Energia e água em risco: 7 cidades brasileiras se mobilizam contra o recebimento de data centers

Energia e água em risco: 7 cidades brasileiras se mobilizam contra o recebimento de data centers

A corrida global por data centers chegou a uma nova fase no Brasil. Um levantamento da Allrea obtido pela CNN Brasil aponta demanda por áreas em ao menos sete cidades: Sorocaba e Araraquara, em São Paulo; Joinville, em Santa Catarina; Ponta Grossa, no Paraná; e Rio de Janeiro, Nova Iguaçu e Queimados, no Rio de Janeiro.

O principal atrativo é a energia elétrica. Como essas estruturas consomem grandes volumes de eletricidade para manter servidores, sistemas de resfriamento e operação contínua, investidores buscam terrenos próximos a subestações com capacidade disponível para novas conexões. A lista também considera logística, grandes áreas livres e compatibilidade com o zoneamento urbano.

O movimento ocorre no momento em que a inteligência artificial transforma os data centers em infraestrutura estratégica. A Agência Internacional de Energia projeta que o consumo global de eletricidade desses empreendimentos deve mais que dobrar até 2030, chegando a cerca de 945 TWh, pouco menos de 3% da demanda elétrica mundial. A IA é apontada como o principal motor desse salto.

No Brasil, o Rio de Janeiro já tenta se posicionar como polo da nova indústria. O projeto Rio AI City, da Elea, informa que a primeira fase inclui o data center RJO1 em operação e a construção do RJO2, com entrega inicial prevista para 2026. A empresa vende o projeto como conectado a cabos submarinos, logística e uma rede elétrica de alta disponibilidade.

A expansão, porém, traz um alerta que já aparece em países onde os projetos saíram do papel. Nos Estados Unidos, a concentração de data centers passou a ser contestada por moradores, ambientalistas e autoridades locais por pressão sobre energia, água, uso do solo, ruído e poluição. A Reuters informou que projetos avaliados em cerca de US$ 64 bilhões foram bloqueados ou atrasados por resistência local em estados como Texas, Oregon e Tennessee.

A Virgínia, maior concentração mundial de data centers, virou símbolo desse conflito. A QTS, da Blackstone, encerrou em julho o projeto Digital Gateway, no condado de Prince William, após anos de disputa regulatória, oposição comunitária e litígios. A Reuters registrou que o boom no estado, puxado por IA e computação em nuvem, elevou o escrutínio sobre demanda elétrica, uso de terra, água e impacto ambiental.

A água é outro ponto crítico. Data centers precisam de resfriamento constante, e parte dos sistemas utiliza grandes volumes de água direta ou indiretamente. Segundo a Reuters, data centers da América do Norte consumiram quase 1 trilhão de litros de água em 2025, volume comparável à demanda anual da cidade de Nova York.

Em Wyoming, um caso envolvendo a Meta expôs o risco concreto de contaminação. Autoridades disseram que uma contratada da empresa despejou água contaminada por bactéria em esgotos públicos durante a construção de um data center de IA em Cheyenne. A cidade revogou permanentemente a autorização de descarte e adotou novas regras para impedir esse tipo de lançamento em sistemas municipais.

A poluição do ar também virou frente de conflito. A NAACP, maior organização de direitos civis dos Estados Unidos, processou a xAI, de Elon Musk, e uma subsidiária, alegando operação ilegal de mais de duas dezenas de turbinas a gás no Mississippi para abastecer o data center Colossus 2. A entidade afirma que a estrutura oferece risco à saúde de moradores próximos.

Em Lowell, Massachusetts, moradores relataram incômodo com ruído, geradores a diesel e preocupação com qualidade do ar e da água em torno de um data center instalado perto de uma área residencial. A Associated Press registrou que ondas de calor elevam a demanda elétrica dessas estruturas e podem levar ao uso de geradores, o que agrava tensões locais.

Os protestos estadunidenses também passaram a mirar prefeitos, conselhos municipais e acordos feitos sem transparência. Em diferentes estados, moradores cobram moratórias, tentam derrubar autoridades locais e questionam negociações sob sigilo. O Guardian registrou que a resistência une eleitores de campos políticos distintos, movidos por medo de aumento nas contas de energia, perda de qualidade de vida e pressão sobre recursos hídricos.

O Brasil entra nessa disputa com vantagens, como matriz elétrica mais limpa e disponibilidade de áreas, mas os exemplos dos Estados Unidos mostram que a conta não é apenas tecnológica. Sem planejamento público, transparência sobre consumo de água e energia, regras ambientais e distribuição territorial, a corrida pelos data centers pode transformar a infraestrutura da IA em novo foco de conflito urbano e ambiental.

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