A bandeira dos Estados Confederados, encontrada entre os materiais apreendidos pela Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) durante a Operação Rede Interrompida, costuma ser defendida publicamente por um deputado bolsonarista.
A operação, deflagrada nesta terça-feira (4), investiga um plano para atacar prédios públicos em Brasília durante o período eleitoral de 2026. Oito pessoas, com idades entre 19 e 31 anos, são alvo da investigação, conduzida pela Divisão de Prevenção e Combate ao Extremismo Violento (DPCev).
Entre os materiais apreendidos está uma bandeira de batalha dos Estados Confederados, um capuz semelhante aos usados pela Ku Klux Klan (KKK) e uma camiseta da banda Burzum, cujo fundador, o norueguês Varg Vikernes, é conhecido por suas posições neonazistas e supremacistas.
Segundo a PCDF, o grupo compartilhava plantas arquitetônicas e modelos tridimensionais de prédios públicos da região central de Brasília, mapas da capital, estratégias de ocupação de edifícios, discussões sobre recrutamento de participantes e manuais para fabricação de artefatos explosivos.
Símbolo supremacista
A bandeira apreendida é a chamada bandeira de batalha dos Estados Confederados, utilizada pelos estados do sul dos Estados Unidos durante a Guerra Civil (1861-1865), travada em defesa da manutenção da escravidão.
Nas últimas décadas, o símbolo passou a ser amplamente associado a grupos supremacistas brancos, organizações racistas e movimentos da extrema direita norte-americana, embora seus defensores afirmem que representa apenas a herança histórica dos estados sulistas.
No mês passado, o deputado federal Paulo Bilynskyj (PL-SP) criticou a decisão dos organizadores da tradicional Festa dos Americanos, em Santa Bárbara d’Oeste (SP), de retirar o símbolo da identidade visual do evento. Ele estava lá para celebrar os 250 anos de independência dos EUA.
A celebração, que durante décadas foi conhecida como Festa Confederada, foi reformulada após anos de críticas de movimentos negros e da aprovação de leis municipais que restringem o uso de símbolos associados ao racismo.
Além da mudança de nome, os organizadores decidiram substituir a bandeira confederada pelas bandeiras oficiais do Brasil e dos Estados Unidos.
Presente ao evento, Bilynskyj classificou a retirada como “mimimi” e “frescurada”. “É mimimi, frescurada, como sempre. Sempre vai ter gente fresca no mundo. É muito estúpido uma pessoa imaginar que uma bandeira está associada à escravatura. Isso é burrice, uma burrice muito grande porque uma bandeira está associada a uma população. Ela não está associada a uma ideologia”, declarou o parlamentar.
O deputado também posou para fotografias ao lado do obelisco do Cemitério do Campo, monumento que exibe o símbolo confederado.
Em 2016, Eduardo Bolsonaro publicou uma fotografia ao lado de homens armados tendo ao fundo a bandeira Gadsden, identificada pela serpente e pela frase “Don’t Tread on Me” (“Não pise em mim”).
Apesar de ter nascido quase um século antes da Guerra Civil americana, os próprios confederados já a utilizavam no século XIX devido ao seu forte apelo anti-governo central. As duas bandeiras andam juntas nas mãos de neonazistas.
Criada por Christopher Gadsden, a bandeira tornou-se um dos símbolos históricos da independência americana. A união das União das Treze Colônias servia de aviso ao governo britânico de que a opressão geraria uma reação de autodefesa. Ao longo das últimas décadas, porém, passou a ser adotada por movimentos ultraconservadores e grupos da extrema direita nos Estados Unidos, incluindo setores do Tea Party, milícias armadas e organizações supremacistas.
Em 2014, um casal de extremistas que assassinou dois policiais em Las Vegas deixou sobre os corpos uma suástica e uma bandeira Gadsden.
Por Kiko Nogueira
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