Enquanto o presidente da CBF segue acumulando salários milionários e se envolvendo em polêmicas bancando amantes na Copa, enquanto Carlo Ancelotti tem contrato garantido até 2030 recebendo milhões por mês, enquanto a maioria dos jogadores mantém salários astronômicos — muitos deles merecidos pelo talento e pela carreira construída — milhões de brasileiros terminam mais uma Copa do Mundo com um sentimento difícil de explicar. Não é apenas tristeza pela eliminação. É a frustração de um país que segue encontrando no futebol uma das poucas fontes coletivas de esperança.
Em uma nação marcada pela desigualdade, o futebol ainda consegue unir pessoas de origens, classes sociais, religiões e visões de mundo completamente diferentes. Durante noventa minutos, o desempregado, o empresário, o aposentado e o estudante vestem a mesma camisa e compartilham o mesmo desejo. E esperança, no Brasil, nunca foi algo barato.
Chegamos ao maior jejum de títulos mundiais da nossa história. A última conquista foi em 2002. Uma geração inteira cresceu ouvindo histórias sobre Pelé, Garrincha, Romário, Bebeto, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho, mas sem experimentar a sensação de ver o Brasil levantar a taça. O mundo mudou, o futebol mudou e talvez nós não tenhamos acompanhado essa transformação na mesma velocidade.
O Brasil continua produzindo talentos e revelando grandes jogadores. Vinícius Júnior merece elogios pelo que construiu no futebol mundial. Mas a diferença é que, hoje, talento sozinho não resolve mais. Durante décadas, a seleção conseguia vencer apesar do caos. Nos anos 1990 já existiam denúncias, cartolas poderosos, decisões questionáveis e problemas estruturais. A diferença é que havia uma geração de craques capaz de superar tudo isso dentro de campo. Romário, Bebeto, Ronaldo, Rivaldo e tantos outros conseguiam fazer a diferença mesmo quando a estrutura ao redor estava longe do ideal.
Entretanto, o futebol moderno tornou-se mais coletivo, mais científico e mais planejado. Não basta reunir bons jogadores. É preciso organização, estabilidade, trabalho de base, gestão séria e um projeto esportivo consistente. Em 2002, o Brasil trocou de treinador quatro vezes ao longo do ciclo e ainda assim conquistou a Copa do Mundo. Aquela realidade não existe mais. Nenhuma seleção relevante do planeta vive apenas de talento isolado. As grandes conquistas são resultado de planejamento.
A Seleção Brasileira acabou se tornando refém de decisões erráticas, mudanças constantes de rumo e convocações que muitas vezes parecem atender mais ao espetáculo do que ao desempenho esportivo. A convocação de Neymar simboliza um pouco disso – em meio àquele show de horrores que foi o evento. Quero acreditar que tenha ocorrido em razão das lesões de Rodrygo e Estevão. Mas a realidade mostrou aquilo que muitos já observavam: ele não possuía condições físicas para sustentar noventa minutos em alto nível. Não se trata de questionar sua história ou seu talento, mas de reconhecer o momento esportivo.
Enquanto isso, as bets dominam o cenário esportivo. Clubes, campeonatos, transmissões e influenciadores orbitam uma indústria que movimenta cifras gigantescas e transforma o futebol cada vez mais em produto e cada vez menos em patrimônio cultural. O torcedor continua financiando essa engrenagem, comprando camisas, assinando plataformas, acompanhando transmissões e acreditando que, desta vez, será diferente.
Talvez por isso a relação das novas gerações com a Seleção Brasileira seja tão diferente. Muitos jovens acompanham mais Real Madrid, Manchester City ou Barcelona do que os clubes do próprio país. Outros chegam ao ponto de torcer pela Argentina, rival histórica que raramente demonstra reciprocidade esportiva. Trata-se de uma mudança cultural profunda, que vai muito além dos resultados em campo.
A reflexão mais importante, porém, é outra. Nenhum povo deveria depositar suas maiores esperanças em um time ou em uma seleção de futebol. O futebol pode oferecer alegria, emoção, memória afetiva e momentos inesquecíveis, mas não pode carregar sozinho o peso dos sonhos de uma nação. O que deveria alimentar a esperança dos brasileiros é algo muito maior: um país menos desigual, com melhor distribuição de renda, educação pública de qualidade, saúde acessível, segurança eficiente, incentivo à cultura, à ciência, ao esporte e à infraestrutura.
Torcer pela Seleção Brasileira não é necessariamente um ato de patriotismo. Aliás, talvez seja justamente o conceito de patriotismo que mereça ser debatido com mais profundidade. Patriotismo não é vestir uma camisa de quatro em quatro anos, nem cantar o hino mais alto do que os outros. Patriotismo é tentar acertar mesmo errando, porque ninguém é perfeito. É não prejudicar deliberadamente o próximo para obter vantagens pessoais. É não furar fila. É não usar contatos para passar na frente de quem espera há meses por uma consulta no SUS. É não conseguir benefícios porque tem costas quentes. É não se aproveitar de amizades para vencer editais, concursos ou processos que deveriam ser justos. É compreender que o interesse público não pode ser tratado como extensão dos interesses privados.
Também se fala muito em patriotismo para defender discursos vazios, mas pouco se discute o que realmente significa defender um país. Patriotismo talvez seja não querer vender o próprio país aos interesses estrangeiros, não aceitar uma postura permanente de subserviência diante dos Estados Unidos ou de qualquer outra potência, e entender que soberania continua sendo um tema relevante mesmo em um mundo globalizado. Talvez o próprio conceito de patriotismo esteja em xeque e precise ser revisto. Mas qualquer definição séria passa por responsabilidade coletiva, honestidade cotidiana e compromisso com o bem comum.
Uma Copa do Mundo acaba. Uma eliminação passa. O que permanece são os problemas reais de um país que continua precisando de menos desigualdade, menos privilégios, menos corrupção e mais oportunidades. E essa continua sendo a partida mais importante que o Brasil precisa disputar.
Por André Azenha
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