Segundo levantamento do Aláfia Lab, 4 em cada 10 brasileiros encontram mais fake news sobre política e eleições do que sobre outras temáticas; desinformação política também está entrelaçada a outros temas
Não é novidade que conteúdos políticos falsos e manipulados circulam nas redes sociais, é uma prática que se arrasta desde o ano de 2018, e arrisca-se dizer desde 2016 no Brasil. Temas política e eleições seguem no centro da desinformação disseminada em plataformas digitais no país, mas agora adotando novos formatos. É o que mostra o relatório Como os Brasileiros percebem a circulação da desinformação e o uso da Inteligência Artificial, do laboratório de pesquisa independente Aláfia Lab, obtido pela Fórum.
O estudo é baseado em 1.512 entrevistas feitas pelo Instituto IDEIA entre 24 e 25 de setembro de 2025, e indica que 4 em cada 10 brasileiros encontram mais fake news sobre política e eleições (43%) com folga em relação a outras temáticas de interesse público.
O índice que supera com folga outros assuntos citados, como celebridades e influenciadores (24%), saúde (23%) e economia (22%), embora muitas vezes, também esteja entrelaçada a esses temas. Segundo o relatório, 55% dos brasileiros dizem encontrar informações falsas na internet sempre ou com alguma frequência, enquanto apenas 15% relatam raramente ou nunca se deparar com esse tipo de conteúdo. Além disso, 5 em cada 10 afirmam conseguir identificar fake news, mas com dúvidas em alguns casos, e só 29% dizem fazê-lo com facilidade.

Relatório Aláfia Labs 2026
Na prática, a reação mais comum diante de conteúdos suspeitos é ignorar a informação. De acordo com o estudo, 47% dos entrevistados adotam essa postura, 32% procuram checar se o conteúdo é verdadeiro e 10% dizem denunciar a publicação às plataformas. A identificação de fake news ocorre principalmente por “avaliação individual”, ou seja, a partir da proópria percepção: 58% afirmam perceber incoerências ou erros na própria notícia e 48% dizem se basear em comentários na publicação; 31% recorrem a avisos de amigos, familiares ou colegas. Ferramentas especializadas têm baixa adesão, como aplicativos de verificação de imagens (18%) e agências de checagem (17%).
O relatório também aponta que a percepção sobre a desinformação varia conforme idade, escolaridade e posição política. Pessoas com 45 anos ou mais relatam encontrar fake news com mais frequência e percebem mais os danos causados por elas; já os jovens dizem ter mais facilidade para identificá-las. Entre os que se identificam com a esquerda, 39% afirmam conseguir reconhecer notícias falsas com facilidade, ante 30% entre os de direita. Também é maior, entre os respondentes de esquerda, o uso de agências de checagem: 24%, contra 13% na direita e 17% no centro.
Direita é a que mais usa IA
A direita lidera o uso de chats de inteligência artificial para produção de conteúdo. O ChatGPT é a ferramenta mais citada no levantamento, com 42% de uso geral, seguido pelo Gemini, com 25%. Na análise por posicionamento político, o ChatGPT aparece com maior incidência entre pessoas de direita (53%) do que entre as de esquerda (39%); na direita, a IA é mais usada para criação de imagens e vídeos. Já entre pessoas de esquerda e de centro, o uso para checar fake news é mais alto do que entre as de direita.
A pesquisa também revela que o uso de IA ainda é desigual no país. Embora 30% afirmem usar ferramentas de inteligência artificial diariamente, 47% dizem utilizá-las apenas ocasionalmente e 37% nunca terem usado um chat de IA. O acesso cresce entre jovens, pessoas com maior escolaridade e integrantes da classe AB; entre os mais velhos, o uso tende a ser mais cauteloso e voltado ao aprendizado.
“Quanto menor o nível socioeconômico, menor a percepção de que a desinformação causa altos níveis de dano. Por outro lado, quanto maior a escolaridade, maior a percepção de os danos causados pelas notícias falsas serem elevados”, observam os pesquisadores.
Na avaliação do Aláfia Lab, compreender como os brasileiros identificam fake news e como usam a inteligência artificial é um dos caminhos para discutir a integridade da informação e a qualidade do debate público.
“O estudo captura as mudanças provocadas por dois fenômenos contemporâneos que têm se tornado hoje estruturantes no consumo de informação. De um lado, temos a desinformação como um problema social de grande impacto na construção da percepção do público sobre a realidade. Por outro lado, temos a IA como um novo intermediário que tende a impactar cada vez mais no modo como se consome informação e, ao mesmo tempo, desinformação”.
