Depois do orçamento secreto, eis que aparece o “deputado secreto”

Depois do orçamento secreto, eis que aparece o “deputado secreto”

Investigação da PF revela manipulação de Eduardo Cunha sobre R$ 6,15 milhões em emendas parlamentares; “Em prol de sua anunciada campanha a deputado federal”, crava ministro Flávio Dino

Eduardo ‘sempre ele’ Cunha ressurgiu das trevas. Flagrado pela Polícia Federal na manipulação de emendas parlamentares, descobriu-se que, após o orçamento secreto, ele se tornou também um ‘deputado secreto’. Nas sombras da Câmara dos Deputados, o ex-presidente da Casa, preso entre 2016 e 2021, operava 21 emendas parlamentares, no valor de R$ 6,1 milhões, destinadas a municípios de Minas Gerais em que ele mesmo tem ingerência política. Abatido pela condenação por recebimento de propina de US$ 5 milhões em uma conta bancária no exterior, Cunha mudou o domicílio eleitoral do Rio de Janeiro para Minas Gerais, refugiando-se politicamente em  Belo Horizonte. Ali ele pretende lançar oficialmente sua candidatura de volta à Câmara, na próxima quarta-feira, 15.

O problema, para Cunha, é ter sido alvejado em voo pelas investigações da PF e pela decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, de determinar contra ele um bloqueio de bens no exato valor das emendas manipuladas: R$ 6,1 milhões. “Consoante atestam diálogos em aplicativos de mensagens e numerosas planilhas compartilhadas entre os investigados, Eduardo Cosentino da Cunha, sem exercer mandato parlamentar, parece ter atuado, até muito recentemente, como mandante do (re)direcionamento de valores públicos, especialmente em prol de sua anunciada campanha ao cargo de Deputado Federal pelo Estado de Minas Gerais”, escreveu Dino em sua decisão. Mesmo cassado em 2016, Cunha atua, segundo a PF, como “agente privado com poderes iguais ou até maiores do que parlamentares em exercício.”

O ‘deputado secreto’, que não tem delegação formal para atuar na destinação de emendas parlamentares, agia como se tivesse mandato, determinando aos parlamentares de seu grupo onde e como alocar suas emendas nos municípios de Minas Gerais. As investigações avançam para confirmar se, nessa condição de chefe político e lobista, figura que não consta da legislação brasileira, ele recebia ganhos extraídos dos valores das próprias emendas.

“Eu não aguento mais esses mineiros enrolados”, escreveu Cunha, em relatório de investigação divulgado pela PF,  à servidora pública Mariângela Fialek, a Tuca, durante uma de suas operações de emendas. “Troca a de Governador Valadares por essa, pois lá também criaram caso pedindo ofício, etc. É mais fácil trocar.”

Além da ingerência indevida de Cunha, essa ordem de um não parlamentar e uma servidora pública deixa claro a bagunça existente entre as emendas orçamentárias operadas na Câmara dos Deputados. A destinação sobre onde e para quais projetos as verbas públicas devem ser endereçadas não obedece a qualquer critério técnico nem está submetida a um plano organizado. É na base da vontade do chefe político que o dinheiro chega às prefeituras. O modelo de Cunha, como se vê nas descobertas da PF, é operar onde há menos burocracia e mais condições de driblar a fiscalização.

A nova entrada nas páginas policiais do ex-deputado Eduardo Cunha demonstra que os anos de cadeia não o convenceram a mudar a sua maneira de atuar. Ele repete, na comprovada manipulação de emendas parlamentares, modelos de chefe de gang, a exemplo do que se viu durante o impeachment da então presidente Dilma Rousseff, que ele liderou.  Se Cunha confirmar a sua candidatura no dia 15, o que deve ocorrer, fica para os eleitores mineiros a decisão de dar mais um mandato a um manipulador como ele – ou contribuir para o saneamento da atividade política e negar-lhe o voto. É com vocês!

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