Há documentários que registram a história. E há documentários que impedem que ela seja reescrita e esquecida
Anatomia do Caos, dirigido por Dandara Ferreira, pertence à segunda categoria. Em um momento em que setores da extrema direita tentam relativizar a condução da pandemia pelo governo Jair Bolsonaro, o filme devolve ao centro do debate aquilo que o tempo não deveria apagar: o Brasil perdeu mais de 700 mil vidas para a Covid-19, e muitas dessas mortes poderiam ter sido evitadas. O médico infectologista Marcos Caseiro considera que ao menos 400 mil pessoas desse total não teriam falecido.
Anatomia do Caos nos resgata isso e ao mesmo tempo nos devolve ao momento da CPI da Covid, já que boa parte do filme é feito com bastidores dessa Comissão.
Ali a gente relembra que o médico e deputado Osmar Terra minimizava o efeito do vírus. Dizia que ele mataria menos do que o H1N1. Revemos a médica Nise Yamaguchi sendo desmascarada por não conseguir apresentar as evidências científicas que sustentariam o chamado tratamento precoce. Assistimos novamente ao ex-ministro Eduardo Pazuello encerrar seu depoimento na CPI da Covid dizendo que saiu do ministério por ter cumprido sua missão, enquanto centenas de milhares de brasileiros já haviam morrido.
O filme também revisita personagens de fora da área médica que se tornaram símbolos daquele período. Carlos Wizard defendendo medicamentos sem eficácia comprovada. Luciano Hang transformando sua influência empresarial em plataforma de defesa das posições do governo. E, sobretudo, os irmãos Luiz Ricardo e Luiz Cláudio Miranda denunciando as suspeitas envolvendo a compra da vacina Covaxin, em um dos episódios mais graves revelados pela CPI.
Mas talvez o capítulo mais perturbador seja o da Prevent Senior.
Os relatos sobre a distribuição sistemática do kit Covid, a pressão sobre médicos, as denúncias de alterações em prontuários e o sofrimento de famílias mostram como o negacionismo deixou de ser apenas um discurso político para produzir consequências concretas dentro de hospitais.
É impossível assistir a esses depoimentos sem sentir indignação.
Há ainda um aspecto frequentemente esquecido pela memória coletiva: a importância da CPI da Covid.
Durante meses, milhões de brasileiros acompanharam diariamente seus depoimentos. A comissão não apenas reuniu provas e expôs contradições. Ela desmontou, diante da opinião pública, a narrativa construída pelo bolsonarismo sobre sua atuação durante a pandemia.
Pesquisas realizadas naquele período mostravam que quem acompanhava a CPI tendia a fazer uma avaliação mais negativa do governo. Não é difícil entender por quê. Pela primeira vez, as decisões tomadas dentro do Palácio do Planalto deixavam de ser abstrações e ganhavam rosto, documentos, datas e testemunhas. A CPI transformou um debate que estava disperso em uma narrativa compreensível para o conjunto da sociedade.
É evidente que ela não produziu todas as consequências esperadas. O relatório final recomendou indiciamentos importantes, mas a Procuradoria-Geral da República, então comandada por Augusto Aras, arquivou praticamente todas as iniciativas. Nenhuma responsabilização proporcional à gravidade dos fatos ocorreu até hoje.
Ainda assim, a CPI produziu um efeito que talvez tenha sido ainda mais importante: um julgamento político.
É legítimo perguntar se Jair Bolsonaro teria perdido as eleições de 2022 sem o desgaste provocado pelas revelações da comissão. Evidentemente, não há como responder essa pergunta de forma definitiva. Uma eleição é resultado de muitos fatores: economia, alianças, campanha, rejeição, desempenho dos adversários e contexto internacional. Mas eu arrisco dizer que se Bolsonaro tivesse agido de forma razoável na pandemia não haveria CPI e ele teria sido reeleito.
Anatomia do Caos nos lembra que democracia depende de memória.
O negacionismo não desapareceu com o fim da pandemia. Ele continua vivo, agora travestido de revisionismo histórico. Há quem tente apresentar aqueles anos como um período de decisões difíceis, mas inevitáveis, apagando deliberadamente as escolhas que foram feitas e as advertências que foram ignoradas.
É justamente por isso que este documentário merece ser visto por milhões de brasileiros, especialmente em um período pré-eleitoral.
Não para dizer em quem votar.
Mas para que ninguém vote esquecendo o que aconteceu.
Porque um país que perde a memória corre sempre o risco de repetir suas tragédias.
Por Renato Rovai
Acre in Foco – Cobertura das Últimas Notícias do Acre Acre in Foco traz as últimas notícias do Acre, com cobertura atualizada sobre política, segurança, saúde, cultura e eventos locais. Fique por dentro de tudo
