Em seu permanente vale-tudo por dinheiro, prestígio público e influência política, o apresentador Luciano Huck passou a integrar, junto com o ex-ministro do STF Luís Roberto Barroso, o Conselho Institucional da Enter, startup brasileira de inteligência artificial aplicada à área jurídica.
Segundo a empresa, a tecnologia auxiliará departamentos jurídicos de grandes empresas em processos cíveis e trabalhistas, com elaboração de peças, contestações, análise de provas e dossiês de estratégia jurídica. Na visão de Mateus Costa-Ribeiro, cofundador e diretor-presidente da startup, trata-se de transformar a Enter em uma “força monopolística” em IA jurídica na América Latina.
No ano passado, Huck lançou um projeto voltado a ajudar pessoas a compreenderem melhor a inteligência artificial e a identificar conteúdos produzidos por IA. Chamado Instituto Inteligência Artificial de Verdade (IAV), o projeto se define como plural e colaborativo.
“Nosso objetivo é promover letramento digital e ampliar o entendimento sobre o uso consciente da IA. Queremos simplificar conceitos, traduzindo termos técnicos em linguagem clara e acessível. Através de exemplos práticos, mostramos como a inteligência artificial já está presente na televisão, cinema, publicidade e música, e como ela transformará significativamente a forma como aprendemos, trabalhamos, empreendemos, votamos e nos relacionamos”, afirma a página do Instituto no Instagram.
Ele foi apresentado como padrinho da iniciativa e exibiu em seu programa na TV Globo um vídeo de viagem ao espaço, totalmente criado e roteirizado por IA.
“O roteiro da minha ‘viagem ao espaço’ foi 100% feito por humanos. Mas todas as imagens, sons, música e ambientação foram gerados por inteligência artificial. Ou seja, apesar da aparência, eu não estive no espaço”, explica Huck na postagem que acompanha o vídeo.
A Enter entrou para o grupo dos chamados “unicórnios” após receber aporte de mais de US$ 100 milhões liderado pelo Founders Fund, fundo americano associado a Peter Thiel, cofundador da Palantir.
Peter Thiel, o amigo de Epstein e o açougueiro de Gaza
Peter Thiel é o elo entre o capital financeiro-tecnológico e a indústria de vigilância e defesa baseada em IA. Ele cofundou a Palantir em 2003 e também a Valar Ventures, fundo no qual Jeffrey Epstein investiu cerca de US$ 40 milhões em 2015 e 2016.
Documentos do espólio de Epstein e reportagens posteriores indicam que esse investimento teria se tornado um dos maiores ativos remanescentes do espólio, hoje avaliado em cerca de US$ 170 milhões. Um porta-voz de Thiel negou que Epstein fosse “coproprietário” do fundo, mas confirmou que ele foi sócio, isto é, investidor passivo.
A Palantir é a face operacional desse sistema. Seu modelo global consiste em entrar em infraestruturas públicas sensíveis — saúde, defesa, segurança, imigração e inteligência — com contratos milionários pagos com dinheiro público. No Reino Unido, um consórcio liderado pela Palantir venceu o contrato da Federated Data Platform do NHS em 2023, para conectar dados de saúde do sistema público; paralelamente, o Ministério da Defesa britânico firmou contrato de cerca de £240 milhões com a Palantir para capacidades de análise de dados voltadas a decisões estratégicas, táticas e operacionais.
Mas a questão não se limita apenas à privacidade e à soberania de dados: envolve também a cumplicidade tecnológica da Palantir de Thiel no genocídio de Gaza. Em janeiro de 2024, a Palantir anunciou parceria estratégica com o Ministério da Defesa de Israel para apoiar “missões relacionadas à guerra”.
Isso ocorreu no contexto em que Israel já era acusado, perante a Corte Internacional de Justiça, de violar a Convenção do Genocídio em Gaza. A Palantir tem operado expansivamente como fornecedora de infraestrutura algorítmica para Estados em áreas de saúde, defesa, segurança e guerra, e hoje é acusada por organizações, investidores e relatores de contribuir tecnologicamente para violações de direitos humanos no genocídio israelense em Gaza.
A Enter foi pesadamente financiada por capital estrangeiro liderado pelo Founders Fund, associado a Peter Thiel. A empresa passa a operar em um setor altamente sensível: o contencioso jurídico de massa. Seu produto promete automatizar a produção de teses, peças e estratégias para grandes empresas, com acesso a bases públicas e integração com sistemas jurídicos. Isso levanta uma questão central: até que ponto a IA jurídica privada pode produzir, em escala, consensos jurídicos, estratégias processuais e vantagens informacionais para grandes litigantes em detrimento de consumidores, trabalhadores e partes economicamente mais fracas?
A Enter avança sobre o mercado de dados judiciais e automação do contencioso, levantando questões sobre soberania digital, soberania jurídica, conflito de interesses e captura privada da Justiça brasileira. Segundo Costa-Ribeiro, Barroso seria o representante jurídico, e Huck, o representante da sociedade civil.
Aqui cabe, primeiramente, a pergunta: qual sociedade civil se pretende representar através de Huck? A formulação beira o escárnio. Huck, mediador das elites brasileiras, usa sua exposição midiática para gerar assimetria informacional na promoção de produtos como bets e o Will Bank de Daniel Vorcaro. Este último envolve um contrato entre Huck, a Globo e Vorcaro que nunca foi satisfatoriamente explicado.
Também parece questionável que o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) tenha autorizado a Enter a ter acesso à API de consulta de dados públicos do Poder Judiciário, o que significa que uma empresa intimamente relacionada à supervigilância em massa e à tecnologia bélica de vários países terá acesso a dados das instituições jurídicas brasileiras, aparentemente com o aval e as boas relações de Barroso.
A IA já não pode ser entendida apenas como uma tecnologia civil de produtividade. Ela integra diretamente a infraestrutura militar, de vigilância e de guerra dos Estados Unidos. Por exemplo, em 3 de maio de 2026, a Bloomberg Línea revelou que o Pentágono fechou novos acordos com gigantes como Nvidia, Microsoft, Amazon, Oracle, SpaceX, OpenAI e Google para ampliar o uso de IA em redes militares classificadas, com termos que permitem “uso operacional dentro da legalidade” e margem para emprego em operações sigilosas, inclusive apoio à seleção de alvos.
A IA global se conecta diretamente ao Pentágono; portanto, a entrega de dados jurídicos, padrões processuais e infraestrutura decisória brasileira a empresas privadas financiadas por esse mesmo ecossistema tecnológico não pode ser tratada como simples inovação.
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