Ministro-relator do caso Master no STF solta a PF em cima de todo e qualquer suspeito, exceto contra filho do ex-presidente que o nomeou, e que aparece num áudio achacando Daniel Vorcaro em valores milionários
A9ª fase da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal nesta quinta-feira (18), joga luz sobre o que há de mais sofisticado e, ao mesmo tempo, de mais degradante na simetria do poder em Brasília. Investigar fraudes bilionárias, o uso espúrio do parlamento para favorecer interesses de banqueiros e o trânsito de vantagens indevidas é o papel constitucional das instituições. O que não se justifica, e clama por uma crítica severa, é a gritante disparidade com que o ministro-relator do caso no Supremo Tribunal Federal, o “terrivelmente evangélico” e bolsonarista André Mendonça, maneja a balança da Justiça. Onde há o rigor implacável da caneta para uns, há um silêncio sepulcral e uma pasmante inércia para outros.
O escândalo em torno do extinto Banco Master e de seu ex-controlador, Daniel Vorcaro, redesenhou o mapa das relações promíscuas entre o sistema financeiro e o Congresso Nacional. Diante do colapso de uma estrutura acusada de fraudar o Fundo Garantidor de Crédito (FGC), a Polícia Federal e o STF começaram a puxar os fios de uma extensa rede de influência política. No entanto, o desenho final dessa malha de suspeitos, sob a tutela de Mendonça, revela uma seletividade que afronta a lógica do interesse público e evoca fantasmas de blindagem partidária e ideológica.
De um lado do espectro, a condução do ministro foi ágil em expor as franjas do centrão e da esquerda. O senador Ciro Nogueira (PP-PI), há muito tempo habituado aos meandros do pragmatismo fisiológico, foi deixado em mar aberto no curso das investigações. Os relatórios da PF, liberados pelo relator, detalham com requintes de ostentação jantares nababescos em Courchevel, nos Alpes Franceses, viagens de luxo pagas por Vorcaro e repasses mensais de R$ 300 mil que totalizaram ao menos R$ 6 milhões. Para Ciro, o peso das provas e a desidratação de sua blindagem política tornaram sua situação insustentável.
Argumentar que o caso de Flávio se difere por se tratar de “investimento privado em obra cultural” ou pela “lentidão burocrática dos mecanismos de cooperação jurídica internacional” é um exercício de cinismo técnico. A robustez documental apresentada no caso dos R$ 61 milhões supera, em materialidade inicial, muitos dos indícios que justificaram o arrombamento de portas de outros investigados, todos também senadores. A diferença real e incontornável não está nos autos, mas na biografia de quem assina as ordens no STF.
André Mendonça chegou ao Supremo por uma escolha pessoal e declarada de Jair Bolsonaro, ungido sob a promessa de ser seu representante “terrivelmente evangélico” nos interesses daquela gestão no Tribunal. Ver o mesmo magistrado atuar hoje como o juiz que calibra o tempo, a intensidade e o sigilo de uma investigação que sufoca a oposição e blinda o filho do seu padrinho político é um insulto à neutralidade que se espera da magistratura.
A condução da Operação Compliance Zero sob a batuta de Mendonça desenha uma justiça de duas velocidades e dois pesos. Para os adversários ou aliados descartáveis do sistema, aplica-se o rito sumário da espetacularização, das buscas ao amanhecer e do confisco de passaportes. Para o herdeiro do bolsonarismo, que operou repasses milionários nas sombras de offshores norte-americanas com um banqueiro fraudador, concede-se o benefício do tempo, da dúvida e da eterna “fase de verificação”. Se o papel do STF é garantir a estabilidade democrática e a aplicação cega da lei, a postura de André Mendonça neste caso atesta o contrário: a balança pendeu, e a venda da justiça foi estrategicamente levantada sobre um dos olhos para poupar os seus.
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