crença alguma. A lista, segundo críticos, não apenas viola a separação entre Igreja e Estado como aprofunda a falta de diversidade no currículo, ao privilegiar textos históricos e clássicos predominantemente de autores brancos e de tradição cristã.

Contexto conservador no Texas e nos EUA

A aprovação da lista não é um episódio isolado. O Texas tem estado na linha de frente de uma campanha conservadora para incorporar a religião nas salas de aula: o estado já permite que escolas públicas contratem capelães para aconselhar alunos, exige a exibição dos Dez Mandamentos nas salas de aula e aprovou um currículo opcional com base bíblica. A nova lista, aprovada por um conselho com maioria republicana de 10 a 5, é mais um passo nessa direção, e foi além do que a lei de 2023 determinava ao definir uma série extensa de textos para cada série escolar.

O movimento se insere em um cenário mais amplo de restrição ao que se lê nas escolas americanas. Mais de 5 mil livros foram retirados de bibliotecas nos EUA em 2025, e quase 7 mil obras foram proibidas em escolas públicas, segundo dados citados por livreiros, com quase 40% dessas obras abordando experiências LGBTQ+ e de pessoas não brancas. Kasey Meehan, diretora do programa Liberdade de Leitura da PEN America, avalia que exigências tão rígidas como a lista texana equivalem a uma “quase censura de fato”, comparando o mecanismo ao movimento de proibição de livros. Alicia Quiñones, diretora do PEN Internacional para a América, resume o quadro: “A censura de livros está sendo usada como uma ferramenta para limitar quais histórias podem ser contadas, quais experiências podem ser reconhecidas e quais perspectivas podem fazer parte do debate público.” No Texas, agora, essa disputa passa também pela Bíblia como leitura obrigatória. As informações são da Fórum

Veja também

Mais do que votar em extremistas, povo optou pela bandidagem

Mais do que votar em extremistas, povo optou pela bandidagem

Entre os eleitos pelo PL e aliados, alguns inclusive campeões de voto, estão acusados de …