O relatório foi produzido com base em amostra nacional, com margem de erro de 2,5 pontos percentuais e nível de confiança de 95%. Confira o estudo completo.
18 influenciadores políticos de IA no Brasil interagem com usuários
Um outro levantamento, divulgado pelo Observatório de IA nas Eleições, em parceria com o instituto de pesquisa de dados Data Privacy Brasil e o Aláfia Labs, identificou pelo menos 18 perfis de influenciadores digitais artificiais no Brasil, no período entre janeiro de 2025 e abril de 2026.
Segundo o estudo, 61% desses avatares não informam ao público que seus conteúdos são produzidos por inteligência artificial, apesar das regras estabelecidas pela Justiça Eleitoral, e 78% dos perfis desinformam esse mesmo público nas redes sociais, com posições simplistas, preconceituosas e discursos políticos extremistas. A investigação encontrou personagens virtuais projetados para se passar por cidadãos comuns, influenciadores, comunicadores e até lideranças populares.
Os conteúdos enganosos têm como principais alvos o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e ministros do Supremo Tribunal Federal, como Alexandre de Moraes, Cármen Lúcia e Luís Roberto Barroso. “A identificação desses materiais só foi possível a partir da análise de características das imagens e dos áudios, como diferenças de proporção, problemas de resolução e elementos robotizados”, destacam os institutos.
Um dos casos destacados pela pesquisa é o da conta “Dona Maria”, um avatar de uma mulher idosa negra que reúne mais de 400 vídeos com ataques ao presidente Lula e ao campo da esquerda. (Acesse todos os casos neste link).
“Na ocasião, a conta publicou um vídeo que simulava uma manifestação liderada pela suposta influenciadora em frente a uma agência do Banco do Brasil. No conteúdo, Dona Maria chamava o presidente Lula de “chefe de organização criminosa”. Desde então, o perfil publicou mais de 400 vídeos e passou a circular também em outras plataformas”, afirmam.
Encaminhado ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) após representações de partidos políticos, o caso abre um debate que vai além da simples disseminação de conteúdo falso.
No caso de “Dona Maria”, a dinâmica é outra: não existe uma pessoa real tendo suas falas e atitudes manipuladas. Trata-se de uma identidade totalmente fabricada, criada para atuar de forma contínua no ambiente digital com aparência de autenticidade. O que circula não é apenas um conteúdo falso sobre alguém existente, mas uma personagem artificial que simula espontaneidade política, interação e participação direta no debate público.
“Funcionam como fontes fictícias de opinião política, com aparência de espontaneidade. Um avatar pode parecer uma pessoa real reagindo a um fato político quando, na verdade, é uma construção artificial produzida para reforçar uma narrativa”, escrevem os pesquisadores do Data Privacy e Aláfia Labs.
Na religião, evangélicos são os que menos checam veracidade dos fatos
A desinformação já não é apenas um problema das redes sociais ou da política. Ela se tornou uma questão que atravessa famílias, igrejas, comunidades e afeta diretamente a forma como as pessoas compreendem a realidade. No Brasil, um dos grupos mais impactados por esse fenômeno é justamente o segmento evangélico.
O dado também aparece no relatório produzido pelo Aláfia Lab. Ainda segundo a pesquisa, os evangélicos são o grupo religioso que menos utiliza agências de checagem de fatos para verificar informações recebidas. Ao mesmo tempo, aparecem entre os grupos que mais relatam contato com notícias falsas relacionadas a religião e fé.
A combinação desses fatores ajuda a compreender por que boatos, teorias conspiratórias, falsas perseguições religiosas, informações distorcidas sobre projetos de lei e narrativas políticas travestidas de discurso religioso encontram terreno fértil para circular em muitos ambientes cristãos.
O problema não é exclusivo dos evangélicos, mas assume características próprias dentro desse universo. Grande parte da circulação de informações ocorre por meio de redes de confiança: grupos de WhatsApp, canais religiosos, influenciadores digitais, líderes e membros de igrejas. Quando uma informação chega acompanhada da recomendação de alguém respeitado pela comunidade, ela tende a ser aceita com menos questionamentos.
A pesquisa mostra que apenas 17% dos brasileiros recorrem a agências especializadas de checagem para verificar conteúdos suspeitos. A maioria prefere confiar em sua própria percepção, em comentários publicados nas redes sociais ou em alertas de amigos e familiares. Essa lógica reforça a força dos vínculos pessoais, mas também aumenta a vulnerabilidade à manipulação.
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