Economista-chefe do Banco Mundial alerta para impacto devastador em países emergentes e risco de crise de endividamento
A recente e grave escalada das hostilidades entre os Estados Unidos e o Irã tem o potencial de reacender a inflação em nível mundial, provocar a elevação das taxas de juros e desacelerar drasticamente o crescimento econômico global para até 1,3% em 2026, um recuo expressivo na comparação com o índice de 2,9% registrado no ano passado, informa a Reuters.
A advertência foi feita pelo economista-chefe do Banco Mundial, Indermit Gill, que se aposenta no final do mês de agosto. Em entrevista concedida na noite de terça-feira (21), o executivo revelou que o organismo financeiro internacional havia modelado três cenários em suas projeções econômicas divulgadas em junho, considerando a elevada incerteza na região. Contudo, ele destacou que o pior cenário previsto — no qual o conflito se estende por seis meses ou mais — já está prestes a se concretizar. Sob esse quadro de estresse, a inflação geral do planeta deve atingir a marca de 4,5%.
Desdobramentos geopolíticos e bloqueios comerciais
A piora no cenário macroeconômico global ocorre na esteira da intensificação dos combates registrada nesta semana. Forças armadas dos Estados Unidos bombardearam alvos localizados nas regiões sul e oeste do Irã, enquanto Teerã respondeu com ataques contra instalações norte-americanas sediadas no Barein, Kuwait e Jordânia.
O conflito, somado ao colapso do acordo de cessar-fogo firmado em abril — que até então sustentava esperanças de um impacto econômico mais brando —, provocou sérias disrupções nas rotas comerciais marítimas. O tráfego no Estreito de Ormuz segue severamente prejudicado. Paralelamente, os rebeldes houthis do Iêmen, aliados ao governo iraniano, anunciaram a imposição de um bloqueio naval aos embarques de petróleo e mercadorias da Arábia Saudita no estreito de Bab el-Mandeb, passagem estratégica de acesso ao Mar Vermelho.
Gill alertou que a prolongação dos conflitos e os danos diretos à infraestrutura petrolífera regional afetarão as cadeias globais de suprimentos, interrompendo o envio de insumos essenciais como fertilizantes, hélio e enxofre. Essa paralisação tende a agravar a insegurança alimentar no mundo e disparar uma reação em cadeia com impactos secundários, incluindo o aperto monetário por meio de juros mais altos.
Impacto nos países em desenvolvimento e “desastre em câmera lenta”
Segundo o economista-chefe do Banco Mundial, os países mais pobres — que ainda não se recuperaram integralmente dos efeitos devastadores da pandemia de Covid-19 — serão os mais atingidos, enfrentando maior escassez de alimentos. Por outro lado, nações fortemente endividadas sofrerão de forma imediata com o encarecimento do custo de financiamento à medida que os bancos centrais aumentarem as taxas de juros. Para honrar os compromissos financeiros, esses governos serão forçados a reduzir investimentos cruciais em serviços vitais, como saúde e educação.
“Minha impressão pessoal é que talvez estejamos a alguns meses disso, sabe, porque ainda não começamos a ver as taxas de juros de referência subindo”, avaliou Gill. O economista explicou que, uma vez que a aceleração inflacionária ganhe força, bastarão poucos meses para que países altamente endividados enfrentem severas dificuldades para efetuar o pagamento do serviço da dívida.
Classificando a conjuntura como um “desastre em câmera lenta”, Gill ponderou que, mesmo os países que conseguirem evitar o calote definitivo (default), verão suas perspectivas de crescimento de longo prazo minguar, uma vez que recursos destinados ao desenvolvimento futuro serão drenados para amortizar os juros das dívidas.
Sinais de estresse financeiro e indicadores globais
Os primeiros sinais de forte tensão financeira já começaram a se manifestar no cenário internacional. Países com severas restrições orçamentárias solicitaram ao Fundo Monetário Internacional (FMI) o aumento dos aportes em programas de empréstimos já vigentes. Em um movimento emblemático registrado nesta semana, o governo do Paquistão pediu formalmente aos Estados Unidos a concessão de uma linha de estabilização cambial no valor de US$ 10 bilhões, segundo revelou uma fonte familiarizada com o assunto.
As projeções publicadas pelo Banco Mundial em junho indicavam que 40% dos países de baixa e média renda já se encontravam em situação de sobreendividamento ou sob alto risco de alcançá-la — o equivalente a 32 nações. Esse contingente, contudo, pode expandir rapidamente diante da alta dos juros.
A deterioração das contas públicas nos últimos anos amplia a vulnerabilidade dessas economias. Dados do Banco Mundial mostram que a relação média entre a dívida e o Produto Interno Bruto (PIB) nos mercados emergentes e em desenvolvimento saltou para cerca de 74% em 2025, um aumento substancial frente aos patamares de 50% a 55% observados antes do surto pandêmico no final de 2019. Entre as nações de baixa renda, a proporção da dívida sobre o PIB subiu de 40% para 67% no mesmo período.
Diante do agravamento desse cenário, Gill ressaltou que alguns países necessitarão inevitavelmente de acordos de renegociação e perdão da dívida, analisados de forma individualizada caso a caso. Por fim, o economista pontuou que as maiores economias do planeta — Estados Unidos, China e Índia — mantêm relativa proteção contra os choques diretos da guerra devido a diferentes fontes internas de resiliência, deixando o peso mais severo da crise sobre os ombros do mundo em desenvolvimento.
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